A Morte de Robin Hood

Crítica de ‘A Morte de Robin Hood’ – Hugh Jackman dá tom sombrio a uma história heroica

Um filme conceitualmente intrigante que transforma o herói fora da lei em um criminoso egoísta

Atenção: spoiler! Robin Hood vai morrer. No drama de título direto “A Morte de Robin Hood”, isso pode ser exatamente o que se espera mas, nesta história revisionista e muitas vezes intrigante, o que ele deixa para trás pode ser ainda mais chocante.

Com a distância entre os ultrarricos e o resto de nós aumentando a um ritmo alarmante (agora temos nosso primeiro trilionário – parabéns!), seria tentador usar um herói popular do passado como um símbolo inspirador do que muitos de nós gostaríamos de ver no presente. Mas na versão mais sombria e crua do roteirista e diretor Michael Sarnoski, Robin Hood rouba de todos e guarda tudo para si, apesar do que a lenda possa dizer. Na verdade, interpretado por um taciturno Hugh Jackman, ele é atormentado por histórias contadas ao redor da lareira, que o pintam como alguém a ser aclamado, e apenas aqueles cujas vidas ele tocou conhecem a verdade, se tiverem a sorte de sobreviver. Ele se torna um fora da lei, fugindo não apenas das autoridades, mas também dos pais e irmãos ressentidos que querem vingar o que ele lhes roubou.

Numa cena de abertura impactante e eficaz, Robin é encontrado na natureza selvagem por um andarilho (interpretado pelo sempre cativante ator galês Jade Croot), que descobre da pior maneira que não se deve mexer com ele. Um reencontro com seu velho amigo Little John (Bill Skarsgård) e um acordo para ajudar a proteger o que lhe pertence levam a um confronto violento, e os ferimentos de Robin o enviam para um priorado remoto, onde a priora Brigid (Jodie Comer) cuidará dele até que se recupere, sua identidade permanece um mistério. Mas como aceitar a bondade incondicional quando tudo o que se conhece é o oposto?

— ‘A Morte de Robin Hood’ com Hugh Jackman (A24)

Jackman, com um sotaque “norte-americano” aceitável, embora um pouco indefinido, está confortavelmente de volta ao seu estilo durão de Logan, e até mesmo consegue uma jovem para ser sua mentora, a filha de seu antigo amigo John (Faith Delaney), ansiosa para aprender a usar o arco com ele. Nossas expectativas nos levam a prever que o passado de Robin voltará para assombrá-lo e trazer o caos à tranquilidade de seu novo lar, mas, apesar de demonstrar talento para filmes de ação com algumas cenas de luta incrivelmente sangrentas que lembram O Homem do Norte, Sarnoski nos nega isso de forma categórica.

Como muitas das escolhas feitas por Sarnoski, é uma decisão conceitualmente interessante (concentrar a ação, ideal para o trailer, no início e depois nos privar de mais dela), mas que se mostra um pouco frustrante na prática. Talvez a mudança para um drama de personagens mais contemplativo tivesse sido mais eficaz se soubéssemos mais sobre Robin ou Brigid. Mas muita coisa fica subentendida e, portanto, sentimos muito pouco, um distanciamento que lentamente se transforma em um vazio no centro da história. Comer está tão instintiva e luminosa como sempre, mas recebeu apenas uma pequena fração de personagem para interpretar, e tanto ela quanto um Murray Bartlett quase totalmente oculto no papel de um homem com lepra, são incumbidos de discursos que ambicionam alcançar a profundidade, mas nunca a atingem de fato.

Sarnoski tenta nos conduzir a um lugar semelhante ao que Martin Scorsese nos levou em O Irlandês, um lembrete contundente de que a vida de um criminoso raramente termina em uma explosão de glória, mas sim em um lugar triste e solitário, repleto de desperdício e arrependimento, uma reprimenda para aqueles de nós que esperam por algo mais impactante. Mas o que Scorsese alcançou com tanta maestria, com seu final brutalmente patético, Sarnoski perde o controle, tentando construir uma família improvisada para Robin e insistindo que encontremos a trágica humanidade em seus últimos dias e escolhas, espremendo lágrimas que nunca caem. Para um filme lento – e muitas vezes tedioso –, o final também parece estranhamente apressado, com decisões e revelações não exploradas o suficiente para que tenham o impacto desejado (existe um thriller psicológico potencialmente mais satisfatório usando os mesmos ingredientes).

Há um trabalho realmente impressionante aqui, com Sarnoski demonstrando grande habilidade em transportar o espectador para a atmosfera local, aproveitando ao máximo os sons e texturas naturais do cenário – Belfast e seus arredores representando Cumbria (um personagem menciona Keswick como sendo próximo). Ele já provou ser um cineasta sensível, capaz de encontrar verdadeira humanidade tanto em um filme com Nicolas Cage (Pig) quanto em uma sequência de Um Lugar Silencioso (Um Lugar Silencioso: Dia Um) – mas ainda não conseguiu elevar o bom ao excelente, e a insegurança em relação ao tom, com o filme oscilando entre o épico e o intimista, faz dele mais uma tentativa valente, ainda que, em última análise, malsucedida. A grandeza certamente virá um dia.

A Morte de Robin Hood está em cartaz nos cinemas.

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Confira o trailer:

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