Diretor britânico-nigeriano debate luto e masculinidade em longa premiado, rodado em película 16mm para dignificar a tela, e aponta conexões entre Brasil e Nigéria
A memória, muitas vezes, opera como uma sala de edição particular. Nós cortamos os excessos, ajustamos o brilho da lembrança e, no fim, guardamos apenas o fragmento que nos ajuda a dar sentido a quem somos. O diretor britânico-nigeriano Akinola Davies Jr. entende essa mecânica.
Ele estreia na direção de longas-metragens com A Sombra do Meu Pai, uma obra semi-autobiográfica que já nasce validada por instituições centrais da indústria do cinema. A produção recebeu uma menção especial no Festival de Cannes, levou o prêmio de diretor estreante no Bafta e conquistou o prêmio da crítica na Mostra de Cinema de São Paulo.
A premissa parte de uma base simples para, de forma muito contida, acumular camadas. O enredo acompanha dois meninos, interpretados pelos atores e irmãos na vida real Chibuike Marvellous Egbo e Godwin Egbo. Eles vivem com a mãe no interior da Nigéria, imersos em uma rotina pacata, até que a dinâmica familiar sofre uma ruptura com a visita repentina do pai distante, Folarin, vivido pelo ator Sopé Dìrísù.
O patriarca decide levar os dois garotos com ele até Lagos, a capital e centro econômico do país. O objetivo da viagem passa longe do turismo tradicional. Folarin quer cobrar um salário atrasado que lhe é devido por direito, e usa o trajeto como uma oportunidade para mostrar a grande metrópole aos filhos.
O detalhe mais importante dessa jornada é o momento histórico em que ela acontece. O roteiro situa a ação no exato dia em que a crise eleitoral de 1993 eclode pelas ruas da Nigéria. A macroestrutura da política nacional colapsa no fundo da tela, gerando uma tensão contínua no ar, enquanto, no primeiro plano, a microestrutura familiar tenta se rearticular.
É nesse cenário turbulento que o longa filtra temas pesados como o luto velado, a ausência da figura paterna e as expectativas impostas sobre a masculinidade. Tudo isso é construído e observado a partir da clareza da vulnerabilidade do olhar de uma criança, que tenta organizar o caos adulto ao seu redor.
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Agora, a âncora emocional dessa história não vem de manuais de roteiro, mas de um relato intimista que o diretor extraiu de seu próprio passado. O ponto de ignição do longa é uma memória central compartilhada entre Akinola Davies Jr. e seu irmão, Wale Davies, na qual os dois brincam com o pai.
O realizador lida de maneira frontal com a incerteza dessa lembrança. Em palavras muito próximas às que ele declarou na entrevista, essa é a única imagem que os irmãos têm, ou que ao menos acreditam ter, do pai. Eles sentem no próprio corpo que vivenciaram aquele momento, e o filme materializa essa sensação logo na sua sequência de abertura, estabelecendo o tom do que virá a seguir.
Transformar uma lembrança familiar em um objeto de cinema exige coragem de exposição. O cineasta justifica a escolha de abrir essa intimidade afirmando que os seres humanos possuem apenas uma experiência de vida. Para ele, emoldurar uma vivência estritamente individual em formato narrativo é uma forma eficiente de oferecer uma ferramenta para que o público também possa acessar e organizar os próprios sentimentos de perda e abandono.
Do ponto de vista formal e estético, a decisão mais contundente do projeto foi a escolha da captação de imagem. A Sombra do Meu Pai foi rodado inteiramente em película 16mm. No mercado atual, essa técnica muitas vezes se resume a um apelo visual vazio. No entanto, o diretor argumenta que o uso do celuloide neste projeto obedece a um critério rígido de dignidade histórica.
Grande parte do cinema hegemônico estadunidense e europeu já mapeou suas arquiteturas, iluminou suas ruas e documentou suas localidades de forma exaustiva. O espectador contemporâneo reconhece uma esquina de Nova York com absoluta facilidade. O mesmo não acontece com o cinema do continente africano.
O realizador aponta que é vital iniciar e consolidar um arquivo visual para cidades que permanecem sub-representadas na tela grande. Mais do que isso, existe o argumento do direito à presença. O diretor entende que as pessoas negras e os indivíduos pertencentes à diáspora merecem se ver representados com a maior sofisticação técnica disponível, e ele considera o 16mm o formato mais respeitoso possível.

Ver uma versão digna de si mesmo projetada em uma sala escura gera uma identificação poderosa. Nesse sentido, o cinema de fato atua como um instrumento para devolver a autonomia e a identidade às pessoas.
Essa urgência de criar conexões reais ultrapassou as limitações da tela e guiou o circuito de lançamento. Akinola Davies Jr. veio ao Brasil para promover a obra e fez questão de expandir o circuito tradicional de salas. Ele viajou pelas cidades de São Paulo, Salvador e Recife. Na capital paulista, a agenda se deslocou para as bordas da metrópole. O diretor esteve no bairro do Capão Redondo, onde ministrou uma masterclass presencial ao lado do cineasta independente Lincoln Péricles, abrindo um diálogo direto com novos diretores e realizadores locais.”
A iniciativa evidencia o princípio ético do cineasta de que é necessário romper com os estereótipos e se distanciar de bolhas acadêmicas. Para ele, concretizar um filme com as características de A Sombra do Meu Pai exige que os criadores caminhem até onde a população reside, com o propósito de compartilhar conhecimento empírico e, principalmente, escutar o que a comunidade relata. É um esforço prático de construir pontes de comunicação direta e horizontal.
Durante a passagem pelo Brasil, o diretor identificou linhas de intersecção profundas entre brasileiros e nigerianos. Ele observa que as duas populações dividem semelhanças que atravessam as complexas dinâmicas políticas, os modos de vivenciar a espiritualidade, a riqueza gastronômica e as escolhas estéticas.
Ambas as sociedades possuem uma resiliência diária, forjada na obrigação de continuar operando o cotidiano apesar de estruturas frequentemente desfavoráveis. O realizador enfatiza que, sob as duras condições de sobrevivência e além das imagens limitadas que o imaginário global reproduz, existe uma ternura silenciosa compartilhada entre esses povos.
Com A Sombra do Meu Pai, o público não encontra artifícios narrativos fabricados para extrair emoção imediata. Encontra, em vez disso, a materialização do espaço vazio deixado por quem parte e a tentativa honesta de quem fica de preencher essa lacuna com os recursos que restaram.
Veja o trailer oficial do filme:
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Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP, mas foi morando na Hungria — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — que aprendeu a ler o que os filmes comunicam sem dizer. Em 2023, criou o Cinema Guiado, plataforma editorial independente dedicada à análise, curadoria e reflexão sobre cinema.
