Os Outros

8 filmes em que nada é o que parece

Se você acha que já viu de tudo no cinema, espere até chegar aos minutos finais destes filmes. Cada um deles guarda segredos, pistas escondidas e reviravoltas que mudam completamente a história.

Em 1999, O Sexto Sentido estabeleceu um novo parâmetro para o que um final de filme é capaz de fazer. Não se tratava de revelar uma informação escondida no bolso do roteiro: era reformular retroativamente cada cena que havia passado antes. O público saiu do cinema reconstruindo o filme inteiro na cabeça.

Os oito filmes desta lista operam a partir dessa mesma lógica. Cada um apresenta uma história que parece caminhar em uma direção e chega em outra completamente diferente. O que os separa do thriller de reviravolta genérico é que o plot twist, em todos eles, não é um truque isolado: é o ponto de chegada de uma construção rigorosa que exige atenção total e recompensa com generosidade.

Assista sem pesquisar nada antes. Spoiler aqui é crime.

8.

Fratura (2019)


Brad Anderson não é um nome que aparece com frequência nas grandes listas de cinema, mas tem um histórico consistente em filmes que jogam com a percepção da realidade. Em Fratura, Sam Worthington interpreta Ray Monroe, um pai que chega a um pronto-socorro com a filha ferida. Ela some. O hospital nega que ela tenha dado entrada. E Ray se recusa a aceitar qualquer outra versão dos fatos.

O filme opera com economia narrativa. A câmera acompanha Ray de perto, quase sem afastamento, o que obriga o espectador a adotar sua perspectiva antes de ter certeza de que ela é confiável. O roteiro de Carl W. Lucas planta dúvidas suficientes para que os dois cenários, o que Ray acredita e o que o hospital afirma, pareçam igualmente possíveis por tempo suficiente.

Fratura não é um filme sobre o qual se fala muito. É exatamente por isso que funciona tão bem.

Disponível na Netflix.

7.

Os Outros (2001)


Os Outros é um filme espanhol rodado em inglês, dirigido por Alejandro Amenábar, que tinha 29 anos quando o lançou. Nicole Kidman interpreta Grace, uma mulher que vive com os dois filhos em uma mansão isolada enquanto aguarda notícias do marido, desaparecido na Segunda guerra Mundial. Os filhos têm fotossensibilidade severa: a luz solar pode matá-los. As cortinas jamais são abertas.

O clima é de um gótico contido, construído menos por sustos do que por uma atmosfera de clausura que impressiona o tempo todo. Amenábar controla o ritmo com rigor: cada revelação é medida, cada ruído tem peso. O filme levou oito prêmios Goya em 2002, incluindo Melhor Filme.

O final de Os Outros é um dos mais lembrados do cinema de horror do século XXI.

Indisponível nas plataformas de streaming.

6.

Caché (2005)


Michael Haneke não faz filmes confortáveis, e Caché é um thriller doméstico que rapidamente para de se comportar como tal. Daniel Auteuil interpreta Georges Laurent, apresentador de um programa literário na televisão francesa, que começa a receber fitas VHS anônimas filmando a fachada da sua própria casa. As fitas vêm acompanhadas de desenhos infantis perturbadores. Ninguém sabe de onde vieram.

O que Haneke faz com esse material vai muito além do suspense. O filme é uma investigação sobre culpa, memória reprimida e o peso da história colonial francesa, com referências diretas ao Massacre do Rio Sena de 1961. Georges é um homem que esconde algo de si mesmo antes de esconder qualquer coisa do espectador.

Caché tem um dos finais mais discutidos do cinema contemporâneo, não porque seja enigmático por capricho, mas porque a resposta está no plano desde o início, para quem souber olhar.

Disponível na Imovision.

5.

A Criada (2016)


A Criada é a adaptação do romance policial da escritora britânica Sarah Waters transposta por Park Chan-wook da Inglaterra vitoriana para a Coreia sob ocupação japonesa nos anos 1930. A premissa envolve um golpista que contrata uma jovem para trabalhar como criada de uma herdeira reclusa, com o objetivo de manipulá-la. O plano parece simples. Dura até o fim do primeiro ato.

O filme é dividido em capítulos que revisitam os mesmos eventos de perspectivas diferentes, e cada nova perspectiva desmonta o que o espectador havia construído como verdade. Park Chan-wook usa esse mecanismo não para confundir, mas para revelar: cada capítulo adiciona uma camada de profundidade a personagens que pareciam passivos.

A Criada venceu o Bafta de Melhor Filme Internacional em 2017. É um dos filmes mais elegantes da década de 2010, e um dos poucos em que o twist é também uma declaração de intenções do diretor.

Disponível na FilmBox.

4.

O Predestinado (2014)


Baseado no conto do escritor norte-americano Robert A. Heinlein, O Predestinado é um exercício de lógica temporal levado ao limite. Ethan Hawke interpreta um agente que realiza viagens no tempo e está em sua última missão antes de se aposentar: encontrar um terrorista que escapou por décadas. Para isso, ele precisa recrutar alguém que ainda não tomou uma decisão que mudará tudo.

Os irmãos Michael e Peter Spierig constroem o filme como um paradoxo: uma cadeia de eventos em que cada elo causa o anterior. O roteiro segue a lógica interna do conto de Heinlein com fidelidade, e o resultado é um filme que, nos minutos finais, exige que o espectador refaça mentalmente toda a linha do tempo desde a primeira cena.

O Predestinado tem orçamento modesto e poucos cenários. A força está inteiramente na estrutura. É o tipo de filme que funciona melhor na segunda sessão, quando toda a arquitetura já está visível.

Disponível para aluguel no Prime Video.

3.

Incêndios (2010)


Incêndios foi o filme que consolidou Denis Villeneuve como referência do cinema contemporâneo antes de A Chegada e Duna tornarem isso evidente para o mundo inteiro. Adaptação da peça do dramaturgo libanês-canadense Wajdi Mouawad, o filme segue os gêmeos Jeanne e Simon Marwan que, ao abrirem o testamento da mãe, descobrem que têm um pai e um irmão cuja existência desconheciam. A busca pelas respostas os leva ao Oriente Médio.

O que parece uma investigação familiar torna-se gradualmente um filme sobre guerra, sobrevivência e as coincidências que a história produz quando atinge indivíduos com força suficiente. Villeneuve intercala o presente da busca dos filhos com o passado da mãe, e as duas linhas convergem de um modo que parece impossível até o momento em que se torna inevitável.

Incêndios foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2011. É o filme mais devastador desta lista, e o final permanece com o espectador por um tempo muito além dos créditos.

Disponível na Imovision.

2.

A Chegada (2016)


Denis Villeneuve aparece pela segunda vez nesta lista, o que diz algo sobre sua capacidade de construir narrativas em que a revelação final reconfigura o todo. Amy Adams interpreta Louise Banks, uma linguista recrutada pelo exército norte-americano para se comunicar com naves alienígenas que pousaram em doze pontos do planeta. A questão central é simples e urgente: o que eles querem?

O que torna A Chegada diferente dos filmes de contato alienígena convencionais é que a resposta para essa pergunta não é uma ação: é uma percepção. O roteiro de Eric Heisserer, baseado no conto do escritor norte-americano Ted Chiang, usa a questão linguística como andaime para uma meditação sobre tempo, memória e escolha.

O último ato reposiciona tudo que veio antes. Não há informação escondida que o espectador não tenha recebido. A diferença está em como Louise havia interpretado aquela informação. E o espectador junto com ela.

Disponível na HBO Max.

1.

Ilha do Medo (2010)


Quarta parceria entre Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, com roteiro de Laeta Kalogridis baseado no romance de Dennis Lehane. DiCaprio interpreta o delegado federal Teddy Daniels, que chega à ilha de Ashecliffe, uma instituição para criminosos com transtornos mentais graves, para investigar o desaparecimento de uma interna. A ilha é fechada. Há uma tempestade se aproximando. E quanto mais Teddy investiga, menos as respostas fazem sentido.

Ilha do Medo opera no território do Cinema Noir e do thriller psicológico com a confiança técnica de um cineasta no controle absoluto de cada ferramenta disponível. A fotografia de Robert Richardson, a trilha de Robbie Robertson, a arquitetura fechada da ilha: tudo contribui para uma desorientação progressiva que, retroativamente, é completamente coerente.

O final divide o espectador em dois grupos: os que querem assistir de novo imediatamente para ver o que não viram, e os que precisam de um tempo para processar. Ilha do Medo está no topo desta lista porque é o filme que mais recompensa o segundo olhar.

Disponível para aluguel no Prime Video.


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