Na categoria de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa, o Reino Unido lidera o ranking, mas Espanha e França dominaram nos últimos anos
O Reino Unido lidera o ranking histórico com sete vitórias na categoria. Mas há um asterisco importante: a maior parte dessas conquistas aconteceu antes de 1973, quando a premiação ainda separava filmes estrangeiros em inglês dos filmes em outras línguas. Hamlet (1948), de Laurence Olivier, inaugurou a tradição britânica no prêmio. Quando as categorias se fundiram, os britânicos praticamente desapareceram da disputa — afinal, a maioria de seus filmes passou a competir nas categorias principais.
O cenário contemporâneo é outro. Desde 1987, quando a categoria assumiu o formato atual de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa, dois países europeus dominam: Espanha e França.
A era Almodóvar e o cinema espanhol
A Espanha construiu sua reputação no Globo de Ouro principalmente através de um nome: Pedro Almodóvar. O cineasta manchego venceu duas vezes — com Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Fale com Ela (2002) — e transformou-se em sinônimo de cinema espanhol para o público internacional.
Mas não está sozinho. Alejandro Amenábar também conquistou o prêmio com Mar Adentro (2004).
A tradição espanhola combina autoria forte com histórias que atravessam fronteiras. Não por acaso, quatro dos cinco longas espanhóis que chegaram ao Oscar de Melhor Filme Internacional também passaram pelo Globo de Ouro.

França: a potência DO CINEMA
A França rivaliza com a Espanha em número de vitórias recentes e ultrapassa todos em número de indicações. É o país que mais vezes disputou a categoria — reflexo de uma indústria cinematográfica que nunca parou de produzir em volume e qualidade.
Os franceses venceram com obras tão distintas quanto Indochina (1992) e Anatomia de Uma Queda (2023), de Justine Triet. Na edição de 2025, Emilia Pérez, de Jacques Audiard, levou o prêmio — consolidando a França como força dominante também na era do streaming.
A diversidade de gêneros é característica marcante: dramas históricos, comédias, thrillers psicológicos. O cinema francês não aposta em fórmula única.
Coreia do Sul, Irã, Japão: o mundo se expande
O século XXI trouxe novos protagonistas. A Coreia do Sul, antes invisível na premiação, conquistou dois Globos de Ouro consecutivos: Parasita (2019), de Bong Joon-ho, e Minari (2020), de Lee Isaac Chung (este último uma produção americana em língua coreana). O impacto de Parasita foi sísmico — não apenas venceu o Globo de Ouro, como se tornou o primeiro filme não-inglês a ganhar o Oscar de Melhor Filme.
O Irã de Asghar Farhadi também entrou no mapa com A Separação (2011), e o Japão reapareceu com Drive My Car (2021), de Ryusuke Hamaguchi. São cinematografias que ganharam espaço não por volume de produção, mas por obras individuais de impacto excepcional.

Suécia: o legado de Bergman
Nenhum país deve tanto a um único cineasta quanto a Suécia deve a Ingmar Bergman. O diretor venceu seis Globos de Ouro na categoria — um recorde absoluto que permanece imbatível. Morangos Silvestres (1957), A Fonte da Donzela (1960), Cenas de um Casamento (1973), Face a Face (1976), Sonata de Outono (1978) e Fanny e Alexander (1982) formam uma sequência de obras-primas que definiu o que o mundo entende por “cinema de arte europeu”.
Depois de Bergman, a Suécia manteve presença esporádica na premiação. Ruben Östlund, com Força Maior (2014), representou uma nova geração — mas a sombra do mestre ainda é longa.
E o Brasil?
Na história da categoria, o Brasil venceu duas vezes: Orfeu Negro (1960) — uma coprodução com a França frequentemente creditada aos europeus — e Central do Brasil (1999), de Walter Salles.
A vitória de Fernanda Torres como Melhor Atriz em 2025 por Ainda Estou Aqui não conta para a estatística de filmes, mas sinaliza um momento de visibilidade inédita. Neste domingo, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, disputa não apenas a categoria de língua não-inglesa, mas também Melhor Filme de Drama — algo que nenhuma produção brasileira jamais conseguiu.

O que os números revelam
A categoria de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa funciona como um espelho das forças cinematográficas globais. O domínio europeu é inegável — Reino Unido, França, Espanha, Suécia e Itália concentram a maioria das vitórias. Mas a ascensão asiática no século XXI sugere que o mapa está em transformação.
O Globo de Ouro, diferentemente do Oscar, permite que múltiplos filmes de um mesmo país concorram no mesmo ano. Isso favorece cinematografias prolíficas como a francesa, mas também abre espaço para surpresas de países com produções menores.
Para o Brasil, o desafio permanece: transformar momentos de destaque em presença consistente. Central do Brasil venceu há 26 anos. Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto sugerem que uma nova era pode estar começando — mas só o tempo dirá se é tendência ou exceção.
Os países com mais vitórias no Globo de Ouro (Melhor Filme de Língua Não-Inglesa):
Reino Unido: 7 vitórias (maioria antes de 1973)
Suécia: 6 vitórias (todas de Ingmar Bergman)
França: 6 vitórias
Espanha: 5 vitórias
Itália: 4 vitórias
Alemanha: 3 vitórias
Japão: 3 vitórias
Coreia do Sul: 2 vitórias
Brasil: 2 vitórias
Irã: 1 vitória
ONDE ASSISTIR AO GLOBO DE OURO?
O horário da premiação — 22h no Brasil, 20h na costa leste dos EUA, 16h em Los Angeles — foi escolhido para maximizar audiência em diferentes fusos. É domingo à noite, momento em que parte significativa do público está disponível. E diferentemente do Oscar, que se estende por quatro horas, o Globo de Ouro tende a ser mais enxuto: cerca de duas horas e meia. Tempo suficiente para não cansar. A cerimônia deste ano terá transmissão da TV Globo.
E aí, como está a sua torcida? Comenta aqui embaixo.
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
