A Netflix Desistiu de comprar a Warner. E Agora?

A Netflix Desistiu de comprar a Warner. E Agora?

Os amantes do cinema exibido na tela grande podem respirar aliviados ou ainda é cedo para cantar vitória?

A Netflix desistiu hoje da compra da Warner e a minha primeira reação foi de alívio: “Ótimo, a lógica implacável do algoritmo não vai engolir a HBO“, eu pensei.

Só que o alívio durou pouco.

Porque, pensando bem, o que aconteceu hoje não foi uma vitória do cinema. Foi uma troca de ameaça.

Há poucos meses, eu escrevi aqui sobre o perigo real da compra da Warner pela Netflix. O argumento era simples: uma plataforma orientada por dados e métricas em tempo real absorvendo um estúdio orientado por prestígio, competição criativa e risco calculado seria, no longo prazo, uma derrota cultural estrondosa.

A Netflix saiu. A Paramount entrou. E muita gente está comemorando.

Mas comemorar a vitória da Paramount é algo que merece, no mínimo, um segundo olhar.

O TAMANHO DO QUE ESTÁ SENDO CONSTRUÍDO

David Ellison, filho de Larry Ellison — fundador da Oracle e um dos homens mais ricos do mundo — acabou de vencer uma disputa de US$ 111 bilhões.

Isso inclui as aquisições de: Warner, HBO, CNN, TNT, TBS, Cartoon Network, Discovery, HGTV, Animal Planet.

Isso somado ao que a Paramount já controlava: CBS, Comedy Central, MTV, Nickelodeon e Paramount+.

Ou seja, estaremos diante de um império de mídia de uma escala que não víamos desde o apogeu dos grandes estúdios do século XX.

Surge um império de mídia bastante endividado.


E esse império nasce carregando uma dívida de US$ 57,5 bilhões.

Quando uma empresa carrega esse nível de endividamento, a primeira coisa que desaparece é a tolerância ao risco. E autonomia criativa, na prática, é sempre sinônimo de risco.

A PERGUNTA QUE PRECISAMOS FAZER

Tem uma dimensão nessa história que o noticiário está evitando com um cuidado suspeito: a política.

Larry Ellison financiou Trump. David Ellison cultivou relações próximas com o universo político de Washington.

E a Netflix foi publicamente atacada pelo próprio Trump nos meses que antecederam a desistência, numa pressão que parece ter inclinado a balança regulatória a favor da Paramount.

Será o fim da independência editorial da CNN?


Uma fusão que se concretiza porque o CEO tem o número certo em seu celular é uma fusão que, desde o primeiro dia, fica devendo favores políticos.

E a Warner agora carrega junto a CNN.

Então a pergunta que vale ser feita é: será o fim da independência editorial da CNN? Jornalismo e favores políticos não costumam conviver bem.

E a CNN ainda é uma das principais referências de informação em língua inglesa no mundo.


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O QUE A desistência DA NETFLIX de fato REVELA

Aqui está o dado mais revelador de toda essa história, e que passou quase despercebido: a Netflix saiu da disputa dizendo que a Warner era "nice to have, not must have" (algo como "desejável, mas não essencial").

A Netflix não parecia desesperada. Ela não precisava da Warner para sobreviver, crescer ou dominar. O verdadeiro poder de mercado da Netflix já está consolidado muito antes disso. Ela não precisa comprar estúdios para ditar as regras do jogo. Ela já dita.

A ameaça que eu descrevi no artigo anterior — a lógica do algoritmo engolindo o DNA criativo da Warner — não se materializou da forma que eu temia. E isso, de certa forma, é ainda mais assustador.

Netflix: "A Warner era desejável, mas não essencial."


O NOVO Bicho Papão E A VELHA LÓGICA

Voltemos à questão central: nós, como espectadores, amantes de cinema, ganhamos ou perdemos com isso?

No curto prazo, e no cenário específico que eu descrevi antes, talvez tenhamos ganhado.

Talvez.

Aquele diretor que bate numa sala com uma ideia impossível talvez tenha mais chances dentro de um estúdio de cinema tradicional do que dentro de uma plataforma de streaming. A lógica da concorrência entre estúdios ainda força, em alguma medida, o risco criativo.

Para brigar com alguém, você precisa se diferenciar.

Mas aqui está o problema: antes, eram a Warner, a Paramount, a Universal, a Disney, a Sony brigando entre si. A partir de agora, surge um grande conglomerado.

A Warner que bancou Blade Runner 2049 porque precisava de prestígio diante da Universal. Que bancou Coringa porque precisava se diferenciar da Disney. Que bancou Duna porque precisava mostrar musculatura. Essa Warner vai continuar existindo? Ou vai passar a existir para pagar dívida?

Ninguém sabe. E esse é exatamente o problema.

O PERIGO QUE NÃO TEM NOME

No artigo anterior, eu disse que o maior perigo da compra da Netflix era cultural: você não percebe enquanto acontece, porque ninguém sente falta dos filmes que nunca foram feitos.

O novo perigo tem a mesma característica. Ele não vai chegar como um anúncio oficial, mas como uma série cancelada sem explicação, um projeto na gaveta porque "não é o momento", um diretor que ouviu "amamos o roteiro, mas não agora" pela quinta vez seguida.

Como uma empresa com dívida de US$ 57,5 bilhões pode ter qualquer liberdade para arriscar?


E enquanto isso, a dívida vai sendo paga. Os acionistas vão ficando satisfeitos. E filmes vão sendo feitos. Só que cada vez menos os que precisam existir, e cada vez mais os que precisam faturar.

ENTÃO, O QUE MUDOU?

Evitamos o perigo que eu descrevi. Isso é real, e merece ser dito com clareza.

Muita gente vai comemorar a Paramount como se ela fosse uma alternativa. Mas será que ela é uma boa alternativa?

E o fato de essa compra gerar comemoração revela algo sobre nós, não sobre a Paramount. Revela que baixamos tanto a barra do que podemos esperar da indústria que qualquer coisa que não seja Netflix já nos parece uma vitória.

O verdadeiro problema não é quem comprou a Warner. É que chegamos num ponto em que torcer por um conglomerado endividado parece a opção mais saudável para o cinema.

E lembre-se: toda essa disputa aconteceu sem que nenhum diretor, nenhum roteirista, nenhum espectador fosse ouvido ou tivesse qualquer voz.

O futuro do cinema, uma das artes mais coletivas que existem, está sendo moldado por um micro-grupo de homens extremamente ricos cujo critério central não é, sejamos honestos, a autonomia criativa.

Você sabe muito bem qual é.

Muito além da história

O cinema comunica muito mais do que parece; e é normal não perceber tudo da primeira vez que você vê um filme. Mas caso queira compreender melhor as escolhas por trás de cada cena, eu te convido a assistir à primeira aula do curso 'Uma Luz no Fim do Filme' e treinar seu olhar para enxergar o que os diretores comunicam sem dizer. A aula é grátis, assista aqui. 🎬

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