O thriller político de Kleber Mendonça Filho iguala Cidade de Deus em número de indicações e coloca o país no centro da maior premiação do cinema mundial. adolpho veloso também é indicado pela fotografia de ‘Sonhos de Trem’
Era questão de tempo até que a maré virasse. Depois de décadas batendo na trave — Fernanda Montenegro em 1999, Cidade de Deus em 2004, a vitória agridoce de Ainda Estou Aqui no ano passado —, o cinema brasileiro acordou nesta quinta-feira (22) com uma notícia que reescreve os livros de história: cinco indicações ao Oscar 2026. Não é erro de digitação. São cinco mesmo.
O Agente Secreto, o neo-noir de Kleber Mendonça Filho ambientado na ditadura militar de 1977, conquistou quatro dessas nomeações: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Direção de Elenco para Gabriel Domingues — esta última uma categoria inédita que estreia justamente nesta edição. A quinta indicação veio de outro território: Adolpho Veloso, diretor de fotografia paulista de 37 anos, foi nomeado por seu belíssimo trabalho em Sonhos de Trem, produção americana da Netflix.
O número quebra um recorde que parecia intocável. Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, conseguiu a marca de quatro indicações para um filme brasileiro. Agora, somando as nomeações de O Agente Secreto e a presença de Veloso em outra produção, o Brasil chega a cinco — uma constelação de talentos que sinaliza menos um acidente feliz e mais uma mudança estrutural na forma como Hollywood enxerga o cinema que falamos.

Wagner Moura: o primeiro homem brasileiro a disputar Melhor Ator
A indicação de Wagner Moura não é apenas uma conquista pessoal; é um marco absoluto. Nenhum ator brasileiro jamais havia sido indicado ao Oscar em qualquer categoria de atuação. Fernanda Montenegro abriu o caminho em 1999 com Central do Brasil. Fernanda Torres seguiu os passos da mãe no ano passado. Agora, Moura se torna o terceiro brasileiro a disputar uma estatueta de interpretação — e o primeiro na categoria masculina.
O caminho até aqui foi pavimentado em Cannes, onde Moura levou o prêmio de Melhor Ator em maio de 2025, tornando-se o primeiro brasileiro a conquistar o troféu no festival francês. O Globo de Ouro veio em janeiro, reforçando uma campanha que ganhou tração no momento exato: a votação da Academia aconteceu dias depois da cerimônia em Los Angeles.
Moura enfrenta uma categoria feroz. Timothée Chalamet (Marty Supreme), Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra), Michael B. Jordan (Pecadores) e Ethan Hawke (Blue Moon) compõem um quinteto que transforma a disputa num campo minado de narrativas poderosas. Mas o ator baiano chega com algo que seus concorrentes não têm: a urgência de um filme que dialoga diretamente com o momento político do Brasil e do mundo.
Gabriel Domingues e a arte invisível do casting
A categoria de Melhor Direção de Elenco estreia no Oscar 2026 após anos de lobby dos profissionais da área. É um reconhecimento tardio, mas necessário: o trabalho de escalar atores determina o destino comercial e artístico de qualquer filme. No caso de O Agente Secreto, Gabriel Domingues enfrentou um desafio particular — encontrar rostos que parecessem ter existido em 1978.
"Kleber tinha descrições muito longas para cada personagem, repletas de detalhes, mesmo que o personagem fizesse apenas uma breve aparição", explicou Domingues em entrevista à IndieWire. O elenco final combina nomes consagrados — Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone — com descobertas como Tânia Maria, cuja Dona Sebastiana, a dona do albergue onde Marcelo se hospeda, roubou cenas em Cannes e promete virar fenômeno quando o filme ampliar seu alcance.

Adolpho Veloso: o olho brasileiro que capturou a América
A quinta indicação vem de um lugar inesperado. Adolpho Veloso, paulista de 37 anos formado pela FAAP, assina a fotografia de Sonhos de Trem, adaptação do livro de Denis Johnson dirigida por Clint Bentley. O filme acompanha um lenhador no noroeste americano do início do século XX — território distante do Brasil, mas que Veloso iluminou com sensibilidade que a Academia reconheceu.
A trajetória de Veloso é meteórica. Começou em documentários e videoclipes (Pabllo Vittar, Glória Groove), saltou para o cinema independente americano com Jockey em 2021 e agora disputa o Oscar ao lado de nomes como Łukasz Żal (Hamnet). Caso vença, será o primeiro brasileiro a levar a estatueta de Melhor Fotografia. O próximo projeto do fotógrafo é Remain, novo suspense de M. Night Shyamalan.

O que está em jogo
Cinco indicações não são apenas um número bonito para manchetes. São a confirmação de que o cinema brasileiro atingiu um patamar de competitividade que transcende a categoria de Filme Internacional — historicamente o único terreno onde produções não anglófonas conseguiam respirar.
O Agente Secreto disputa Melhor Filme contra pesos-pesados como Pecadores, Uma Batalha Após a Outra e Hamnet. Não é favorito, mas a presença na categoria principal, repetindo o feito de Ainda Estou Aqui, indica que a Academia deixou de tratar o cinema brasileiro como curiosidade exótica.
A cerimônia acontece em 15 de março, no Dolby Theatre. Resta saber quantas dessas indicações vão se converter em estatuetas. Cidade de Deus saiu de mãos vazias em 2004. Ainda Estou Aqui levou o prêmio de Filme Internacional, mas perdeu Atriz e Filme. A história do Brasil no Oscar é feita de quases.
Este ano, porém, a matemática é diferente. Cinco chances. Cinco portas abertas. E um cinema que finalmente aprendeu a jogar o jogo sem pedir desculpas por existir.
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
