Realismo mágico na Netflix: a animação que o mundo precisa ver

Makoto Shinkai criou road movie sobrenatural sobre grande terremoto ocorrido no Japão em 2011 (e o resultado arrecadou mais de US$ 300 milhões no mundo)

Em novembro de 2022, Suzume estreou no Japão e vendeu dez milhões de ingressos. O mesmo feito que Makoto Shinkai já havia alcançado com Your Name e O Tempo com Você. Três filmes, três fenômenos de público.

Mas Suzume é o mais ambicioso dos três — e também o mais inusitado, o que não significa que é o menos interessante. O filme chegou à Netflix Brasil em abril de 2024, com dublagem em português. Se você ainda não viu, este é o momento.

A história

Suzume tem 17 anos e vive numa cidade tranquila em Kyushu. Tudo muda quando ela encontra um jovem misterioso que percorre o Japão fechando portas — portais sobrenaturais que, quando abertos, liberam desastres sobre as cidades ao redor.

Ela o ajuda a selar uma dessas portas e, a partir daí, o que começa como curiosidade adolescente se transforma numa viagem por todo o território japonês, numa corrida contra o tempo e contra uma força destrutiva que existe sob o solo do país. Sob o Japão existe um demônio gigantesco chamado de Verme, que provoca terremotos devastadores.



Ele tenta escapar frequentemente para o plano físico através de portais mágicos que existem em lugares específicos, causando enormes desastres quando não é impedido.

O que Shinkai faz com essa premissa é a parte interessante: Suzume é simultaneamente um filme de ação, um road movie, uma história de amadurecimento e uma alegoria sobre luto coletivo.

O diretor declarou em entrevista que Suzume é uma mensagem audiovisual ao seu país — sobre superar a tristeza, cicatrizar feridas e seguir em frente, inspirada diretamente pela catástrofe de Tohoku e Fukushima em 2011.

Os terremotos no filme nunca são apenas terremotos.

Suzume é dirigido e roteirizado por Makoto Shinkai, produzido pela CoMix Wave Films em parceria com a Aniplex, KADOKAWA e Toho. O projeto tem 122 minutos de duração, classificação livre, e conta com as vozes de Nanoka Hara e Hokuto Matsumura nos papéis principais.

O desenho de personagens é assinado por Masayoshi Tanaka, a direção de animação por Kenichi Tsuchiya, e a trilha sonora foi composta por Radwimps em parceria com Kazuma Jinnouchi — a terceira colaboração entre Shinkai e a banda.

Makoto Shinkai tem 52 anos e é o cineasta de animação japonesa mais comercialmente relevante da sua geração. Seus filmes mais recentes, Your Name (2016) e O Tempo com Você (2019), o consagraram como um dos principais realizadores de animação junto ao público internacional. Suzume encerra o que ele mesmo chama de trilogia dos desastres — três filmes que usam fenômenos naturais como ponto de partida para histórias de amor e de perda.

O que diferencia Shinkai de outros cineastas do gênero é a escolha em fazer filmes sobre o que a animação não costuma fazer. Seus personagens não salvam o mundo por heroísmo — eles o fazem porque o mundo em questão é feito de memórias, de lugares que existiram, de pessoas que estão ausentes.

Suzume leva essa premissa mais longe do que qualquer outro filme dele.



Suzume é o terceiro e último capítulo da trilogia dos desastres de Shinkai, seguindo Your Name e O Tempo com Você. Mas enquanto os dois anteriores têm uma linearidade emocional reconhecível — amor contrariado pela física do universo —, Suzume é mais difuso, mais caótico, e mais rico nisso. Há um gato falante. Há uma cadeira de três pernas com consciência própria. Há portais em ruínas espalhados por cidades esquecidas do interior japonês.

Shinkai usa sua abordagem de realismo mágico para contar uma história ainda mais orientada ao fantástico do que Your Name. A animação sustenta essa aposta: cada quadro é tratado como se o Japão contemporâneo fosse um lugar onde o extraordinário ainda é possível, onde o céu tem peso e as ruínas têm memória.

O trabalho valoriza as paisagens com um esmero de cores e composição que revela o melhor da animação contemporânea mundial. A animação trata o espaço como personagem — o abandono, o silêncio das cidades que esvaziaram, a lama e o concreto que cobrem o que existia antes.

O filme arrecadou mais de US$ 314 milhões mundialmente, tornando-se o quarto filme japonês de maior bilheteria de todos os tempos. Foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Animação e recebeu sete indicações no Annie Awards. Alcançou a marca de dez milhões de ingressos vendidos no Japão e foi premiado como Melhor Filme no 8º Crunchyroll Anime Awards.

A estreia internacional aconteceu no Festival de Berlim de 2023 — a primeira vez em mais de duas décadas que um filme de animação entrou na competição oficial do evento.

Suzume não é um filme fácil de categorizar, o que é o seu trunfo. É uma animação japonesa sobre terremotos que é, na prática, um ensaio sobre as coisas que uma sociedade larga para trás quando cresce rápido demais. As portas que Suzume fecha são literais e metafóricas ao mesmo tempo — e Shinkai tem o talento raro de não precisar escolher entre os dois.

O filme está disponível na Netflix com dublagem e legendas em português brasileiro. Dois horas muito bem gastas.

Confira o trailer do filme:

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