O novo fenômeno da ficção científica quebra recordes de bilheteria, conquista 95% no Rotten Tomatoes e já entra na corrida para o Oscar 2027
Ryland Grace (Ryan Gosling) acorda sozinho numa espaçonave a 12 anos-luz da Terra, sem memória de quem é, sem saber o que faz ali, sem companhia além de duas carcaças humanas flutuando ao seu lado.
É nesse instante que Devoradores de Estrelas (título original: Project Hail Mary) estabelece suas credenciais: um filme de ficção científica que começa apresenta um dos arcos emocionais mais generosos do cinema recente.
Estrelado por Ryan Gosling e Sandra Hüller, dirigido pela dupla Phil Lord e Christopher Miller, com roteiro de Drew Goddard e baseado no romance homônimo de Andy Weir (o mesmo autor de Perdido em Marte), o longa estreou nos cinemas brasileiros e já é considerado por alguns o filme do ano.
a trama
O Sol está morrendo. Uma colônia de microrganismos chamados “astrofágicos” avança pela Via Láctea consumindo a energia solar, e o planeta tem anos, não décadas, antes de entrar numa era do gelo irreversível.
A resposta da humanidade para esse fim iminente é o Projeto Fim do Mundo: uma missão suicida que envia uma única nave ao sistema solar Tau Ceti, onde uma estrela vizinha parece inexplicavelmente saudável.
Ryland Grace (Gosling), professor de biologia molecular que havia abandonado a academia para dar aulas no ensino fundamental, é recrutado à força pela estrategista Eva Stratt (Hüller) e acorda sozinho no espaço, os outros dois tripulantes acabam mortos durante a viagem.
A estrutura inicial é provavelmente a parte mais eficiente do longa: Grace desperta sem memória, numa nave desconhecida, e o filme se constrói como um mistério de reconstituição, revelando o passado em flashbacks à medida que o personagem recupera a memória. É uma mecânica que Drew Goddard já havia executado com maestria em Perdido em Marte, e aqui funciona igualmente, mas com uma camada emocional mais densa.
O que transforma o filme é o surgimento de um segundo personagem. O que parecia uma odisseia de um homem solitário, de repente, vira outra coisa. E não digo mais para não estragar a experiência.
Os números
Com US$ 33,1 milhões arrecadados no primeiro dia de exibição na América do Norte, Devoradores de Estrelas se tornou o detentor da maior estreia doméstica da história para um filme não pertencente a uma franquia, superando Oppenheimer, que havia arrecadado US$ 33 milhões em sua abertura em 2023.
No fim de semana, o longa somou US$ 80,6 milhões nos Estados Unidos, estabelecendo a maior abertura da história da Amazon MGM Studios e superando Creed III, que havia arrecadado US$ 58,3 milhões em 2023.
Globalmente, a abertura chegou a US$ 141 milhões, superando amplamente as estimativas iniciais que apontavam para algo entre US$ 40 e US$ 45 milhões.
E estamos falando de um filme original, sem universo compartilhado, sem sequência anunciada, sem franquia. Num mercado que exige tudo isso para justificar orçamentos acima de US$ 100 milhões, esses números são uma anomalia estatística.
O longa estreou com 95% de aprovação no Rotten Tomatoes, e o crítico Scott Menzel o descreveu como uma "conquista cinematográfica épica" com previsão de forte presença nas premiações.

Ryan Gosling carrega o filme nas costas durante boa parte de sua duração de 2h37 — e carrega bem. O ator habita personagens emocionalmente fechados sem torná-los opacos, e aqui usa esse registro com eficiência. Seu Grace é um homem inteligente, ansioso, espirituoso quando necessário e profundamente covarde em momentos decisivos do passado.
Gosling disse em entrevista que se identificou com o personagem por retratar "uma pessoa comum em uma situação extraordinária" — declaração que soa como marketing mas que o filme, honestamente, sustenta.
A revelação maior, porém, é Sandra Hüller. A atriz alemã ganhou o mundo com Anatomia de uma Queda (Palma de Ouro em Cannes 2023) e chega a Devoradores de Estrelas como sua primeira grande produção hollywoodiana.
Ela é cativante como Eva Stratt, uma personagem inspirada em Angela Merkel. Sempre que a câmera a encontra, ela justifica cada segundo de atenção.
A dupla por trás das câmeras
Phil Lord e Christopher Miller são dois diretores que passaram a carreira transformando conceitos impossíveis em filmes extraordinários. Vencedores do Oscar de Melhor Animação por Spider-Man: Homem-Aranha no Aranhaverso (2018), a dupla é conhecida pela subversão de gênero e pela sensação visual apurada — um traço que atravessa quase todos os seus filmes.
Devoradores de Estrelas é sua primeira incursão em ficção científica de grande escala, e a aposta era pesada. A fotografia de Greig Fraser (o mesmo de Duna e Batman) enquadra o espaço como lugar de beleza e sufocamento.
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Devoradores de Estrelas não é um filme sobre salvar o planeta, mas sobre o que acontece quando você coloca duas criaturas diferentes num espaço fechado.
Num momento em que Hollywood vive de franquias e universos interconectados, um filme de orçamento de US$ 190 milhões baseado num romance de ficção científica desconhecido quebrar todos os recordes de estreia para originais não é pouca coisa.
O Oscar 2027 ainda está a um ano de distância. Mas quando um filme começa quebrando tantos recordes e conquistando a crítica e o público ao mesmo tempo, não tem como não colocá-lo na lista de prováveis indicados a Melhor Filme.
Devoradores de Estrelas está em cartaz nos cinemas brasileiros.
Confira o trailer:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP, mas foi morando na Hungria — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — que aprendeu a ler o que os filmes comunicam sem dizer. Em 2023, criou o Cinema Guiado, plataforma editorial independente dedicada à análise, curadoria e reflexão sobre cinema.

