Em cinco episódios, a nova produção brasileira da Netflix transforma uma das maiores tragédias do Brasil em um drama humano urgente.
Em 13 de setembro de 1987, dois catadores retiraram de um terreno abandonado em Goiânia uma peça metálica que parecia apenas sucata comum. Dentro dela, havia um pó de coloração azul brilhante que chamou atenção imediata de quem o viu — algo próximo de uma beleza estranha, quase mágica. O material foi distribuído entre familiares, amigos, vizinhos. Crianças brincaram com ele. Uma menina de seis anos o ingeriu. Seu nome era Leide das Neves Ferreira, e ela morreria dias depois.
O acidente com o Césio-137 resultou em quatro mortes registradas diretamente na época, além de centenas de contaminados — e foi classificado pela Agência Internacional de Energia Atômica como o maior desastre radiológico em área urbana da história. Não apenas do Brasil.
Trinta e oito anos depois, a Netflix estreia Emergência Radioativa, a minissérie baseada em fatos reais que tenta dar forma dramática ao colapso silencioso daqueles dias. A produção chega com cinco episódios e nasce pronta para comparações com Chernobyl — paralelo que a própria série incorpora à narrativa, já que os acontecimentos de Goiânia se desenrolaram apenas um ano após o desastre soviético de 1986.
A questão é: por que o Brasil demorou tanto para fazer essa série?

Protagonizada por Johnny Massaro, a trama acompanha físicos, médicos e equipes técnicas diante de uma contaminação em massa — uma corrida contra o tempo para conter a crise e salvar vidas.
O físico Márcio, interpretado por Massaro, e seu colega Orenstein, vivido por Paulo Gorgulho, enfrentam pressão constante para explicar a gravidade da situação à população e às autoridades — e precisam fazer isso enquanto repetem, exaustivamente, que não, aquilo não é Chernobyl. A ironia dramática funciona: a comparação que os personagens recusam é exatamente aquela que o espectador traz para a tela consigo.
O elenco reúne ainda Bukassa Kabengele, Alan Rocha, Antonio Saboia, Tuca Andrada e Luiz Bertazzo, com participações especiais de Leandra Leal e Emílio de Mello.
A estrutura narrativa dos cinco episódios opera em uma progressão lógica e calculada. No primeiro, acompanhamos a cápsula passear por Goiânia enquanto a gravidade do que está se desenrolando fica clara — um capítulo com ares de filme de desastre que cria um suspense de prender a respiração. Os episódios dois e três colocam os físicos do CNEN para correr pela cidade na tentativa de conter os danos.
A reta final é melancólica e forte por centralizar o foco nos hospitais, alguns improvisados, onde as vítimas estão sendo tratadas. É uma estrutura de três atos clássica que a minissérie cumpre bem — e que tem o mérito de resistir à tentação da espetacularização fácil.
Fernando Coimbra assina a direção. Formado em Cinema pela ECA-USP, Coimbra estreou em longas com o ótimo O Lobo Atrás da Porta (2013), pelo qual ganhou o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2015 em sete categorias, incluindo melhor filme e melhor direção — além de ter sido indicado ao prêmio de melhor direção para estreante pelo Sindicato dos Diretores americano, o DGA Awards.
Depois disso, dirigiu episódios de Narcos e longa Castelo de Areia, com Henry Cavill e Nicholas Hoult, antes de retornar ao Brasil.
O que define Coimbra como cineasta — e o credencia para este material — é seu trato preciso com a ambiguidade moral. Em O Lobo Atrás da Porta, ninguém era herói ou vilão: as pessoas simplesmente cruzavam um limite e pagavam por isso. Em Emergência Radioativa, o mesmo princípio se aplica a uma escala maior: o Brasil inteiro cruzou um limite por ignorância, descaso institucional e ausência de cultura de prevenção.
A série evidencia o despreparo do país diante da tragédia e como diferentes agendas políticas, disputas técnicas e preconceitos sociais complicaram a missão de conter o Césio-137.
O material radioativo tem comportamento químico semelhante ao do potássio, o que facilita sua absorção por plantas, animais e seres humanos. Visualmente chamativo por seu brilho azulado, foi fragmentado e distribuído entre ferro-velhos, parentes e amigos, ampliando drasticamente o alcance da contaminação.
O horror não é nuclear no sentido cinematográfico do termo, é a banalidade: um pó bonito, passado de mão em mão como um presente.
A descontaminação posterior produziu 13.500 toneladas de lixo atômico, cujo período de risco ao meio ambiente se estende por 180 anos. Goiânia carrega esse passivo no subsolo até hoje.

A recepção da série foi mista. Sobreviventes e representantes culturais de Goiânia criticaram principalmente a ausência de consulta às vítimas durante o desenvolvimento e a decisão de gravar grande parte das cenas fora da capital goiana. O diretor respondeu que a Goiânia de 1987 — ainda jovem, com ruas de terra e forte influência rural — simplesmente não existe mais na cidade contemporânea.
É uma justificativa razoável do ponto de vista de reconstituição histórica. Mas revela também um problema mais fundo: produções sobre tragédias coletivas que não ouvem os sobreviventes correm o risco de contar a história dos que agiram sobre a crise, não a daqueles que viveram dentro dela.
Entre as críticas está também a forma como o material radioativo é representado, como o brilho do pó azul, e o fato de atores interpretarem personagens baseados em pessoas reais. Sueli de Moraes, vice-presidente da associação das vítimas, descreveu opiniões divididas dentro da própria comunidade — alguns acreditam que a série pode ajudar a manter viva a memória da tragédia; outros sentem que ela foi feita sem eles.
Essa tensão, aliás, é constitutiva do gênero. Chernobyl, da HBO, também foi criticada por ex-soviéticos por simplificações e escolhas dramáticas que não condiziam com a realidade.
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A questão não é se a ficção pode ou deve existir sobre eventos reais — pode e deve —, mas se ela se responsabiliza pelo peso do que toca.
Emergência Radioativa chega num momento em que o cinema brasileiro vive um raro período de visibilidade internacional — O Agente Secreto fez bonito com quatro indicações no Oscar® 2026, e a indústria nacional acumula prestígio e atenção que não via há décadas. A minissérie da Netflix entra nesse fluxo como produção de gênero séria, tecnicamente competente e dramaticamente eficaz — três adjetivos que, no contexto do audiovisual brasileiro para plataformas, ainda não deveriam ser tomados como garantidos.
O Césio-137 matou quatro pessoas em 1987. O seu legado contaminou muito mais. Uma série não ressuscita ninguém, não devolve a saúde às vítimas que passaram décadas lutando por justiça. O que ela pode (e parece) fazer é impedir que a história se dissolva na amnésia coletiva que o Brasil cultiva com tanto esmero em relação às suas próprias catástrofes.
Cinco episódios. Trinta e oito anos de espera. Não é o suficiente, mas é um começo.
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP, mas foi morando na Hungria — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — que aprendeu a ler o que os filmes comunicam sem dizer. Em 2023, criou o Cinema Guiado, plataforma editorial independente dedicada à análise, curadoria e reflexão sobre cinema.

