Ryan Coogler transforma terror em ritual de resistência — e faz do cinema de gênero uma declaração política
Alguns filmes te atingem como um coice de cavalo no peito. Pecadores é um desses, mas com a particularidade de deixar a marca antes mesmo de você entender o que te atingiu. Não é apenas o sangue que jorra na segunda metade, nem a violência crua do Sul profundo americano que Ryan Coogler reconstrói com rigor de historiador e ímpeto de poeta.
É algo anterior, mais visceral: o som de um violão Dobro de 1932, o silêncio espesso de um juke joint antes da primeira nota, a sensação de que algo ancestral está prestes a romper o limite entre o visível e o invisível.
O filme acompanha Smoke e Stack (Michael B. Jordan em performance dupla), irmãos gêmeos que retornam a Clarksdale, Mississippi, em 1932, após anos trabalhando para o império criminoso de Al Capone em Chicago. Com dinheiro sujo e sonhos grandes, compram uma antiga serralheria de um membro da Klan para transformá-lo em um espaço de música e liberdade para a comunidade negra local.
Recrutam o primo Sammie, um jovem guitarrista com o dom de fazer a música perfurar dimensões, e o velho Delta Slim. Mas a abertura do clube desperta algo que dormia no território: vampiros irlandeses famintos não por sangue, mas por cultura.
Coogler não esconde suas referências. Um Drink no Inferno, de Robert Rodriguez, está no DNA estrutural da obra, a virada de gênero no meio do filme, o bar como arena de carnificina sobrenatural. Mas onde Rodriguez fazia pastiche pop, Coogler constrói ritual. Onde os Fracos Não Têm Vez dos Irmãos Coen, a cosmologia de Além da Imaginação, tudo é metabolizado por um cineasta que entende que o gênero não é limitação, mas liberdade. E que a linguagem do terror, quando bem manejada, pode dizer verdades que o drama social não alcança.
VISUAL ABSURDAMENTE DESLUMBRANTE
A ambição visual de Pecadores é de tirar o fôlego. Autumn Durald Arkapaw, a primeira mulher a fotografar um longa em IMAX 65mm, alterna entre o formato Ultra Panavision 70 (razão de aspecto 2.76:1, o mais largo do cinema) e o IMAX 1.43:1 (o mais alto). O efeito é de desorientação calculada: ora o horizonte do Delta se estende infinito, esmagando as figuras humanas sob o peso do céu sulista; ora a tela se fecha como um confessionário, forçando intimidade com rostos que carregam séculos de história.
Filmado em película KODAK VISION 3 500T, com inserções em Ektachrome fabricado especialmente para a produção, o longa possui uma textura granulada que evoca tanto o registro documental quanto a memória imprecisa do passado. Coogler e Arkapaw estudaram as fotografias de Eudora Welty dos anos 1930, buscando não a reconstrução literal, mas a atmosfera: a luz oblíqua atravessando janelas sujas, o contraste entre a claridade assassina do meio-dia e a escuridão cúmplice da noite.
O projeto começou como um filme em 16mm, formato que Coogler usou em Fruitvale Station. A escalada para 65mm veio de uma necessidade técnica: os efeitos de duplicação de Jordan exigiam um negativo mais estável. Mas Coogler transformou a restrição em manifesto estético. Christopher Nolan é agradecido nos créditos (não à toa). Pecadores reivindica para o cinema afro o mesmo tratamento monumental que o cinema de prestígio branco sempre reservou para si.

Cena que já entrou para a história do cinema
Mas é na música que Pecadores encontra sua razão de existir. Ludwig Göransson, parceiro de Coogler desde Fruitvale Station, vencedor do Oscar por Pantera Negra e Oppenheimer, compôs a trilha inteira em um Dobro Cyclops de 1932, o mesmo violão ressonador que Sammie carrega no filme.
Göransson vasculhou o mundo para encontrar três instrumentos do período: um em Londres, um em Nashville, outro em Los Angeles. O resultado é uma partitura que soa como se tivesse sido desenterrada de algum arquivo perdido do Delta.
A cena central do filme, a performance de "I Lied to You" no juke joint, é um prodígio de direção e montagem que merece entrar para a história do cinema musical. Filmada em um único plano-sequência com câmera IMAX de 30 quilos, a sequência acompanha Sammie enquanto sua música literalmente rasga o tempo: gritos africanos dançam ao lado de DJs de hip-hop, bailarinas clássicas giram com dançarinos de rua, o passado e o futuro confluem em um êxtase coletivo que dura quase dez minutos.
É o momento em que Pecadores deixa de ser filme de vampiro para se tornar manifesto sobre a genealogia da cultura negra. Raphael Saadiq, três vezes vencedor do Grammy, coescreveu a canção com Göransson em uma única sessão que ele descreve como "experiência espiritual". Bobby Rush, lenda do blues aos 94 anos, voou de Seattle para tocar gaita no set, sua presença mal aparece no quadro, mas Delroy Lindo olha para ele enquanto atua, absorvendo décadas de história musical em um único take. São escolhas que revelam o cuidado quase religioso de Coogler com a autenticidade.

VAMPIROS COMO METÁFORA
Vampiros, no cinema, quase sempre funcionam como metáforas eróticas: a sedução, a mordida, a transformação. Coogler subverte a tradição: seus vampiros são metáforas de apropriação cultural. Remmick (Jack O'Connell em atuação deliciosamente vil) lidera um clã irlandês que não quer apenas sugar sangue, mas absorver memórias, habilidades, alma. Quando morde alguém, cria uma mente colmeia onde a individualidade se dissolve, e com ela, a especificidade cultural que torna cada tradição única. A metáfora não é sutil, nem precisa ser.
De Pat Boone cobrindo Little Richard a TikTokers replicando danças negras sem crédito, a história da música americana é uma história de vampirismo cultural. Coogler filma os vampiros dançando jigs irlandeses antes do ataque, eles têm sua própria tradição, sua própria música. Mas preferem a de Sammie. Preferem sugar a fonte em vez de cultivar o jardim.
Há quem leia Pecadores como defesa do separatismo cultural, e a acusação não é descabida. O juke joint é explicitamente "para nós e por nós", como Stack declara. Os vampiros oferecem igualdade ("na nossa família, todos são um"), mas a igualdade que oferecem é a dissolução da diferença. Coogler não está interessado em nuance diplomática. Está interessado em proteger o que pode ser perdido quando a assimilação vira norma.
Há quem leia Pecadores como defesa do separatismo cultural, e a acusação não é descabida. O juke joint é explicitamente "para nós e por nós", como Stack declara. Os vampiros oferecem igualdade ("na nossa família, todos são um"), mas a igualdade que oferecem é a dissolução da diferença. Coogler não está interessado em nuance diplomática. Está interessado em proteger o que pode ser perdido quando a assimilação vira norma.
O CONTEXTO HISTÓRICO
É impossível assistir a Pecadores sem pensar no contexto histórico que o sustenta. O Mississippi de 1932 era território de linchamentos, segregação legalizada, terror racial institucionalizado. Coogler não precisa mostrar violência branca para que ela esteja presente, ela paira como ameaça constante, materializada na Klan que aparece no terceiro ato para recolher os despojos do massacre vampírico.
A economia do Jim Crow funcionava assim: negros podiam acumular, desde que brancos pudessem tomar. Coogler sempre filmou personagens negros com consciência das estruturas que os cercam. Em Fruitvale Station, o luto coletivo de Oscar Grant. Em Pantera Negra, a herança colonial que divide Wakanda. Em Creed, a trajetória de afirmação através do corpo. Aqui, a dimensão racial não aparece como discurso, mas como atmosfera, o medo permanente de julgamento, a sensação de vigilância, o peso simbólico dos "pecados" que dão nome ao filme.
Em um país onde moral e raça sempre se confundiram, culpa e punição nunca são distribuídas com igualdade. Pecadores não é filme perfeito, e talvez sua ambição excessiva seja tanto sua glória quanto sua limitação. A transição para o horror sobrenatural, por mais bem preparada que seja, desequilibra a narrativa. O primeiro ato constrói personagens com tamanha riqueza que o massacre subsequente parece desperdiçar possibilidades. Coogler filma a intimidade como poucos diretores de sua geração, mas às vezes parece impaciente para chegar à espetacularização.
A segunda metade, embora visceralmente eficaz, perde algo da densidade emocional que a primeira construiu com tanto cuidado. Os personagens secundários, Annie (Wunmi Mosaku) e suas práticas de Hoodoo, Grace e Bo Chow (Li Jun Li) e sua mercearia, a ex-namorada Mary (Hailee Steinfeld), são apresentados com promessa de profundidade que o roteiro não consegue honrar completamente. O filme tenta ser épico e íntimo ao mesmo tempo, e nem sempre consegue equilibrar as duas ambições. Mas talvez essa seja uma crítica injusta a um filme que deliberadamente recusa a moderação. Coogler não está fazendo terror tradicional. Está fazendo cinema de declaração, que reivindica o direito de ocupar o centro do sistema industrial com uma visão específica, intransferível, enraizada em uma experiência histórica particular.

ZEITGEIST CULTURAL
Pecadores entrou no zeitgeist cultural de uma forma que poucos filmes de gênero conseguem: não como entretenimento puro e simples, mas como objeto de discussão, disputa e reverência. No fim, o único problema de Pecadores é confiar demais na beleza de suas imagens, e isso, convenhamos, é um pecado que todo cinéfilo deveria aprender a perdoar. Coogler fez um filme sobre a cultura como arma de resistência, sobre a arte como território sagrado, sobre a liberdade como horizonte sempre ameaçado. Fez um filme que usa vampiros para falar de história, e história para falar de agora.
Quando Stack olha para o céu do Mississippi e diz "é um belo dia para ser livre", Coogler está nos dizendo para prestar atenção. O céu voltará, ao amanhecer, após a carnificina, quando Smoke encara a Klan sozinho. A liberdade, sugere o filme, não é estado permanente. É conquista diária, precária, que precisa ser defendida toda vez que os vampiros, de qualquer tipo, vêm bater à porta.
Ficha Técnica
Pecadores (2025)
Roteiro e Direção: Ryan Coogler
Gênero: Terror, Suspense
Duração: 138 min
Distribuição: Warner
Onde Assistir: HBO Max
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
