Amarela: curta brasileiro pré-indicado ao Oscar 2026 estreia na Globoplay

Amarela: curta brasileiro pré-indicado ao Oscar 2026 estreia na Globoplay

O filme de André Hayato Saito transforma a derrota de 1998 na Copa do Mundo em matéria-prima para um retrato incômodo sobre pertencimento e violência invisível

Algumas cenas resistem ao tempo pela força da tragédia que elas compartilham. O Brasil em silêncio diante de um 3 a 0 que ninguém esperava. Ronaldo andando pelo gramado do Stade de France como quem carrega nas costas um país inteiro em luto coletivo. Julho de 1998 virou sinônimo de frustração nacional — mas para Erika Oguihara, a adolescente nipo-brasileira no centro de Amarela, aquela derrota é apenas ruído de fundo para uma ferida muito mais íntima.

O curta-metragem de André Hayato Saito, um dos quinze títulos selecionados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para a pré-lista do Oscar 2026 na categoria Melhor Curta-Metragem de Ficção, já está disponível no Globoplay e tem reprises programadas no Canal Brasil.

A chegada de Amarela ao streaming acontece em momento cirúrgico. Enquanto o cinema brasileiro vive um dos períodos de maior visibilidade internacional — com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e o documentário Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, também na corrida pelo Oscar —, o curta de Saito amplia o escopo dessa presença ao colocar no mapa uma comunidade historicamente invisível nas telas nacionais: os mais de dois milhões de nipo-brasileiros que compõem a maior diáspora japonesa fora do Japão.

Os indicados finais serão anunciados em 22 de janeiro, com a cerimônia marcada para 15 de março.

‘Amarela’ pode representar o Brasil no Oscar 2026 (Foto: Divulgação)

Em 15 minutos, Amarela acompanha Erika (Melissa Uehara, em sua estreia nas telas aos 14 anos) no dia da final entre Brasil e França. Filha caçula de uma família de imigrantes em São Paulo, ela divide o tempo entre ajudar a mãe nas tarefas domésticas, cuidar da avó e sonhar com o gol de Ronaldo que nunca viria. O irmão mais velho traz a namorada nova para apresentar aos pais; a casa fervilha com a expectativa do jogo. Quando Erika finalmente consegue escapar para assistir à partida com os amigos, algo acontece — uma violência que parece invisível aos demais, mas que a arrasta para um mar de emoções que o filme jamais nomeia explicitamente. É nessa recusa ao didatismo que Amarela encontra sua potência.


Quer uma luz no fim do filme?


Trilogia do Pertencimento

A trajetória do curta já seria notável por si só. Selecionado entre 4.420 inscrições para concorrer à Palma de Ouro no 77º Festival de Cannes — onde foi o único representante latino-americano —, o filme acumulou participações em mais de 100 festivais em 35 países, com prêmios em Havana (Melhor Curta de Ficção), Festival Tous Courts (Grand Prix) e Aguilar Film Festival, onde Melissa Uehara ganhou Melhor Performance Feminina. Se confirmada a indicação, Amarela será apenas o segundo curta brasileiro a disputar o Oscar nessa categoria — o primeiro foi (vejam vocês) Uma História de Futebol, de Paulo Machline, em 2001.

André Hayato Saito tem 41 anos, nasceu em São Paulo e carrega na própria trajetória o conflito que estrutura seu cinema. Terceira geração de uma família de imigrantes japoneses, ele cresceu ouvindo denominações que oscilavam entre o exotismo e o preconceito: oriental, diferente, estrangeiro, coreano. "Sempre me senti japonês demais para ser brasileiro e brasileiro demais para ser japonês", declarou o diretor em entrevista. "A busca por uma identidade que habita o entrelugar se tornou a parte mais sólida de quem eu sou."

Amarela é o terceiro capítulo de uma trilogia que Saito desenvolve desde 2019 junto à produtora MyMama Entertainment. Os dois primeiros — Kokoro to Kokoro – De Coração a Coração (2022), sobre a amizade entre sua avó paterna e uma companheira no Japão, e Vento Dourado (2023), que acompanha sua avó materna aos 94 anos — são documentários que funcionam como escavação arqueológica de uma identidade fraturada. Amarela é o primeiro a transformar esse material em ficção pura.

Protótipo para Longa-Metragem

O projeto nasceu como protótipo para o longa-metragem de estreia de Saito, Crisântemo Amarelo, atualmente em fase de captação com 50% do financiamento assegurado. A coprodução entre Brasil, Alemanha, Japão e França tem filmagens previstas para o segundo semestre de 2026, o que significa que Melissa Uehara — hoje com 16 anos — poderá retomar o papel de Erika em uma narrativa expandida.

A produção de Amarela quase não aconteceu. Quando os recursos se esgotaram, Saito recorreu a Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, que havia dirigido um clipe seu em 2014. A cantora não apenas entrou como produtora associada como indicou Dudu Tsuda e Lilian Nakahodo para a trilha sonora original. "Foi a primeira pessoa de fora que apoiou o projeto", contou Saito. A equipe técnica é majoritariamente formada por profissionais de ascendência asiática: direção de fotografia de Hélcio Alemão Nagamine, direção de arte de Luana Kawamura Demange, montagem de Caroline Leone, figurino de Yuri Kobayashi.

A escolha de ambientar a narrativa na final da Copa de 1998 não é acidental. "A data funciona como um espelho ampliado do que Erika vive internamente", explicou Saito. "É um dia de pertencimento coletivo intenso, em que o país inteiro parece pulsar em uníssono. Para ela, no entanto, esse desejo de celebração esbarra em muros invisíveis. Enquanto o Brasil, de certa forma, se reconhece como nação naquele momento simbólico, Erika tenta entender se há espaço para ela dentro dessa ideia de 'nós'."

'Amarela' pode representar o Brasil no Oscar 2026 (Foto: Divulgação)

OS desafios DO PERTENCIMENTO

A violência que atravessa o filme opera por subtração. Não há cenas de agressão explícita, confrontos verbais ou denúncias diretas. Saito trabalha no registro do desconforto, dos olhares, das palavras aparentemente inofensivas que se acumulam até romperem algo essencial na protagonista. "Trabalhei essa dimensão justamente evitando excessos", disse o diretor. "O filme tenta criar um campo de atenção para esse tipo de violência que se infiltra no cotidiano, muitas vezes normalizada e banal."

Melissa Uehara carrega essa ambiguidade com uma maturidade que desmente sua inexperiência. Há um plano em que ela observa os amigos comemorando um lance qualquer da partida, e algo no seu rosto — uma microexpressão de distanciamento — revela que ela já não está mais ali. É o tipo de atuação que não se ensina, que depende de uma sintonia fina entre diretor e intérprete capaz de capturar o que permanece inarticulável.

A presença do curta na pré-lista do Oscar gerou reverberações significativas para a comunidade nipo-brasileira. "É impactante para nós sermos vistos nas telas", declarou Carolina Liz, atriz e roteirista radicada em Los Angeles, em entrevista ao Omelete. Ela lembrou casos recentes de invisibilidade, como a novela Sol Nascente (Globo, 2016-2017), em que atores brancos interpretaram personagens nipo-brasileiros nos papéis principais.

Amarela está disponível no Globoplay para assinantes. A confirmação da indicação oficial ao Oscar depende do anúncio da Academia na quinta-feira, 22 de janeiro. Se vier, será uma vitória que transcende estatísticas: a afirmação de que existem histórias brasileiras além do cânone, vozes que merecem escuta e rostos que merecem tela.

O cinema de Saito propõe algo arriscado: a permanência no incômodo, o convite para habitar um entrelugar onde identidade é sempre negociação e pertencimento nunca é garantia. Num país que ainda debate quem pode ser chamado de brasileiro, Amarela é um lembrete de que a resposta a essa pergunta depende, antes de tudo, de quem está autorizado a formulá-la.

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