“Michael”, a cinebiografia do Rei do Pop, chega aos cinemas

Antoine Fuqua dirige Jaafar Jackson no papel do tio em filme chancelado pelo espólio do cantor — e acolhido com frieza pela crítica.

Quando Jaafar Jackson aparece pela primeira vez recriando o moonwalk de 1983 em “Michael”, o crítico Owen Gleiberman, da Variety, confessou ter ficado desarmado: o sobrinho acerta o olhar, a voz, os movimentos eletrostáticos e aquela mistura de delicadeza e aço que definia o tio.

O problema é que, ao redor desse corpo treinado por anos para se tornar um duplo, existe um filme que boa parte da crítica internacional recebeu com desconfiança. E agora ele chega ao Brasil.

“Michael”, dirigido por Antoine Fuqua e escrito por John Logan, entrou em pré-estreia nos cinemas brasileiros nesta terça-feira (21) e abre oficialmente o feriado de Tiradentes nesta quinta (23).

“Michael”, com o sobrinho de Michael Jackson no papel do cantor, estreia nos cinemas

A distribuição local está nas mãos da Universal Pictures, numa costura internacional em que a Lionsgate fica com os Estados Unidos. Para se ter ideia do tamanho da aposta, o teaser lançado em novembro de 2025 bateu 116,2 milhões de visualizações em 24 horas, superando o trailer de “Taylor Swift: The Eras Tour” e se tornando a maior estreia de trailer da história em cinebiografia musical.

A história começa em Gary, Indiana, por volta de 1960. Joseph Jackson (Colman Domingo) é um operário siderúrgico que transforma cinco filhos em grupo musical, espancando o mais talentoso deles nos bastidores enquanto Katherine (Nia Long) observa em silêncio. Juliano Krue Valdi interpreta Michael Jackson na fase criança, com domínio impressionante de voz e movimento.

Jaafar Jackson assume o papel na vida adulta, atravessando a assinatura com a Motown, a passagem para a Epic, o encontro decisivo com Quincy Jones e a explosão global de “Off the Wall” e “Thriller”. A narrativa encerra em 1987, pouco antes da turnê do disco “Bad”. Ou seja: duas horas de infância e juventude, zero anos de Neverland.

Essa delimitação cronológica é o centro do debate. “Michael” foi produzido pelo espólio do cantor, com aval de seis dos nove irmãos. Graham King, o mesmo produtor de “Bohemian Rhapsody”, repete aqui a fórmula que já conhece: contar a história de um ícone pop a partir do olhar dos herdeiros, transformando catálogo em bilheteria.

A Lionsgate anunciou em 2024 que o corte original de Fuqua tinha quase quatro horas. O estúdio chegou a considerar dividir em dois filmes, optou por cortar para 3h30, fez refilmagens em junho e julho de 2025, e entregou agora uma versão final de 127 minutos. Variety noticiou que até 30% do material cortado pode reaparecer em uma eventual continuação.

A conta é interessante de fazer. Quase duas horas de material filmado sobraram no chão da sala de edição. Entre esse material, segundo reportagens anteriores à produção, estavam cenas envolvendo Jordan Chandler, que processou Jackson em 1993 e fez um acordo extrajudicial contendo cláusula que impede qualquer obra cinematográfica de retratá-lo.

O espólio teria deixado passar essa cláusula, e as cenas foram removidas. Paris Jackson, filha do cantor, descreveu um roteiro inicial como açucarado e disse não ter tido envolvimento no filme.

“Michael”, com o sobrinho de Michael Jackson no papel do cantor, estreia nos cinemas

A crítica detonou o filme. No Rotten Tomatoes, 32% das 92 resenhas registradas são positivas. No Metacritic, a nota é 38 de 100.

Nicholas Barber, da BBC, deu uma estrela em cinco e chamou o filme de uma obra televisiva diurna medíocre e mal executada. Robert Daniels, do RogerEbert.com, foi mais direto: para ele, “Michael” não é um filme, mas uma playlist filmada em busca de uma história.

Peter Bradshaw, do Guardian, deu duas estrelas em cinco, e reconheceu que Jaafar entrega as performances musicais com intuição, mas os números em si salvam o longa apenas parcialmente.

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A defesa vem de poucos. Owen Gleiberman chamou o resultado de cinebiografia mediana surpreendentemente eficaz. É a expressão "surpreendentemente eficaz" que denuncia a régua: ninguém esperava grande coisa.



Agora, a verdade é que existe uma tensão produtiva em todo filme chancelado por espólio. O acesso ao catálogo musical depende do beneplácito da família, e o beneplácito da família depende de uma versão tolerável dos fatos.

"Bohemian Rhapsody" negociou essa tensão omitindo boa parte da vida sexual de Freddie Mercury. "Elvis", de Baz Luhrmann, escolheu contar a história pelos olhos do empresário Tom Parker, deslocando o foco moral. "Michael" opta pelo recorte temporal: simplesmente para o relógio antes dos problemas começarem.

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A pergunta que fica, e que vale levar para a sala, é outra. Um filme pode contar metade de uma vida e ainda assim ser honesto com ela? A resposta provavelmente mora em Jaafar Jackson.

Quando o sobrinho dança no palco recriando a apresentação de "Billie Jean" no especial Motown 25, ele carrega o peso de alguém que cresceu ouvindo o tio como lenda familiar e como fantasma público.

Essa duplicidade, segundo quem defende o filme, é o único lugar em que "Michael" transcende a operação de marketing que o cerca.

Para cinéfilos brasileiros, "Michael" é um caso de estudo em tempo real sobre como o cinema contemporâneo negocia biografia, espólio e memória pop. Vale assistir, mesmo que seja para discordar.

FICHA TÉCNICA

Direção: Antoine Fuqua
Ano de produção: 2026
Gênero: Biografia, Drama, Musical
Duração: 2h07min
Origem: Estados Unidos
Onde assistir: Nos cinemas

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