O criador da trilogia original se uniu a Stephen Colbert, ex-apresentador do Late Show, para revelar que vão adaptar capítulos ignorados da Terra-Média
Em 25 de março de 2001, dentro do calendário fictício da Terra-Média, Sauron foi derrotado e Um Anel foi destruído. Tolkien escolheu essa data porque sabe que toda lenda precisa de um marco. A Warner Bros. se lembrou disso.
No Dia de Ler Tolkien, Tolkien Reading Day, celebração organizada anualmente pela Tolkien Society desde 2003, o estúdio anunciou, pelo perfil oficial no X, um novo filme da saga.
Confira o anúncio oficial abaixo:
O nome: O Senhor dos Anéis: Sombras do Passado (The Lord of the Rings: Shadows of the Past, no original). O anúncio chegou em forma de videochamada gravada entre Peter Jackson e Stephen Colbert, com a informalidade calculada de quem sabe exatamente o que está fazendo.
A questão óbvia é: por quê Colbert? A resposta, surpreendentemente, tem uma lógica interna sólida.
Colbert explica que o enredo virá de capítulos não abordados no filme A Sociedade do Anel, de 2001.
“O que eu me peguei lendo repetidamente foram os seis capítulos iniciais de A Sociedade do Anel, que você nunca desenvolveu no primeiro filme daquela época”, disse ele a Jackson.
Esses capítulos, que vão do terceiro ao oitavo, incluem a Floresta Velha, a figura de Tom Bombadil e as Colinas-dos-Túmulos, regiões da Terra-Média que ficaram de fora por necessidade narrativa, e que os fãs mais ferrenhos jamais esqueceram.
Colbert pensou: “Espere, talvez isso possa ser uma história própria dentro da história principal.”
A ideia não nasceu num guardanapo. Colbert discutiu o conceito com seu filho, o roteirista Peter McGee, e elaborou um “dispositivo de enquadramento” para o filme. Depois que as bases foram estabelecidas, ele ligou para Jackson e, nos últimos dois anos, trabalharam juntos com a roteirista Philippa Boyens para desenvolver o roteiro.
Boyens não é nome qualquer nessa equação: ela assinou os três filmes originais ao lado de Jackson e Fran Walsh, e integra o DNA criativo mais íntimo da franquia. A presença dela é o selo de que isso não é um produto de licenciamento apressado.
O que o filme vai contar, afinal?
A história se passa 14 anos após a morte de Frodo, quando Sam, Merry e Pippin decidem refazer os primeiros passos da jornada original.
A produção trará uma nova protagonista: Elanor, filha de Sam, que descobre um segredo revelando que a Guerra do Anel esteve muito mais próxima de ser perdida do que se imaginava.
É uma estrutura inteligente: honra o passado sem precisar ressuscitar os personagens centrais em idades impossíveis, e abre espaço para um elenco novo sem trair a mitologia.
Vale contextualizar o peso do que está em jogo.
A trilogia original, lançada entre 2001 e 2003, arrecadou quase US$ 3 bilhões nas bilheterias mundiais e conquistou 17 Oscars®, incluindo Melhor Filme para O Retorno do Rei.
Somadas as duas trilogias de O Senhor dos Anéis e O Hobbit, o universo acumula quase US$ 6 bilhões em bilheteria global. Não existem franquias do gênero com esse histórico que voltam ao forno sem alguma pressão. Peter Jackson sabe disso melhor do que qualquer terráqueo vivo.
E é aqui que Colbert entra como elemento curioso.
Até o encerramento do The Late Show, ele era um dos apresentadores mais populares dos Estados Unidos. Colbert anunciou que o último episódio do programa seria transmitido em 21 de maio, após a CBS ter decidido cancelar o late show de grande audiência. A saída, envolta numa polêmica política (Colbert é crítico declarado de Donald Trump), acabou abrindo espaço para uma segunda carreira pouco provável: roteirista de cinema.
Mas a admiração de Colbert por Tolkien não é pose. Ele já havia atuado em O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013) e, em 2019, dirigiu Jackson, Ian McKellen, Viggo Mortensen e Elijah Wood no curta-metragem Darrylgorn, ambientado na Terra-Média. Não é qualquer um. É alguém que passou anos construindo credibilidade dentro do universo antes de propor uma empreitada dessa.

O que se sabe é que Sombras do Passado ainda não tem elenco definido nem diretor confirmado.
O projeto vem depois de A Caçada por Gollum, dirigido por Andy Serkis e produzido por Jackson, com estreia prevista apenas para 2027.
O que fica desse anúncio é o reconhecimento de que a proposta tem fundamentos reais: material literário genuinamente original e intocado, uma estrutura narrativa que evita o erro de O Hobbit (dilatar o que não pedia dilatação), e uma equipe central com conhecimento profundo do terreno.
Colbert pode parecer uma escolha excêntrica para quem o conhece apenas do talk show, mas o homem dedicou décadas à mitologia tolkieniana com a seriedade de um pesquisador.
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Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP, mas foi morando na Hungria — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — que aprendeu a ler o que os filmes comunicam sem dizer. Em 2023, criou o Cinema Guiado, plataforma editorial independente dedicada à análise, curadoria e reflexão sobre cinema.

