De comédia romântica proibida pelo regime a drama existencial, aqui você encontra uma seleção de obras que provam que o cinema iraniano é um dos mais relevantes do mundo.
O Irã é um país gigante, que vai muito além do estreito de Ormuz, e tem um dos cinemas mais originais do mundo.
Essa afirmação até pode soar exagerada para quem ainda não foi apresentado a ele, mas os números ajudam a calibrar: dois Oscar® de Melhor Filme Internacional, duas Palmas de Ouro em Cannes, uma vencida recentemente por Jafar Panahi com Foi Apenas Um Acidente, além de uma geração inteira de diretores que aprendeu a fazer filmes políticos sob censura severa do regime, o que produziu uma linguagem cinematográfica ao mesmo tempo contida e poderosa.
A verdade é que poucos cinematografias nacionais dizem tanto com tão pouco. E boa parte desse repertório está acessível no Brasil via streaming. A lista abaixo traz seis títulos essenciais, disponíveis nas plataformas, para quem quer começar ou aprofundar o contato com esse cinema tão rico.
Vamos a eles.
1.
A Separação (2011)

Direção: Asghar Farhadi
Ano: 2011
Gênero: Drama
Duração: 123 minutos
Origem: Irã
Onde assistir: Reserva Imovision
Sinopse: Nader e Simin discordam sobre sair do Irã. Simin quer ir embora para dar melhores oportunidades à filha. Nader quer ficar para cuidar do pai com Alzheimer. Após a separação, um incidente com a cuidadora contratada desencadeia uma série de acusações, mentiras e julgamentos morais que ninguém consegue controlar.
Foi o primeiro filme iraniano a vencer o Urso de Ouro no Festival de Berlim, levando também os prêmios de Melhor Ator e Melhor Atriz do júri. Três estatuetas no mesmo festival.
Depois vieram o Globo de Ouro e o Oscar®. O que justifica tanta premiação é simples: Farhadi não cria vilões. Cada personagem, por mais ambíguo que seja, age com uma lógica que o espectador compreende, o que torna impossível apontar o dedo para alguém com convicção.
É um filme sobre como decisões razoáveis produzem consequências injustas e ninguém sai ileso.
2.
Táxi Teerã (2015)

Direção: Jafar Panahi
Ano: 2015
Gênero: Documentário / Drama
Duração: 82 minutos
Origem: Irã
Onde assistir: Reserva Imovision
Sinopse: O cineasta Jafar Panahi dirige um táxi pelas ruas de Teerã enquanto carrega passageiros que debatem temas como pena de morte, pirataria, religião e liberdade — filmando tudo com uma câmera instalada no painel.
Em 2010, o governo iraniano proibiu o diretor Jafar Panahi de filmar, com base na acusação de que seus filmes constituíam propaganda política contra o regime. Sua resposta foi continuar produzindo — aparecendo na frente das câmeras em vez de atrás delas.
Táxi Teerã venceu o Urso de Ouro em Berlim 2015. Não tem roteiro convencional nem atores profissionais, é Panahi dirigindo um táxi real pelas ruas de Teerã, gravando conversas reais.
O resultado é um filme que revela o Irã contemporâneo com mais clareza do que qualquer documentário convencional.
3.
Gosto de Cereja (1997)

Direção: Abbas Kiarostami
Ano: 1997
Gênero: Drama
Duração: 99 minutos
Origem: Irã
Onde assistir: Reserva Imovision
Sinopse: Um homem de meia-idade dirige pelo campo nos arredores de Teerã em busca de alguém que, após sua morte, jogue terra sobre seu corpo numa cova que ele mesmo cavou. Cada pessoa que ele aborda tem um motivo para recusar.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Gosto de Cereja é o filme que muitos citam como porta de entrada para Abbas Kiarostami, e que outros tantos abandonam nos primeiros vinte minutos por achar lento demais.
O que Kiarostami faz aqui é usar a monotonia do trajeto de carro para construir uma discussão filosófica sobre o suicídio sem nunca ser solene. Cada passageiro tem uma resposta diferente ao pedido do protagonista, e cada resposta diz mais sobre quem responde do que sobre quem pergunta.
4.
O Apartamento (2016)

Direção: Asghar Farhadi
Ano: 2016
Gênero: Drama, Thriller
Duração: 125 minutos
Origem: Irã, França
Onde assistir: Belas Artes à la Carte
Sinopse: Forçados a deixar seu apartamento por obras perigosas no prédio vizinho, Emad e Rana se mudam para um novo endereço no centro de Teerã. Um incidente ligado à inquilina anterior vai mudar a vida do casal de forma irreversível.
O filme venceu o Oscar® de Melhor Filme Internacional em 2017, o segundo para Farhadi, depois de A Separação. Emad e Rana estão ensaiando A Morte do Caixeiro Viajante de Arthur Miller enquanto sua vida real desmorona.
Farhadi usa essa sobreposição com cuidado: não como metáfora óbvia, mas como contexto que vai colorindo o comportamento de Emad à medida que ele decide investigar o que aconteceu por conta própria.
5.
Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987)

Direção: Abbas Kiarostami
Ano: 1987
Gênero: Drama
Duração: 83 minutos
Origem: Irã
Onde assistir: MUBI
Sinopse: Ahmed, um menino de oito anos, pega por engano o caderno do colega e precisa devolvê-lo antes do dia seguinte, caso contrário, o amigo será expulso da escola. Ele percorre a pé as aldeias da região tentando descobrir onde o colega mora.
O mais antigo da lista e talvez o mais simples em aparência: uma criança andando por estradas de terra para devolver um caderno. Kiarostami filma tudo com câmera na altura do olhar de Ahmed, o que muda completamente a perspectiva do filme.
Adultos aparecem no quadro como obstáculos, autoridades sem atenção para o que realmente importa. O filme não moraliza isso. Mostra, e deixa o espectador tirar as próprias conclusões.
6.
Meu Bolo Favorito (2024)

Direção: Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha
Ano: 2024
Gênero: Drama, Comédia, Romance
Duração: 96 minutos
Origem: Irã, França, Suécia, Alemanha
Onde assistir: Reserva Imovision
Sinopse: Mahin tem 70 anos e vive sozinha em Teerã desde a morte do marido e a partida da filha para a Europa. Um chá da tarde com amigas quebra a rotina e a faz revitalizar sua vida amorosa. Um encontro casual com um taxista chamado Faramarz, tão solitário quanto ela transforma uma noite em algo que nenhum dos dois esperava.
Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha foram proibidos de viajar pelo governo iraniano e tiveram os passaportes apreendidos depois que o filme foi selecionado para a Berlinale 2024.
Na cerimônia, Moghadam leu uma declaração dos diretores: "Decidimos cruzar todas as linhas restritivas e aceitar as consequências de nossa escolha para pintar um retrato real das mulheres iranianas."
O filme é uma comédia romântica sobre dois idosos que tentam, dentro de uma única noite, recuperar algo que o regime e a vida foram tomando deles aos poucos. Maryam Moghadam assina a direção, o roteiro e atua no filme e entrega uma das obras iranianas mais surpreendentes dos últimos anos.
Por onde começar?
Esses seis filmes cobrem quatro décadas de cinema iraniano.
O ponto de partida mais acessível é A Separação — Farhadi tem um domínio de estrutura dramática que não exige familiaridade prévia com o cinema iraniano. Kiarostami pede mais paciência, mas o retorno é proporcional.
E Meu Bolo Favorito prova que esse cinema, mesmo sob pressão constante, ainda encontra espaço para ser engraçado, delicado e completamente honesto.
Sobre as plataformas
O serviço de streaming da Imovision, distribuidora brasileira especializada em cinema de arte e filmes de festivais, disponibiliza títulos que raramente chegam às plataformas grandes.
MUBI é uma plataforma internacional dedicada exclusivamente ao cinema de autor. A curadoria é feita por editores especializados — o catálogo não tem milhares de títulos, mas o que está lá foi escolhido com critério.
Belas Artes à la Carte é o streaming do histórico Cine Belas Artes de São Paulo, com foco em cinema independente, estrangeiro e clássicos restaurados.

Formada em Sociologia, Maisa Gebara exerce a função de redatora no site do Cinema Guiado desde 2026.
