Crítica | O filme mais famoso de David Lynch revela uma confissão do diretor

‘Cidade dos Sonhos’ foi O único filme que David Lynch aceitou explicar. Neste artigo eu falo sobre os Temas, o Simbolismo e o final do Filme mais obscuro de David Lynch.


Quando David Lynch morreu em janeiro de 2025, ele carregou para o além a explicação de praticamente todos os filmes que dirigiu.

Todos, exceto um.

Em 2002, Lynch fez algo que nunca havia feito na carreira: publicou uma lista de dez pistas para Cidade dos Sonhos, impressa num encarte do DVD. Dez chaves para destrancar o filme que a BBC elegeu o melhor do século 21. Ele nunca repetiu o gesto em nenhum outro filme (e nunca voltou atrás).

No novo vídeo do Cinema Guiado, eu destrincho essas pistas. Mas não paro aí. Fui atrás da pesquisa de Martha Nochimson, que entrevistou Lynch por três décadas e escreveu que a explicação mais popular do filme pode estar errada.

Dedico um capítulo inteiro para falar do Cowboy e investigo também a história de Rebekah Del Rio, a cantora que gravou Llorando sem saber que estava sendo gravada, e cuja voz continua soando no Club Silencio toda vez que alguém dá o play.

Se você já viu Cidade dos Sonhos e saiu sem entender nada, este vídeo vai te guiar. Se você viu e acha que entendeu tudo, este vídeo vai complicar as coisas de novo. E se você nunca viu o filme, pare aqui e vá ver agora.

O filme começa com uma sequência de imagens que ninguém entende na primeira vez que assiste. 

Casais dançando contra um fundo roxo. Luzes desfocadas. Uma imagem fantasmagórica de Naomi Watts sobreposta ao rosto de um casal de idosos. 

Depois, um plano subjetivo em câmera subjetiva: alguém deitando num travesseiro vermelho, respirando pesado, fechando os olhos. Corte. Uma estrada à noite. Mulholland Drive.

Esses três minutos iniciais reverberam no filme inteiro. 

Lynch mesmo, no encarte das dez pistas que ele liberou junto com o DVD francês em 2002, disse: 

“Preste atenção no começo do filme: pelo menos duas pistas são reveladas antes dos créditos.” 

A primeira é a dança. 

Descobrimos no final do filme que Diane, a protagonista, venceu um concurso de dança em Ontário, no Canadá. Foi assim que ela conseguiu dinheiro para se mudar para Los Angeles. 

A segunda é o travesseiro. Alguém está se deitando. O filme inteiro vai acontecer entre o fechar dos olhos e o que acontece quando esses olhos se abrem de novo.

Mas aqui está um ponto importante. A primeira parte do filme não é um sonho genérico. É um sonho com lógica muito específica. É um sonho sobre cinema. Perceba como tudo na primeira parte é construído como um filme. 

Betty chega a Los Angeles carregando uma mala e o sonho de ser atriz. A cena tem um casal de velhinhos que ela acaba de conhecer ajudando com as malas enquanto ela entra no táxi. É uma cena de filme antigo. É um clichê que ninguém mais filma.

Em paralelo a isso, Lynch corta para outra fábrica de sonhos. 

O set do diretor Adam Kesher, que está tentando escalar o papel principal do próximo filme dele, A História de Sylvia North

Entram dois irmãos gângsteres, os Castigliane. Eles entregam a Adam uma foto 8×10 e dizem, com sotaque italiano ameaçador: “Esta é a garota.” Adam recusa. Um dos irmãos, Luigi, prova o café que o assistente trouxe, faz uma careta de nojo, e cospe o café de volta no guardanapo. 

É uma das cenas mais grotescas do filme. É também, segundo a estudiosa Martha Nochimson, uma alegoria direta de Hollywood: o sistema cuspe o que produz, porque o que produz não tem gosto.

Adam sai da reunião. Volta para casa. Encontra a esposa na cama com o limpador de piscinas. A esposa joga tinta na joia dela e no baú de joias. Adam vai para um hotel. Recebe um telefonema de um homem misterioso com cabelo de corte militar e chapéu de cowboy.

E aqui temos que parar para ver o que Lynch está fazendo.

O Cowboy aparece em três momentos do filme. 

Na primeira parte, ele obriga Adam a escalar a garota da foto, que se chama Camilla Rhodes. Na segunda parte, o Cowboy aparece de relance numa festa. E no minuto final do sonho, é ele quem bate na porta de Diane Selwyn e diz: 

“Ei, garota bonita. Hora de acordar.”

O Cowboy é o mestre de cerimônias. É o verdadeiro diretor dentro do filme. É a figura que controla a transição entre sonho e vigília, entre ficção e realidade. 

Lynch está dizendo: a primeira parte do filme está sendo dirigida. Alguém está no controle. Alguém está decidindo quando o sonho começa e quando acaba.

E Diane? Diane é a roteirista do próprio sonho.

O apartamento da Tia Ruth é uma locação de filme. Móveis de época, iluminação difusa, plantas exageradamente vivas. A vizinha Coco, interpretada por Ann Miller, dança de verdade no teto nos anos 1950. Tudo ali é cenário. E Betty, a personagem que Diane criou para si mesma, é uma atriz dentro de um filme que ela mesma está projetando.

O ponto mais alto dessa construção é a cena do teste. Betty vai fazer um teste para um filme. A diretora de elenco avisa: o texto é ruim, o ator que contracena vai ser pesado. Betty entra em cena. E destrói. Entrega uma das melhores interpretações que o filme Cidade dos Sonhos tem para oferecer. 

Naomi Watts literalmente faz uma atuação dentro de uma atuação, e a atuação de dentro é melhor do que a de fora. Lynch está mostrando: no sonho, Diane é genial. No sonho, ela é tudo o que ela gostaria de ser.

Há quem interprete essa cena como memória real. Alguns críticos argumentam que Diane pode ter sido uma atriz talentosa de fato, e o que a destruiu foi o sistema, não falta de talento. É uma leitura totalmente aceitável. Mas o que me parece mais forte é o seguinte: o que importa não é se Diane era ou não talentosa. É que no sonho, ninguém titubeia, ninguém vacila. Na realidade, sim.

E para fechar o tema 01, vale destacar um detalhe que quase ninguém comenta.   

Em algum momento da primeira parte, Betty e Rita vão ao apartamento de Diane e encontram um cadáver em decomposição na cama. O cadáver está na mesma posição em que Diane vai morrer no final do filme. 

O subconsciente de Diane não está apenas fantasiando. Está tentando enterrar um corpo que continua aparecendo.

Aos 115 minutos do filme, Rita tira uma chave azul da bolsa. Destranca a caixa. A câmera entra na caixa. E tudo muda.

A segunda parte do filme é curta. Pouco mais de 30 minutos. Mas é aqui que Lynch destrincha a anatomia psicológica de uma mulher que virou assassina.

Diane Selwyn mora num apartamento pequeno em Los Angeles. Acordou na mesma cama do cadáver que vimos na primeira parte. É a mesma cama. O mesmo roupão azul da dona da casa está pendurado. O mesmo cinzeiro está na mesa de centro. Lynch passou o filme inteiro plantando esses objetos: “Note o roupão, o cinzeiro, a xícara de café.” Não eram decoração. Eram provas.

A partir daqui, a narrativa de Diane é contada em fragmentos, fora de ordem. Lynch Preferiu replicar a experiência de uma mente em colapso, pulando entre memórias dolorosas sem lógica causal. 

Vamos reorganizar para ficar claro:

Diane veio de Ontário, Canadá. Uma Tia Ruth morreu e deixou uma pequena herança para ela. Diane usou o dinheiro para se mudar para Los Angeles e tentar ser atriz. Fez um teste para o filme A História de Sylvia North. Conheceu, nesse teste, uma atriz chamada Camilla Rhodes. Camilla conseguiu o papel. Diane não.

Diane e Camilla viraram amantes. Camilla era a bela, bem-sucedida, desejada. Diane era a secundária, frustrada, apaixonada. Com o tempo, Camilla começou a se afastar. Começou a namorar Adam Kesher, o diretor. Diane continuou trabalhando em papéis pequenos em filmes da ex-namorada, humilhação sobre humilhação.

Um dia, Camilla convidou Diane para um jantar de noivado na casa do Adam, na Mulholland Drive. No jantar, Diane foi apresentada à família de Adam como amiga. Camilla beijou outra mulher na frente de todos. Camilla anunciou o noivado. E Diane ficou ali, cortando a carne, segurando as lágrimas, engolindo a humilhação que a vida toda estava servindo para ela.

Depois do jantar, Diane foi ao restaurante Winkie’s. Encontrou um matador. Entregou a ele um envelope de dinheiro. Combinou um sinal: quando Camilla estivesse morta, o matador deixaria uma chave azul sobre a mesa de centro de Diane.

Confira a análise completa no vídeo:

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