Crítica | A Viagem de Chihiro e os rios enterrados sob o asfalto

Vencedor do Oscar de Melhor Animação, a obra-prima de Hayao Miyazaki ‘A Viagem de Chihiro’ é uma fábula inesquecível sobre o apagamento do indivíduo e a destruição sistemática do meio ambiente.


Em 2002, A Viagem de Chihiro varreu a bilheteria japonesa, conquistou o Urso de Ouro em Berlim e levou o Oscar de Melhor animação. Até hoje, sustenta impressionantes 96% de aprovação tanto da crítica quanto do público no Rotten Tomatoes. É o ápice absoluto do Studio Ghibli.

Mas o fascínio duradouro do filme não vem apenas da excelência da animação tradicional feita à mão. Muitas mãos. Vem do sistema burocrático que rege aquele universo de espíritos.

Nesta análise crítica, eu vou destrinchar a mecânica visual, os temas e o simbolismo de A Viagem de Chihiro. Para entender o filme, vamos partir da ideia de que a jornada de Chihiro não é uma simples transição da infância para a vida adulta, mas um manual de sobrevivência de como preservar a identidade num sistema projetado para explorar o seu tempo e apagar a sua memória.

No Tema 1, “O Sistema Que Te Apaga”, vou falar sobre os pais transformados em porcos, o contrato de Yubaba que rouba os ideogramas do nome de Chihiro, o simbolismo do ouro falso do Sem Rosto e a função da salamandra assada como moeda de suborno entre os trabalhadores da casa de banhos.

No Tema 2, “O Rio Enterrado Sob o Asfalto”, vou falar sobre a bicicleta extraída de dentro doEspírito do Rio, a revelação do nome verdadeiro deHaku, os feitiços de Zeniba e a decisão deHayao Miyazaki de fazer a viagem de trem ocorrer inteiramente sobre a água.

No final, vou explicar por que a última instrução que Chihiro recebe — a regra de não olhar para trás — é a única conclusão possível para a tese do filme. E vou falar também do único objeto que Chihiro trouxe do mundo dos espíritos — e o que esse detalhe diz sobre tudo que o filme apresenta.

E um aviso: a análise tem spoilers do começo ao fim. Se você ainda não viu o A Viagem de Chihiro, vai assistir e volta em seguida. Vai valer a pena.

Em uma entrevista concedida ao portal Midnight Eye em 2002, Hayao Miyazaki declarou: “Eu percebi que não havia filmes para as filhas dos meus amigos. Filmes em que elas pudessem ser as heroínas não porque têm poderes especiais, mas porque sobrevivem usando a própria força interior”.

O motor narrativo de A Viagem de Chihiro é a resistência contra a assimilação. Quando o filme começa, Chihiro é apática. Ela segura um buquê de flores murchas no banco de trás de um Audi importado, irritada com a mudança de cidade. Os pais representam a típica classe média da “Economia da Bolha” japonesa dos anos 80 e 90: meio arrogantes, muito consumistas e completamente crentes de que o dinheiro compra qualquer coisa. O pai entra no parque temático abandonado com a convicção de que o cartão de crédito o protegerá.

Eles sentam na barraca vazia e, como não há ninguém, devoram a comida dos espíritos. O lápis afiado de Miyazaki não julga apenas a gula; ele enquadra o ato de comer como um roubo grotesco. Como consequência, eles são transformados literalmente em porcos, destinados ao abate em um matadouro. A partir deste momento, o filme estabelece sua tese visual: consumir como se não houvesse amanhã transforma cada indivíduo em mercadoria.

Para salvar os pais, Chihiro precisa trabalhar. E o ambiente de trabalho que a acolhe é um microcosmo do capitalismo predatório, operando através do esgotamento e do apagamento.

Cena de A Viagem de Chihiro (Studio Ghibli)

O Sistema Que Te Apaga

A Casa de Banhos de Yubaba é uma engrenagem industrial disfarçada de um spa tradicional. Repare no design de produção. No subsolo, o caldeireiro Kamaji opera uma sala de máquinas sufocante, gerenciando as fuligens — os susuwatari — que carregam carvão em troca de estrelas de açúcar, os konpeito. São trabalhadores braçais mantidos presos e dóceis com recompensas mínimas. Nos andares superiores, os funcionários sapos e lesmas rastejam e competem por gorjetas, usando salamandras assadas para subornar colegas por bilhetes de água termal.

Yubaba fica no topo, num escritório decorado com opulência ocidental — tapetes caros, joias, vasos. Ela é a proprietária dos meios de produção. E a arma mais cruel de Yubaba não é nenhuma magia do mal, é a burocracia.

Quando Chihiro assina o contrato de trabalho, Yubaba rouba três dos quatro caracteres japoneses (kanji) que formam o nome “Chihiro”, deixando apenas o ideograma “Sen”, que significa “mil”. É uma redução contábil. Ela deixa de ser uma pessoa com história e vira um número. 

Haku avisa logo em seguida: se esquecer seu nome original, ela nunca mais conseguirá voltar para casa. No sistema de Yubaba, alienar o indivíduo de sua identidade é o método mais eficiente para garantir mão de obra vitalícia.

O paralelo temático mais forte aqui é o monstro Sem Rosto (Kaonashi). O Sem Rosto entra na Casa de Banhos como uma entidade vazia, um espectro que apenas reflete o ambiente ao seu redor. Como os funcionários da casa são movidos por cobiça, o Sem Rosto se adapta: ele engole um sapo para ganhar voz e começa a produzir ouro falso a partir das mãos. A reação da fábrica é imediata. A equipe inteira oferece banquetes faraônicos enquanto ele devora a comida e, eventualmente, os próprios funcionários.

O Sem Rosto funciona como um espelho da ganância estrutural do lugar. Ele não é intrinsecamente mau; ele é o consumidor final adoecido por um ambiente onde tudo está à venda. A única pessoa que freia essa máquina é Chihiro, agora chamada apenas de Sen. 

Quando o Sem Rosto oferece um punhado de ouro a ela, sua recusa quebra a lógica do sistema. Ao dizer que não precisa de ouro, o monstro fica impossibilitado de comprar o interesse da garota e entra em colapso. 

A mensagem aqui é clara: o capital fictício perde o valor no instante em que o trabalhador recusa o consumo desenfreado.

Há quem argumente que tentar espremer uma leitura anticapitalista rigorosa num conto de fadas folclórico é um exercício excessivo de cinismo adulto. E essa ressalva é justa.

Miyazaki construiu a obra primordialmente como uma aventura de resiliência infantil, e o encanto mágico se sustenta perfeitamente sem o viés econômico. Mas as evidências textuais — o ouro que vira lama, o roubo do nome no contrato, os pais suínos, a greve da protagonista ao recusar propina — formam um padrão denso demais para ser ignorado. O diretor sabe exatamente a quem está criticando. O que, convenhamos, explica por que a hierarquia do banho termal é tão parecida com o organograma de qualquer empresa moderna.

Cena de A Viagem de Chihiro (Studio Ghibli)

O Rio Enterrado Sob o Asfalto

Se o Tema 1 trata da alienação do indivíduo através do trabalho, o Tema 2 trata da destruição do ambiente físico. Em A Viagem de Chihiro, o Japão ancestral foi coberto por asfalto, e os deuses estão doentes.

Isso fica evidente na sequência colossal do Espírito do Fedor (Kusaregami). Um monstro de lodo entra na Casa de Banhos, e Sen é forçada a limpá-lo. Ao dar banho na criatura, ela percebe um espinho alojado em sua lateral. Quando a equipe amarra uma corda e puxa o objeto, o que sai de dentro do monstro é o guidão de uma bicicleta, acompanhada por pneus velhos, linha de pesca e todo tipo de lixo industrial.

A entidade não era um demônio do fedor. Era um antigo Espírito do Rio, corrompido pela poluição humana. Assim que o lixo é extraído, o espírito recupera sua verdadeira forma — uma máscara de ancião que voa para fora do prédio, deixando para Sen um bolinho de ervas curativo. Miyazaki não foi nem um pouco sutil em sua mensagem ambiental. O que ele fez foi enquadrar a limpeza não como uma punição para a protagonista, mas como um ato sagrado de restauração.

Esse conceito encontra seu paralelo direto na figura de Haku. O rapaz que ajuda Chihiro também esqueceu seu próprio nome por causa do contrato com Yubaba. É apenas no terceiro ato, durante a queda no céu, que Chihiro se lembra de uma memória de infância. Ela quase se afogou num rio chamado Kohaku, um rio que foi aterrado pelos humanos para a construção de um complexo de apartamentos.

Haku é o espírito do Rio Kohaku (seu nome verdadeiro é Nigihayami Kohakunushi). Ele perdeu sua identidade porque seu corpo físico — o rio — foi apagado pelo desenvolvimento urbano. Haku e o Espírito do Fedor são espelhos temáticos. Ambos são rios violados pela humanidade. Um foi preenchido com lixo; o outro, pavimentado sob concreto. A libertação de Haku só acontece quando Chihiro devolve a ele a sua história, pronunciando seu verdadeiro nome. A palavra quebra a burocracia do contrato de Yubaba. A memória, no filme, é a antítese da destruição.

Miyazaki contrapõe esse caos opressivo com momentos de silêncio absoluto. O lendário crítico Roger Ebert, ao incluir o filme em sua lista de “Melhores Filmes de Todos Os Tempos”, destacou o uso magistral que Miyazaki faz do Ma, o conceito japonês de espaço negativo ou tempo vazio. 

O clímax dessa técnica ocorre na viagem de trem de Chihiro até a casa de Zeniba, a irmã gêmea de Yubaba. O trem desliza sobre um oceano raso sem destino aparente, passando por passageiros translúcidos esperando em plataformas ilhadas no meio d’água.

O contraste visual e de ritmo é violento. Saímos da poluição, do barulho e do ouro falso da Casa de Banhos direto para uma planície silenciosa e melancólica. Zeniba vive num chalé humilde, tecendo fios na roda de fiar. Ela representa o trabalho manual com propósito, o oposto da produção em massa de sua irmã gêmea.

Confira a análise completa no vídeo:

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