A série dos Irmãos Duffer entregou produção impecável na quinta temporada, mas tropeçou justamente onde mais importava: na confiança de que seu público conseguiria entender tudo sozinho
[Aviso: O texto a seguir contém spoilers da última temporada Stranger Things.]
Há algo de amargo em assistir ao final de uma série que te acompanhou por quase uma década e sentir, ao mesmo tempo, admiração e desapontamento. Stranger Things encerrou sua história em 2025 com episódios tecnicamente irrepreensíveis — fotografia que dialoga com o cinema contemporâneo, direção de arte que estabeleceu novos patamares para produções de TV, efeitos visuais que fazem jus aos 30 milhões de dólares por episódio investidos pela Netflix.
Mas toda essa competência técnica não conseguiu mascarar um problema que se arrastou pela temporada final: a dramaturgia falhou ao subestimar quem estava do outro lado da tela.
Os irmãos Duffer construíram um fenômeno cultural que ressignificou a nostalgia dos anos 1980, devolveu relevância ao terror adolescente e transformou Millie Bobby Brown, Finn Wolfhard, Noah Schnapp, Sadie Sink e companhia em ícones de uma geração.
A série soube, como poucas, equilibrar referências cinéfilas — de Spielberg a Carpenter, de E.T. – O Extra-terrestre a A Hora do Pesadelo — com narrativas emocionalmente honestas sobre amadurecimento, perda e amizade. Durante quatro temporadas, esse equilíbrio funcionou. Na quinta, algo se perdeu no caminho entre Hawkins e o Mundo Invertido.
Talvez a própria ambição da série tenha se tornado seu maior obstáculo. Com tantos personagens a administrar, tantos arcos a concluir, tantas expectativas a atender, os roteiristas parecem ter duvidado da própria obra. E, pior: duvidado da capacidade dos espectadores de acompanhar complexidades sem que cada sentimento fosse devidamente verbalizado, cada motivação devidamente explicada, cada símbolo devidamente traduzido.
A redundância que mata
A quinta temporada de Stranger Things é uma aula de produção audiovisual. A sequência em que Eleven confronta Vecna pela última vez — rodada em locação na Islândia durante três semanas, com equipe de 200 profissionais — entrega composições visuais que rivalizam com grandes produções cinematográficas.
A paleta de cores oscila entre o vermelho sangue e o azul pesado do Mundo Invertido, criando tensão apenas pelo contraste cromático. A trilha sonora de Kyle Dixon e Michael Stein atinge seu ápice emocional, costurando sintetizadores analógicos com orquestração sinfônica.
Mas então os personagens começam a falar. E não param mais.
Mike Wheeler, interpretado por Finn Wolfhard, dedica quatro minutos de um episódio crucial para explicar, em monólogo, exatamente o que sentiu em cada temporada da série, como se o público não tivesse presenciado aquelas mesmas cenas. Joyce Byers verbaliza seu medo de perder os filhos em diálogos que mais parecem sessões de terapia. Até Eleven, cuja força sempre esteve justamente na comunicação não-verbal, ganha falas redundantes sobre seu papel de grande salvadora da Humanidade — conceito já estabelecido visualmente desde o primeiro episódio da temporada.
Há uma cena particularmente sintomática no penúltimo episódio. O grupo se reúne antes do confronto final, e cada personagem, um por um, pronuncia seu discurso motivacional. A câmera passeia entre os rostos em planos fechados enquanto ouvimos declarações sobre coragem, sacrifício, amizade. É bonito, é bem filmado, é bem atuado. Mas soa como um jogral escolar, onde cada aluno precisa ter seu momento de fala para que ninguém se sinta excluído.
A emoção, que poderia emergir organicamente dos olhares trocados, da música, enfim, do momento, é mastigada e entregue pronta.

A obsessão por explicar tudo
Parte desse problema vem de uma tendência da dramaturgia contemporânea: o medo do subtexto. Num cenário de consumo fragmentado, onde espectadores assistem episódios com meses de intervalo, muitas vezes em segunda tela enquanto checam o celular, existe uma pressão para que tudo seja cristalino, imediatamente compreensível, isto é, à prova de distração.
Mas Stranger Things construiu sua base de fãs justamente entre pessoas que assistem com atenção, que destrinham teorias em fóruns online, que percebem as referências visuais a Poltergeist ou Conta Comigo. Esse público não precisava que Hopper explicasse, em três cenas diferentes, por que estava disposto a se sacrificar pela cidade. Bastava o olhar que ele lança para Joyce antes de entrar no portal — um plano de dois segundos que David Harbour entrega com perfeição, mas que é imediatamente seguido por uma fala que traduz exatamente aquilo que acabamos de ver.
A temporada repete esse padrão inúmeras vezes. Descobrimos algo crucial sobre a origem de Vecna através de flashbacks cuidadosamente construídos, com design de produção que recria os anos 1950 em detalhes — e então um personagem resume toda aquela informação visual em diálogo expositivo, caso alguém não tenha prestado atenção. É um desrespeito sutil, mas corrosivo, à inteligência de quem está assistindo.
A distribuição democrática das falas
Outro sintoma dessa dramaturgia insegura é a necessidade de garantir que todos os personagens principais tenham "seu momento". Numa série com um elenco tão numeroso, isso se torna um desafio logístico que invevitavelmente vai se sobrepor à organicidade da narrativa.
No episódio final, há literalmente uma sequência em que cada membro do grupo original completa a frase do outro antes da batalha conclusiva. A intenção é nobre: honrar a jornada de cada um. O resultado é uma sensação de artificialidade, como se estivéssemos assistindo não a pessoas reais em momento de tensão extrema, mas a atores dizendo suas falas na ordem combinada.
Dustin, por exemplo, que sempre funcionou melhor como alívio cômico e coração emocional em doses precisas, ganha um arco inteiro sobre se tornar líder — arco que nunca foi verdadeiramente desenvolvido nas temporadas anteriores, mas que precisa ser resolvido porque... bom, porque sim. Suas falas sobre liderança soam emprestadas de alguns manuais de autoajuda. Lucas tem uma reconciliação com Max que, embora emocionante, se estende por quatro minutos de diálogo onde ambos verbalizam cada sentimento, cada arrependimento, cada esperança — quando um abraço teria dito tudo.

Um final QUASE épico
A impressão que fica é que os roteiristas se esforçaram para enfraquecer o final da série, que poderia ter sido muito mais impactante. Havia expectativa, após oito anos de investimento emocional, por uma conclusão que marcasse. Não necessariamente feliz — a série nunca fugiu de perdas dolorosas — mas memorável pela forma como amarraria todos os fios narrativos. O final foi satisfatório: os vilões foram confrontados, os heróis fizeram escolhas difíceis, Hawkins encontrou alguma versão de paz.
Foi épico? Quase. Épico exige mais confiança em imagens grandes, em olhares pesados, em emoções que transbordam. Exige acreditar que o público está junto, compreendendo nas entrelinhas, sentindo, acompanhando tudo.
Em vez disso, temos uma conclusão tecnicamente perfeita, visualmente deslumbrante, emocionalmente correta — mas explicadinha demais. É como se os irmãos Duffer, depois de nos guiar por quatro temporadas confiando em nossa inteligência, decidissem no último momento que precisavam segurar nossa mão e explicar cada detalhe mais de uma vez.
O LEGADO
Stranger Things ainda é uma grande série. Sua influência na cultura pop é inegável, sua capacidade de criar momentos icônicos está intacta, a maior parte de seu elenco entregou atuações consistentemente boas, alguns foram ainda além. A quinta temporada não apaga as conquistas das anteriores.
De tudo, o que fica é a sensação de que Stranger Things só mereceria ter terminado confiando mais. Em si mesma, em suas imagens, em seu público. Afinal, a série construiu uma relação de quase uma década com milhões de pessoas e poderia ter confiado um pouco mais nelas.
O que você achou do final de Stranger Things? Comenta aí embaixo.
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.

677jili https://www.677jilig.net