Pequenas Coisas Como Estas Prime Video

Depois do Oscar por ‘Oppenheimer’, Cillian Murphy volta em drama polêmico no Prime Video

Em Pequenas Coisas Como Estas, Cillian Murphy vive um vendedor de carvão numa cidadezinha irlandesa que precisa acertar contas com a própria consciência.

Havia uma curiosidade real em torno do primeiro filme de Cillian Murphy depois do Oscar de Melhor Ator por Oppenheimer (2023). Depois de uma superprodução norte-americana sobre a bomba atômica, o ator irlandês foi na direção oposta e escolheu um drama intimista de orçamento modesto, filmado na Irlanda, sobre um homem comum diante de uma decisão que ninguém gostaria de tomar. Pequenas Coisas Como Estas (2024), coprodução entre Irlanda e Bélgica dirigida por Tim Mielants, acaba de chegar ao streaming.

O filme se passa em 1985, às vésperas do Natal, na pequena cidade de New Ross, no condado de Wexford, na Irlanda. Bill Furlong (Cillian Murphy) é um vendedor de carvão e madeira que sustenta a família com trabalho duro. Ele acorda antes do sol, faz entregas no escuro, volta para casa com as mãos sujas, lava cada dedo com cuidado antes de sentar à mesa com a esposa, Eileen (Eileen Walsh), e as cinco filhas. A rotina é estável, a vida é apertada, e a cidade inteira gira em torno da presença da Igreja Católica.

Numa manhã de entrega ao convento local, Bill testemunha uma mãe forçando a filha adolescente a entrar no lugar. Pouco depois, descobre uma jovem trancada num depósito de carvão, apavorada e com sinais de maus-tratos. O convento abriga uma das chamadas Lavanderias de Madalena, instituições administradas por ordens religiosas onde mulheres consideradas “inadequadas” pela moral católica eram encarceradas e submetidas a trabalho forçado. As lavanderias operaram na Irlanda da década de 1820 até 1996, e a cidade toda sabe disso.

O que transforma o conflito de Bill em algo mais profundo do que um dilema entre falar e calar é o passado dele. Sua mãe era uma dessas mulheres. Ela foi acolhida por uma empregadora generosa, a Sra. Wilson (Michelle Fairley), que a tirou do sistema, e Bill cresceu sob esse cuidado. Mas a mãe morreu jovem, antes dos vinte e cinco anos, e ele carrega o peso de uma dívida que nunca pôde ser paga. Quando vê aquela garota trancada, Bill não está apenas diante de uma injustiça, mas diante da história da própria mãe.

A adaptação é do roteirista Enda Walsh, colaborador antigo de Murphy desde a peça Disco Pigs (1996), e se baseia no romance homônimo da escritora irlandesa Claire Keegan, publicado em 2021. Keegan é a mesma autora de Foster, o conto que originou o belíssimo A Menina Silenciosa (2022), indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional. O livro Small Things Like These venceu o Prêmio Orwell de Ficção Política e foi finalista do Booker Prize.

Mielants, diretor belga, já tinha trabalhado com Murphy na terceira temporada de Peaky Blinders, dirigindo todos os episódios. Ou seja, o diretor conhece bem o ritmo do ator e confia nele para carregar cenas inteiras sem nenhuma linha de diálogo. Murphy comunica a angústia de Bill pelos olhares e por um jeito de esfregar as mãos que vai ganhando urgência conforme o filme avança. A câmera do diretor de fotografia Frank van den Eeden permanece perto do rosto de Murphy na maior parte do tempo, em planos fechados que capturam cada movimento.

O filme abriu o 74º Festival de Berlim em fevereiro de 2024 e saiu de lá com Emily Watson levando o Urso de Prata de Melhor Atuação Coadjuvante pelo papel da Irmã Mary, a madre superiora do convento. Watson aparece pouco em tela, mas de forma bem marcante, transmitindo autoridade com uma firmeza gélida: cada frase soa como uma ameaça embrulhada em cortesia.

No Rotten Tomatoes, o drama tem nada menos que 94% de aprovação, e no Metacritic alcançou 82 pontos. A crítica elogiou sobretudo a atuação de Murphy e a contenção da direção. Mas há ressalvas recorrentes: parte da crítica considerou o ritmo contemplativo demais, e o final muito abrupto.

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Murphy também assina como produtor, ao lado de Alan Moloney. É o primeiro longa da Big Things Films, produtora que o ator criou depois do Oscar. A Artists Equity, empresa de Matt Damon e Ben Affleck, entra como coprodutora. Tudo aqui é deliberadamente menor: o orçamento foi de três milhões de dólares, a filmagem foi rápida, e Watson gravou suas cenas em dois ou três dias. A modéstia da produção combina com a história que ela conta, sobre um homem comum que decide, pela primeira vez, fazer algo de diferente em sua vida.

O que vale observar, e que diferencia assistir com atenção de apenas acompanhar a trama, é o trabalho de mãos de Cillian Murphy. Bill é um homem que trabalha com as mãos o dia inteiro, e o filme transforma esse gesto cotidiano em linguagem emocional. No início, ele esfrega as mãos mecanicamente, um ritual de limpeza. Conforme a angústia cresce, o gesto muda: ele aperta as mãos, esfrega com mais força, hesita antes de pegar o saco de carvão seguinte.

Mielants filma isso em detalhe, e Murphy calibra cada variação com um controle que dispensa diálogo. Repare também no uso do frio: o vapor que sai da boca dos personagens dentro da igreja e o escuro das manhãs de entrega. O filme usa o inverno irlandês como estado emocional, e a fotografia de Van den Eeden faz desse frio algo que se sente na pele.

Pequenas Coisas Como Estas é um filme que funciona melhor quando se aceita o ritmo dele, que é o de um homem comum pensando no que fazer com o pouco de poder que tem. É a história de um gesto pequeno que custa caro, contada por um ator que sabe o peso de sua presença. O drama está no Prime Video sem custo adicional.

Confira o trailer:

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