The Mastermind: Um dos melhores filmes do ano está disponível na MUBI

The Mastermind: Um dos melhores filmes do ano está disponível na MUBI

A diretora mais singular do cinema americano entrega seu filme mais acessível, e sem abrir mão de nada

Existe um tipo de cineasta que Hollywood não sabe o que fazer. Kelly Reichardt é esse tipo. Desde 1994, quando estreou com River of Grass, de 1994, ela vem construindo uma filmografia que desafia qualquer tentativa de encaixá-la em categorias convenientes.

Seus filmes são lentos demais para o mercado, sutis demais para os festivais que premiam o óbvio, e silenciosos demais para uma indústria obcecada por barulho. Mas é justamente essa teimosia estética que a transformou em uma das vozes mais respeitadas do cinema contemporâneo.

The Mastermind chegou à MUBI com 90% de aprovação no Rotten Tomatoes e após uma ovação de mais de oito minutos no Festival de Cannes. Esses números, por si só, já seriam motivo suficiente para prestar atenção.

Mas o que torna o filme verdadeiramente especial é como Reichardt consegue pegar um gênero tão codificado quanto o filme de assalto e transformá-lo em outra coisa, algo mais próximo de uma meditação sobre a tolice masculina e o colapso silencioso do sonho americano.

O Anti-Assalto

A premissa engana. Um carpinteiro desempregado planeja meticulosamente o roubo de quatro pinturas modernistas de um museu em Massachusetts, nos anos 1970. Parece receita de um thriller de assalto convencional. Mas o filme passa longe disso.

O título sugere competência, astúcia, um protagonista no controle. Mas essa é precisamente a piada. J.B. Mooney, interpretado por Josh O’Connor, não é um gênio do crime. É um homem comum com uma autoestima baixa e um ego desproporcional (combinação que Reichardt identifica como tipicamente americana).

O filme foi inspirado por eventos reais, incluindo o roubo de 1972 ao Worcester Art Museum, o primeiro assalto a mão armada em um museu americano.

Reichardt, que leciona no Bard College, tinha uma pasta de recortes sobre roubos de arte acumulada ao longo de anos. Ela se interessava pela psicologia de pessoas que tiram algo de um espaço público para apreciar sozinhas.

“A ideia de alguém roubar um de Kooning para ficar atrás da porta do quarto, em vez de deixar todo mundo apreciar, me fascina”, disse em entrevista.

A escolha do pintor Arthur Dove é significativa. Dove foi um dos pioneiros da abstração americana, frequentemente considerado o primeiro pintor abstrato dos Estados Unidos. Suas obras estão em museus importantes, mas ele nunca foi um nome capaz de estampar manchetes.

“A ideia de alguém roubar uma obra de arte para deixar atrás da porta, em vez de permitir que todo mundo a aprecie, me fascina.”


Reichardt gosta dessa modéstia: a escolha “abaixa as apostas” e se adequa melhor “ao tamanho do meu filme e às ambições desse personagem”. J.B. não é Thomas Crown. É um sujeito que acha que merece mais do que tem, mas nem seus crimes conseguem ser grandiosos.

Kelly Reichardt e o cinema da atenção

Para entender The Mastermind, é útil conhecer a trajetória de sua diretora. Nascida em Miami, filha de uma agente antidrogas e um investigador de cenas de crime, Reichardt cresceu cercada por câmeras — mas as que seu pai usava para documentar homicídios.

Estudou artes visuais em Boston e fez seu primeiro longa em 1994, um noir ensolarado rodado na Flórida que foi elogiado pela crítica mas ignorado pelo público.

Depois vieram doze anos de silêncio. Reichardt trabalhou como professora, filmou curtas em Super 8 e 16mm, e chegou a trabalhar no reality show America’s Top Model para pagar as contas.

Só em 2006, com Old Joy, ela voltou ao radar. O filme ganhou o prêmio Tiger em Roterdã — o primeiro longa americano a conquistar essa honra — e estabeleceu o modelo de trabalho que ela seguiria: histórias mínimas, personagens à margem, paisagens que pesam tanto quanto diálogos.

Wendy e Lucy (2008), com Michelle Williams carregando o filme nas costas enquanto procura seu cachorro perdido, consolidou sua reputação. Meek’s Cutoff (2010) desconstruiu o western. Night Moves (2013) transformou um thriller de ecoterrorismo em estudo de culpa. Certas Mulheres (2016) revelou Lily Gladstone ao mundo.

First Cow – A Primeira Vaca da América (2019), talvez seu filme mais amado, conta a história de dois homens que roubam leite de uma vaca para fazer bolinhos fritos — e transforma isso em comentário sobre capitalismo e amizade masculina. Esculturas da Vida (2022) acompanha uma escultora enquanto ela tenta terminar uma exposição, e nada de extraordinário acontece, exceto a vida.

O que conecta todos esses filmes é a paciência. Reichardt não tem pressa. Ela filma o tempo passando. Filma pessoas caminhando. Filma silêncios que outros diretores cortariam.

O crítico A.O. Scott chamou seu trabalho de “neo-neorrealismo“, comparando-o aos clássicos italianos do pós-guerra. Mas Reichardt vê diferente: seus filmes são “apenas vislumbres de pessoas passando”.

‘The Mastermind’ está disponível na plataforma da MUBI (Foto: Divulgação)

Josh O’Connor em seu melhor momento

Estados Unidos

Se The Mastermind é o filme mais acessível de Reichardt, muito disso se deve a Josh O’Connor. O ator britânico está em uma fase extraordinária de carreira. Depois de interpretar o Príncipe Charles em The Crown (pelo qual ganhou um Emmy), ele se reinventou com escolhas ousadas: o ladrão de túmulos em La Chimera (2023), de Alice Rohrwacher; o tenista egocêntrico em Rivais (2024), de Luca Guadagnino; o padre sob suspeita em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025), de Rian Johnson.

Glenn Close, que trabalhou com ele no novo filme de Rian Johnson, disse que O’Connor é “como um jovem Jimmy Stewart”. A comparação é precisa. Há algo de antiquado em sua presença — uma combinação de vulnerabilidade e charme que não depende de masculinidade convencional.

Em The Mastermind, ele aparece em praticamente todas as cenas, carregando o filme com uma performance que a crítica da Variety descreveu como “uma rachadura fina em sua personalidade aparentemente decente sendo aberta pelo excesso de ambição”.

“Estamos cercados de homens que têm baixa autoestima e um grande ego. E isso é um perigo.”


O’Connor construiu o personagem a partir de uma observação de Reichardt: “Estamos cercados de homens que frequentemente têm baixa autoestima e um grande ego. Isso vem do privilégio, privilégio total. Vem de gerações de homens sendo informados de que merecem algo mais”. J.B. não é vilão nem herói. É apenas um sujeito que acredita merecer mais do que a vida lhe deu — e essa crença o destrói.


Quer uma luz no fim do filme?


A América de 1970 (e a de agora)

O filme se passa em 1970, no auge da Guerra do Vietnã. Reichardt não transforma isso em subtexto óbvio — há apenas fragmentos de rádio, manchetes de jornal, tensões familiares entre apoiadores e opositores da guerra. Mas o contexto está lá, informando cada decisão. J.B. é o tipo de americano que conseguiu evitar as consequências do Vietnã. Ele não tem filhos em idade de alistamento, não conhece ninguém que morreu. A guerra é algo que acontece na televisão enquanto ele planeja seu pequeno crime.

Na estreia em Cannes, Reichardt foi direta: "A América está em maus lençóis agora, mas talvez consigamos sair dessa. Enquanto isso, temos o cinema". A frase ecoou pelo teatro. O filme não faz discursos, mas o paralelo é inevitável: uma nação dividida, um homem que acha que as regras não se aplicam a ele, a lenta desintegração de uma vida construída sobre ilusões.

A crítica do site Roger Ebert capturou bem: "The Mastermind faz parte de um subgênero de estudos de personagem que eram comuns durante o período em que a história se passa. O'Connor foi merecidamente comparado a Elliott Gould, o protagonista de muitos clássicos do New Hollywood de crueza poética".

Reichardt não está apenas ambientando um filme nos anos 70 — está fazendo um filme que poderia ter sido feito com toda a paciência e ambiguidade moral que o cinema daquela época permitia.

A forma como conteúdo

Filmado em 16mm pelo diretor de fotografia Christopher Blauvelt (sua sexta colaboração com Reichardt), Mastermind tem uma textura tátil, granulada, que evoca o calor desbotado da década. As cores são naturais, terrosas, com um leve tom amarelado. Quase todas as cenas acontecem sob luz natural — o brilho do final de tarde, a penumbra de um celeiro.

A trilha sonora de Rob Mazurek adiciona uma camada de jazz inquieto que contrasta com o ritmo pausado das imagens. É uma escolha arriscada que funciona: o jazz traz uma energia nervosa que espelha a ansiedade de J.B. sem nunca dominá-la.

Há uma sequência que virou referência nas críticas: J.B. precisa esconder as pinturas roubadas no sótão de um celeiro. Em qualquer outro filme de assalto, isso seria montado em segundos. Reichardt dedica vários minutos à tarefa, filmando cada subida de escada, cada ajuste de posição, cada tropeço. É tedioso no melhor sentido — a tela mostrando o trabalho físico real de ser criminoso, sem glamour nem competência. Enquanto isso, um porco fuça no feno, completamente indiferente ao drama humano.

O presente que você pode dar a si mesmo

The Mastermind está disponível na MUBI. Para quem ainda não conhece a plataforma, essa é uma excelente porta de entrada — e, por falar em entrada, usando o link do Cinema Guiado você ganha um mês grátis para explorar todo o catálogo.

Considere isso um presente de fim de ano. Um filme que respeita sua inteligência, que não explica demais, que confia no poder de uma imagem bem composta e de uma trilha no momento certo. Kelly Reichardt não faz filmes para todos. Mas para quem está cansado de cinema que trata o espectador como criança, ela é essencial.

Na coletiva de imprensa em Cannes, O'Connor disse algo que resume bem a experiência de trabalhar com Reichardt: "Ela é uma das únicas diretoras que conheço que, quando você pergunta 'por que estou fazendo isso?', ela sempre tem uma resposta. Sempre há um porquê. Isso ajuda muito a performance".

Clique aqui para pegar seu mês grátis.

Muito além da história

Que você gosta de ver filmes eu já sei, mas já pensou aprender a ler os filmes? Estou falando de detalhes visuais, símbolos e pistas que bons diretores plantam sem você perceber, mas que mudam totalmente o sentido do que você assiste. E só tem um jeito de aprender isso: treinando seu olhar para tudo o que um filme comunica sem dizer. Depois que você aprende a identificar as intenções por trás das cenas, sua experiência nunca mais será a mesma. Interessou, né?

No curso Uma Luz no Fim do Filme, você desenvolve um olhar mais aguçado para extrair o máximo de cada filme. Visite o site e aproveite as condições especiais de lançamento. 🎬

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima