O que o final de ‘O Agente Secreto’ realmente significa

O que o final de ‘O Agente Secreto’ realmente significa

O que a ditadura apagou, o cinema de Kléber Mendonça Filho faz questão de preservar, em filme que termina com um recorte de jornal e nenhum consolo

Indicado em quatro categorias no Oscar, o filme O Agente Secreto, do cineasta Kleber Mendonça Filho, vem provocando debates acalorados desde sua estreia no cinema e ainda mais agora que o filme estreou na Netflix. Embora aclamado pela crítica, o longa deixou boa parte do público intrigada, e alguns até decepcionados, com um final que foge de respostas óbvias e não entrega uma conclusão tradicionalmente “fechada”.

Mas tem uma cena em O Agente Secreto que sintetiza tudo que o diretor quis dizer com seu quinto (e mais sofisticado) longa-metragem — e ela não envolve perseguição, tiros de metralhadora ou sequer um diálogo mais tenso. É a cena final, muda e cortante: sem mostrar o assassinato de forma explícita, o filme usa um recorte de jornal para expor a morte de Armando, personagem vivido por Wagner Moura.

A revelação, porém, acontece de maneira discreta mas, claro, cheia de significado. Em vez de mostrar a violência gráfica na tela, o diretor escolhe mostrar um recorte de jornal que aparece rapidamente em cena.

Quem encontra o documento é uma jovem historiadora vivida por Isadora Ruppert. A personagem investiga episódios menos expressivos da ditadura militar brasileira e decide mergulhar em arquivos que acabam revelando o desfecho de Armando.

Segundo o delegado responsável pelo caso, ele era acusado de corrupção e desvio de recursos públicos destinados a pesquisas. Para o delegado, tratava-se de típica “queima de arquivo”.

Recorte de jornal com notícia falsa sobre a verdadeira história de Armando (Wagner Moura) em ‘O Agente Secreto’

Então, na reta final, a câmera salta para o presente. Duas estudantes de história, Daniela e Flávia, descobrem em arquivos que Armando foi assassinado e teve sua reputação manchada. Flávia viaja ao Recife e entrevista Fernando, filho de Armando/Marcelo, que na versão adulta também é interpretado por Wagner Moura. Ele conta que não tem lembranças do pai e não dá abertura para falar sobre o que lembra ou sabe da vida dele.

A versão oficial — divulgada na referida reportagem de jornal que o espectador pode ler na íntegra em um close cuidadosamente enquadrado — é a versão do regime: um pesquisador corrupto, morto em circunstâncias nebulosas. O delegado não demonstra qualquer dúvida sobre o caráter da vítima.

Flávia entrega a Fernando um pen drive com todos os arquivos sobre o pai. Ele sequer afirma se acessará o conteúdo. Na última cena, os dois se despedem na porta do centro médico, e ele revela que aquele lugar foi um antigo cinema de Pernambuco.

O que aquela cena realmente diz

A escolha de usar Wagner Moura nos dois papéis — pai e filho — não é recurso de casting. É uma declaração de tema. O filho carrega o rosto do pai sem carregar a memória. A semelhança física existe; mas o elo afetivo foi cortado pela ditadura. Assim, o filme se encerra mostrando como a ditadura militar privou algumas pessoas de viverem e criarem memórias ao lado de seus parentes.

O pen drive que Flávia entrega a Fernando é o contrapeso dramatúrgico dessa operação de apagamento. É o arquivo contra o esquecimento. Mas Mendonça Filho é demasiado honesto para deixar a cena bonita: Fernando não diz que vai acessar os arquivos. A possibilidade permanece aberta — e dolorosa. O espectador sai sem saber se a história de Armando será, enfim, escutada pelo único que ainda poderia dar a ela um desfecho.

A escolha de situar a cena final em um hospital que foi um cinema reflete uma intencionalidade do diretor de mostrar o espaço arquitetônico como um espaço da memória e ficção que se transforma em um lugar de cura. Em Retratos Fantasmas (2023), seu documentário imediatamente anterior, Mendonça Filho já havia tratado das salas de cinema de Recife como espaços de memória viva — e de seu desaparecimento como sintoma de amnésia cultural.

Aqui, a ideia retorna em forma narrativa: o cinema que existia, que projetou Tubarão para uma criança em 1977, agora é um hospital. O espaço da imaginação virou espaço de cura. Não é metáfora simples; é uma observação dura. As coisas mudam de função, mas deixam rastros. O problema é que Fernando sabe que ali foi um cinema, mas não sabe quem foi o pai que deveria tê-lo acompanhado.

O diretor e sua tese

Mendonça Filho revelou que chegou a considerar uma conclusão mais convencional, mas percebeu que isso não combinava com o espírito da obra. “Sendo eu um jornalista que já descobriu muita coisa em arquivos, filho de uma historiadora, faz total sentido que o filme caminhe para onde caminha. É uma escolha muito forte, muito sentimental”, afirmou o diretor.

Essa mise en abyme, ou “narrativa em abismo”, quando a uma obra contém uma réplica menor de si mesma, criando um espelhamento infinito, vira veículo da história que o jornalismo oficial enterrou e é a tese central do longa.

O Agente Secreto argumenta que o cinema pode ser um dos poucos lugares onde aquilo que os arquivos oficiais apagara ainda pode encontrar uma voz.

A pergunta que O Agente Secreto formula é: a história serve para alguma coisa se aqueles que precisam ouvi-la escolhem o silêncio?

Fernando tem o rosto do pai. Tem o pen drive. Trabalha no lugar onde o pai deveria tê-lo levado ao cinema. Mas não lembra de nada. Talvez não queira lembrar, o luto negado é uma forma de sobrevivência.

Mendonça Filho não resolve porque a história real também não se resolveu. Os perpetradores das atrocidades da ditadura morreram foram anistiados. As vítimas foram enterradas com nomes errados e reputações manchadas. Os arquivos sobreviveram por acidente e dedicação — não por justiça.

O cinema que virou hospital guarda em suas paredes a memória de uma tela que já não existe. Fernando a atravessa todos os dias sem saber. Isso não é pessimismo, é um filme que respeita a inteligência do espectador para não fingir que o Brasil processou o que ainda não processou.

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Oficialmente, o evento começa hoje, domingo, às 20h, no horário de Brasília. Mas o tapete vermelho oficial será exibido ao vivo a partir das 18h30. A última categoria, a de Melhor Filme, deve ser transmitida apenas depois da meia-noite.

No Brasil, a transmissão ao vivo será dividida entre TV Globo, TNT e HBO Max. A cobertura do tapete vermelho começa às 18h30 somente pela TNT e HBO Max.

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Assista ao vídeo oficial do Oscar com os indicados a Melhor Filme:

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