Ryan Coogler venceu o Oscar de Melhor Roteiro ao transformar terror em ritual de resistência e fazer do cinema de gênero uma declaração política.
O filme Pecadores (Sinners), dirigido por Ryan Coogler e estrelado por Michael B. Jordan, foi o grande acontecimento de 2025, tendo uma recepção extraordinária e amplamente positiva tanto pela crítica especializada quanto pelo público.
O terror de época acompanha Smoke e Stack (Michael B. Jordan em performance dupla que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator), irmãos gêmeos que retornam a Clarksdale, Mississippi, em 1932, após anos trabalhando para o império criminoso de Al Capone em Chicago.
Com dinheiro sujo e sonhos grandes, compram uma antiga serralheria de um membro da Klan para transformá-lo em um espaço de música e liberdade para a comunidade negra local. Recrutam o primo Sammie, um jovem guitarrista com o dom de fazer a música perfurar dimensões, e o velho Delta Slim. Mas a abertura do clube desperta algo que dormia no território: vampiros irlandeses famintos não por sangue, mas por cultura.
Cena que já entrou para a história do cinema
Mas é na música que Pecadores encontra sua razão de existir. Ludwig Göransson, parceiro de Coogler desde Fruitvale Station, vencedor do Oscar por Pantera Negra e Oppenheimer, compôs a trilha inteira em um Dobro Cyclops de 1932, o mesmo violão ressonador que Sammie carrega no filme, e ganhou o Oscar pelo resultado.
Göransson vasculhou o mundo para encontrar três instrumentos do período: um em Londres, um em Nashville, outro em Los Angeles. O resultado é uma partitura que soa como se tivesse sido desenterrada de algum arquivo perdido do Delta.

A cena central do filme, a performance de “I Lied to You” no juke joint, é um prodígio de direção e montagem que merece entrar para a história do cinema musical. Filmada em um único plano-sequência com câmera IMAX de 30 quilos, a sequência acompanha Sammie enquanto sua música literalmente rasga o tempo: gritos africanos dançam ao lado de DJs de hip-hop, bailarinas clássicas giram com dançarinos de rua, o passado e o futuro confluem em um êxtase coletivo que dura quase dez minutos.
É o momento em que Pecadores deixa de ser filme de vampiro para se tornar manifesto sobre a genealogia da cultura negra. Raphael Saadiq, três vezes vencedor do Grammy, coescreveu a canção com Göransson em uma única sessão que ele descreve como “experiência espiritual”. Bobby Rush, lenda do blues aos 94 anos, voou de Seattle para tocar gaita no set, sua presença mal aparece no quadro, mas Delroy Lindo olha para ele enquanto atua, absorvendo décadas de história musical em um único take.
VAMPIROS COMO METÁFORA
Vampiros, no cinema, quase sempre funcionam como metáforas eróticas: a sedução, a mordida, a transformação. Coogler subverte a tradição: seus vampiros são metáforas de apropriação cultural. Remmick (Jack O’Connell em atuação deliciosamente vil) lidera um clã irlandês que não quer apenas sugar sangue, mas absorver memórias, habilidades, alma. Quando morde alguém, cria uma mente colmeia onde a individualidade se dissolve, e com ela, a especificidade cultural que torna cada tradição única. A metáfora não é sutil, nem precisa ser.
De Pat Boone cobrindo Little Richard a TikTokers replicando danças negras sem crédito, a história da música americana é uma história de vampirismo cultural. Coogler filma os vampiros dançando jigs irlandeses antes do ataque, eles têm sua própria tradição, sua própria música. Mas preferem a de Sammie. Preferem sugar a fonte em vez de cultivar o jardim.
Há quem leia Pecadores como defesa do separatismo cultural, e a acusação não é descabida. O juke joint é explicitamente “para nós e por nós”, como Stack declara. Os vampiros oferecem igualdade (“na nossa família, todos são um”), mas a igualdade que oferecem é a dissolução da diferença. Coogler não está interessado em nuance diplomática. Está interessado em proteger o que pode ser perdido quando a assimilação vira norma.
O CONTEXTO HISTÓRICO
É impossível assistir a Pecadores sem pensar no contexto histórico que o sustenta. O Mississippi de 1932 era território de linchamentos, segregação legalizada, terror racial institucionalizado. Coogler não precisa mostrar violência branca para que ela esteja presente, ela paira como ameaça constante, materializada na Klan que aparece no terceiro ato para recolher os despojos do massacre vampírico.
A economia do Jim Crow funcionava assim: negros podiam acumular, desde que brancos pudessem tomar. Coogler sempre filmou personagens negros com consciência das estruturas que os cercam. Em Fruitvale Station, o luto coletivo de Oscar Grant. Em Pantera Negra, a herança colonial que divide Wakanda. Em Creed, a trajetória de afirmação através do corpo. Aqui, a dimensão racial não aparece como discurso, mas como atmosfera, o medo permanente de julgamento, a sensação de vigilância, o peso simbólico dos “pecados” que dão nome ao filme.
Em um país onde moral e raça sempre se confundiram, culpa e punição nunca são distribuídas com igualdade. Pecadores não é filme perfeito, e talvez sua ambição excessiva seja tanto sua glória quanto sua limitação. A transição para o horror sobrenatural, por mais bem preparada que seja, desequilibra a narrativa. O primeiro ato constrói personagens com tamanha riqueza que o massacre subsequente parece desperdiçar possibilidades. Coogler filma a intimidade como poucos diretores de sua geração, mas às vezes parece impaciente para chegar à espetacularização.
Leia a crítica completa do filme aqui.

Ficha Técnica
Titulo: Pecadores (2025)
Roteiro e Direção: Ryan Coogler
Gênero: terror, suspense
Duração: 138 min
Distribuição: Warner
Onde Assistir: HBO Max, Netflix
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