De uma professora que devolve livros antes de mudar de país a um ex-policial que vende memórias gravadas, estes cinco filmes colocam seus protagonistas de frente com o próprio passado.
Existe um momento em que a vida cobra a conta. Não a conta grande, a do arrependimento inteiro, mas a pequena: um livro que ficou na estante, uma profissão largada, um telefonema que nunca foi feito. Os cinco filmes reunidos aqui partem desse instante. Em cada um deles, alguém é obrigado a olhar para uma versão anterior de si mesmo e decidir o que fazer com ela.
Um é brasileiro e recente, outro é uma ficção científica de alguns anos atrás. O que os une é a estrutura do problema: o passado não vem como uma lembrança confortável, mas como tarefa não resolvida.
Todos estão disponíveis no streaming sem custo adicional.
5.
Livros Restantes (2025)

Ana Catarina viveu décadas numa comunidade pesqueira de Florianópolis. Aos cinquenta e tantos, decide recomeçar em Portugal, e recomeçar significa desfazer-se de quase tudo. Sobram cinco livros. Todos têm dedicatória, e é justamente isso que impede que ela simplesmente os doe.
A solução que ela encontra é devolvê-los, um por um, às pessoas que os presentearam. Alguns desses reencontros acontecem vinte anos depois do último contato.
O drama brasileiro dirigido por Marcia Paraiso trata um livro dedicado como um objeto estranho: pertence a quem recebeu, mas carrega a letra de quem deu. Denise Fraga conduz Ana Catarina sem transformá-la em símbolo de nada. Ela é uma mulher fazendo uma coisa esquisita e muito específica, e o filme confia que isso basta.
A estrutura é episódica por natureza, o que traz o risco de qualquer filme de reencontros: alguns episódios pesam mais que outros. Ainda assim, o desenho é honesto. Ana Catarina não vai atrás dessas pessoas para se despedir. Vai atrás para entender o que ficou.
Está no Prime Video, incluído na assinatura.
4.
Nada Entre Nós (2026)

Guillermo trabalha como executivo na Cidade do México. Mercedes, a Mechi, é empresária em Buenos Aires. Os dois atuam em divisões diferentes da mesma multinacional e se encontram num evento corporativo, longe do escritório e das respectivas famílias, que são aparentemente estáveis.
A atração é imediata. O que vem depois é menos o romance em si e mais o efeito colateral dele: os dois passam a revisar as escolhas que os trouxeram até ali.
A comédia romântica mexicana de Juan Taratuto reúne Gael García Bernal e Natalia Oreiro pela primeira vez nas telas. García Bernal também assina a produção executiva. O elenco inclui ainda Peto Menahem, Guillermina Fabbiani e Pía Watson.
É o filme mais leve da lista, e o mais recente. Chegou tão perto do lançamento que ainda não há recepção crítica consolidada para reportar, o que significa que a avaliação aqui é de premissa, não de resultado. O que a premissa promete é a versão adulta do gênero: gente de meia-idade descobrindo que a estabilidade construída não é a mesma coisa que a vida escolhida.
Está na HBO Max incluído na assinatura.
3.
Eu Antes de Mim (2026)

Jati é o orgulho da família. Venceu uma competição regional de ciências, o tipo de conquista que numa casa exigente vira prova de que o método funcionou. Logo depois da vitória, começam os ataques de pânico.
O drama indonésio de Gina S. Noer, que também assina o roteiro, encontra um mecanismo elegante para destravar a história: uma tarefa escolar de pesquisa sobre a história da própria família. Jati, interpretado por Bima Sena, começa a investigar o passado dos pais e descobre que a rigidez do pai tem origem em algo anterior a ele.
O acerto mais claro está no tratamento do pai. Jaya, vivido por Ringgo Agus Rahman, não é um vilão de uma dimensão só. É um homem convencido de que está fazendo o melhor pelo filho, e cego pelos próprios medos. Isso muda a natureza do conflito: não é rebelião contra um tirano, é a tentativa de interromper um ciclo.
O filme retrata os ataques de pânico sem romantizar o sofrimento, e trata pressão acadêmica como problema de saúde, não como preço aceitável do sucesso.
Disponível na Netflix.
2.
Disque Jane (2022)

Joy era advogada. Largou a prática para cuidar do marido e da filha, e é essa mulher acomodada na vida de classe média que a Elizabeth Banks interpreta na Chicago do fim dos anos 1960.
A gravidez é desejada. O problema aparece depois: um problema cardíaco que provavelmente a matará se a gestação seguir adiante. Joy leva o caso a uma junta de diretores do hospital, todos homens, todos ricos, e a resposta é não.
O que ela faz em seguida é procurar um número de telefone. Do outro lado está o coletivo Jane, organização clandestina de mulheres em Chicago que oferecia abortos seguros numa época em que o procedimento era ilegal. Sigourney Weaver aparece pouco e domina cada cena como a líder do grupo.
O filme de estreia na direção de Phyllis Nagy, indicada ao Oscar de roteiro adaptado por Carol (2015), acompanha uma transformação em duas camadas. A externa é política. A interna é a mulher redescobrindo a competência que tinha deixado guardada, e é aí que o filme se conecta ao resto desta lista.
Está no Prime Video desde março de 2023, incluído na assinatura.

1.
Estranhos Prazeres (1995)

Lenny Nero foi expulso da polícia e agora vive de vender discos que gravam experiências alheias. O comprador coloca o aparelho e sente, em primeira pessoa, o que outra pessoa sentiu.
Lenny é também o pior cliente do próprio negócio. Ele revê, de novo e de novo, as gravações do tempo em que estava com Faith Justin, papel de Juliette Lewis. A tecnologia que ele vende como fuga é a mesma que o mantém preso.
A trama engrena quando um disco com os registros de uma mulher assassinada cai em suas mãos, nos últimos dias de 1999, com Los Angeles em tensão racial aberta. Se o conteúdo vier à tona, a cidade explode.
Dirigido por Kathryn Bigelow, com roteiro de James Cameron e Jay Cocks, o filme foi um fracasso comercial: custou 42 milhões de dólares e arrecadou cerca de 17 milhões. Levou décadas para ser reconhecido como um dos exemplares mais interessantes do cyberpunk no cinema.
Ralph Fiennes constrói Lenny como um vendedor cansado, e Angela Bassett, como Lornette “Mace” Mason, é quem carrega a espinha moral da história. As sequências gravadas em ponto de vista subjetivo exigiram um ano de preparação, porque não existia equipamento capaz de filmá-las daquele jeito.
Chegou recentemente no Disney+.
Cinco histórias, cinco maneiras de encarar a mesma pergunta. Ana Catarina responde devolvendo o que recebeu. Joy responde recuperando o que tinha largado. Jati responde investigando o que ninguém contou. Lenny responde da pior maneira possível, o que faz dele o mais humano do grupo.
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Formada em Sociologia, Maisa Gebara exerce a função de redatora no site do Cinema Guiado desde 2025.
