De premiados em festivais a revelações do cinema independente, 5 filmes que passaram batido no Brasil e mereciam mais reconhecimento.
O problema com os filmes que todo mundo fala é que eles acabam engolindo os que ninguém fala. Em 2025, enquanto as conversas giravam em torno de Pecadores e Uma Batalha Após a Outra, pelo menos cinco filmes foram lançados com aclamação de crítica, passagens por festivais importantes e quase zero visibilidade para o grande público brasileiro.
Esta lista existe para isso.
Vamos a eles.
1.
Sorry, Baby (2025)

Direção: Eva Victor
Gênero: Comédia, Drama
Origem: Estados Unidos
Onde assistir: Telecine e Apple TV (aluguel)
Sinopse: Depois de um evento traumático, uma mulher se vê paralisada enquanto todos ao redor continuam a vida como se nada tivesse acontecido.
O filme estreou no Festival de Sundance 2025, onde venceu o Prêmio de Melhor Roteiro, e foi adquirido pela prestigiada distribuídora A24 por 8 milhões de dólares depois de uma disputa entre estúdios que incluía Searchlight, Neon e MUBI. No Rotten Tomatoes, 97% das críticas são positivas.
Eva Victor escreve, dirige e protagoniza — e faz as três coisas com uma competência, inspiração e economia que derruba qualquer expectativa que o tema pudesse gerar.
Sorry, Baby trata de trauma sexual sem nenhum dos recursos que o cinema costuma usar para sinalizar ao espectador que o momento é grave: sem trilha sonora de apoio, sem câmera trêmula, sem close-up de lágrima. O que Victor faz é deixar o peso do que aconteceu aparecer nas bordas — no que Agnes não diz, no que ela desvia, no que ela ri quando não deveria.
É um primeiro filme com controle de tom e honestidade que muitos diretores levam décadas para desenvolver.
2.
A Única Saída (2025)

Direção: Park Chan-wook
Gênero: Comédia, Suspense
Duração: 139 minutos
Origem: Coréia do Sul
Onde assistir: MUBI
Sinopse: Após ser demitido da fábrica onde trabalhou por 25 anos, um homem decide eliminar a concorrência pelo emprego que deseja.
Muito embora não tenha sido lembrado no Oscar®, o filme foi indicado ao Globo de Ouro e estreou na mostra competitiva do Festival de Veneza em 2025.
Park Chan-wook filma a demissão do protagonista Man-su não como tragédia, mas como premissa. O que vem depois é uma comédia amarga sobre como um homem razoável, ao se convencer de que não tem escolha, vai tomando decisões cada vez menos razoáveis.
O filme abre com um churrasco em família. Dali em diante, tudo que essa família construiu começa a ser colocado em risco — lentamente, metodicamente, com um gosto agridoce.
3.
The Mastermind (2025)

Direção: Kelly Reichardt
Gênero: Suspense, Drama
Duração: 110 minutos
Origem: Estados Unidos
Onde assistir: MUBI
Sinopse: Em Massachusetts, em 1970, um carpinteiro desempregado rouba quatro pinturas de um museu local. O plano é meticuloso. A execução, nem tanto.
O filme competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cannes 2025 e foi distribuído pela MUBI nos Estados Unidos e no Brasil. No Rotten Tomatoes, tem 90% de críticas positivas.
Kelly Reichardt é uma das diretoras mais consistentes do cinema norte-americano contemporâneo — e uma das mais invisíveis para o público geral.
The Mastermind é um filme de assalto que não se interessa muito pelo assalto. O que interessa a Reichardt é James Blaine Mooney: um homem que rouba pinturas de um artista que quase ninguém conhece.
O ator Josh O’Connor leva o filme com uma contenção que lembra os anti-heróis do cinema norte-americano dos anos 70 — homens que acreditam ter um plano mas não percebem que o plano é sobre eles, não sobre o dinheiro.
4.
A Garota Canhota (2025)

Direção: Shih-Ching Tsou
Gênero: Drama
Duração: 108 minutos
Origem: Taiwan, França, Estados Unidos, Reino Unido
Onde assistir: Netflix
Sinopse: Uma mãe solteira e suas duas filhas se mudam para Taipei, em Taiwan, para abrir uma barraca de comida num mercado noturno. Cada uma enfrenta os próprios desafios de adaptação enquanto antigos segredos e tradições da família ameaçam o recomeço das três.
O roteiro é assinado por Shih-Ching Tsou em parceria com Sean Baker, vencedor do Oscar® por Anora. O filme estreou na Semana da Crítica de Cannes e foi selecionado por Taiwan para representar o país no Oscar 2026.
O conflito central parece pequeno: o avô proíbe a neta mais nova, canhota, de usar a mão esquerda. Mas Tsou usa essa proibição para construir um retrato de como tradições funcionam dentro de famílias — não como valores declarados, mas como pressão constante, silenciosa, que aparece na mesa do jantar e na barraca de comida e nas escolhas que a filha mais velha faz quando a mãe não está olhando.
O mercado noturno de Taipei é filmado com uma câmera que sente o calor, o barulho e o cansaço do trabalho físico.
5.
The Plague (2025)

Direção: Charlie Polinger
Gênero: Drama, Suspense Psicológico
Duração: 95 minutos
Origem: Estados Unidos
Onde assistir: Indisponível
Sinopse: No verão de 2003, um garoto de 12 anos socialmente ansioso chega a um acampamento de polo aquático e tenta se encaixar numa hierarquia brutal. Quando um boato de que ele contraiu "a praga" começa a circular, o que era exclusão vira perseguição.
O filme estreou na seção Un Certain Regard de Cannes 2025, onde recebeu ovação de onze minutos e foi descrito pela imprensa especializada como "possivelmente o filme norte-americano mais quente do festival". No Rotten Tomatoes, conta com 97% de críticas positivas.
É a estreia de Charlie Polinger na direção, e é uma estreia que justifica atenção futura. The Plague usa o universo de um acampamento de polo aquático — a piscina, o calor, corpos adolescentes em formação — para examinar como rumores se transformam em rituais de exclusão e como um garoto que quer pertencer ao grupo vai cedendo, passo a passo, até perceber que foi longe demais.
Joel Edgerton produz e aparece como treinador. Os jovens atores, especialmente Everett Blunck no papel principal, carregam o peso do filme com uma naturalidade que raramente aparece em filmes sobre adolescência.
Os cinco filmes desta lista têm em comum uma coisa: chegaram em 2025 sem o barulho de marketing que filmes maiores fazem, e saíram da temporada sem o reconhecimento que mereciam.
Por isso, se eu fosse você, eu os veria o quanto ates.

Formada em Sociologia, Maisa Gebara exerce a função de redatora no site do Cinema Guiado desde 2026.
