Como o novo filme de Zach Cregger usa a linguagem do cinema para transformar o terror em experiência sensível
Há algo perturbador na imagem de crianças correndo no meio da madrugada. Não a correria comum da infância, cheia de risos e liberdade, mas uma corrida estranhamente quieta, os braços esticados como asas de avião, os corpos rígidos atravessando a escuridão de um subúrbio americano.
São exatamente 2h17 da manhã quando 17 crianças deixam suas camas, passam correndo pelas salas de estar, abrem as portas da frente de suas casas e desaparecem. Todas pertencem à mesma turma da escola. Apenas uma — Alex Lilly — permanece. Este é o ponto de partida de A Hora do Mal (Weapons, 2025), segundo filme de Zach Cregger, que chega cercado de expectativa após o sucesso de Noites Brutais e se consolida como uma experiência cinematográfica que recusa as facilidades narrativas do terror.
Com 93% de aprovação no Rotten Tomatoes, nota 81 no Metacritic e uma arrecadação que alcançou 270 milhões de dólares contra um orçamento de “apenas” 38 milhões, o filme não apenas confirma Cregger como um nome essencial do horror atual, mas demonstra que o público está ansiando por narrativas que confiam em sua inteligência.
A trajetória de Cregger até este momento é, em si, reveladora. Vindo da comédia — foi membro do grupo The Whitest Kids U’ Know —, o cineasta carrega uma compreensão aguda do timing narrativo e da construção de tensão através do inesperado.
Noites Brutais já havia demonstrado sua habilidade em subverter expectativas, mas A Hora do Mal opera em escala mais ambiciosa. Inspirado declaradamente em Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson, Prisioneiros (2013), de Denis Villeneuve, e no romance A Visit from the Goon Squad, de Jennifer Egan, Cregger constrói um filme que funciona como teia — múltiplas histórias que se entrelaçam, se repetem sob perspectivas distintas, revelam novas camadas a cada iteração.
A ESTRUTURA CORAL COMO MÉTODO
A estrutura coral, ou em mosaico, não é mero artifício estilístico: ela é o próprio método pelo qual o filme explora como uma comunidade se desintegra diante do intangível. O roteiro, escrito após a morte de um amigo próximo, traz uma urgência emocional que transcende o exercício formal. Há algo de pessoal neste filme sobre perda, sobre o que nos resta quando não há explicações suficientes.
A precisão formal de A Hora do Mal se revela desde os primeiros minutos. A voz de uma criança não identificada nos introduz à história com a cadência de uma lenda urbana — aquele tom que reconhecemos das histórias contadas ao redor de fogueiras, onde o medo nasce não do que é mostrado, mas do que é sugerido.

A fotografia de Larkin Seiple trabalha com uma paleta dessaturada que transforma Maybrook, Pensilvânia, em território ambíguo: familiar o suficiente para reconhecermos, mas levemente deslocado para nos deixar em alerta. Os movimentos de câmera exploram constantemente novos ângulos dentro de ambientes que julgávamos conhecer, criando a sensação de que há sempre algo escondido na periferia do quadro.
Quando o filme se divide em capítulos — seguindo Justine Gandy (Julia Garner), a professora sob suspeita; Archer Graff (Josh Brolin), pai de uma das crianças desaparecidas; Paul Morgan (Alden Ehrenreich), policial problemático; James (Austin Abrams), jovem viciado; e Marcus Miller (Benedict Wong), diretor da escola —, Cregger não está apenas organizando informações. Ele está nos mostrando como o mesmo evento pode existir de formas radicalmente diferentes dependendo de quem o vivencia.
A montagem de Joe Murphy, ao revisitar cenas sob nova luz, transforma o ato de assistir em uma experiência investigativa. Assim que o filme começa, os espectadores se tornam testemunhas tentando montar um quebra-cabeça cujas peças nunca se encaixam perfeitamente.
O MAL PRECISA DE UM ROSTO
O que torna A Hora do Mal genuinamente inquietante não é sua revelação sobrenatural no terceiro ato — embora a presença de Amy Madigan como a Tia Gladys seja perturbadora em um patamar que remete ao melhor do horror clássico.
O filme assusta porque entende que o terror pode estar impregnado na fragilidade dos laços sociais. Maybrook é uma comunidade onde todos se conhecem, mas ninguém realmente se vê. A suspeita recai imediatamente sobre Justine, não porque haja evidências, mas porque é mais fácil culpar alguém do que enfrentar a possibilidade de que o mal não tenha um rosto.
Garner constrói uma personagem de camadas fascinantes: uma mulher cuja luta contra o alcoolismo se intensifica sob o peso da acusação pública, mas que mantém uma determinação férrea em proteger o único aluno que restou. Quando ela segue Alex até sua casa e testemunha seus pais catatônicos, o filme atinge um dos seus momentos de maior eficácia: o horror cotidiano, escondido atrás de portas fechadas, esperando ser descoberto.
Brolin, por sua vez, dá a Archer uma desesperança palpável — um homem que busca padrões onde talvez não existam, que precisa acreditar que há lógica no desaparecimento de seu filho porque a alternativa é o abismo. A cena em que ele mapeia as direções que as crianças tomaram, tentando encontrar um ponto de convergência, é devastadora justamente porque sabemos que ele não encontrará respostas pelo método racional.
AS ALEGORIAS QUE MACHUCAM
O filme funciona como alegorias de múltiplos significados. A mais evidente, e talvez a mais dolorosa, é a referência aos massacres escolares que assombram os Estados Unidos. Brian Tallerico, do site RogerEbert.com, observou que a frase "Uma noite, dezessete pais colocaram seus filhos na cama pela última vez" poderia facilmente ser a abertura de uma reportagem sobre tragédias reais.
Mas Cregger não transforma essa realidade em espetáculo. O que ele faz é mais sutil: ele captura a atmosfera paranoica de uma sociedade onde escolas deixaram de ser espaços seguros, onde a violência pode irromper a qualquer momento sem aviso. A imagem alucinatória de um rifle semiautomático pairando sobre uma casa como fantasma não precisa de explicação — ela é a materialização visual do medo coletivo. Mas o filme vai além.
Ele examina como instituições falham em proteger os mais vulneráveis, como a desconfiança mútua substitui a solidariedade. O encontro entre Paul, o policial corrupto em recuperação, e James, o jovem dependente, exemplifica essa tensão: dois homens presos em ciclos autodestrutivos, incapazes de oferecer ajuda um ao outro porque suas próprias vidas estão desmoronando.

QUANDO O HORROR É SOCIAL E METAFÍSICO
O que A Hora do Mal propõe, em última instância, é uma recusa. Recusa a oferecer conforto, recusa a ideia de que compreender é superar. Quando o elemento sobrenatural finalmente se revela, ele não invalida tudo que veio antes — ele intensifica. A bruxa, a possessão, os rituais macabros: tudo isso existe no mesmo espaço que o alcoolismo de Justine, o luto de Archer, a corrupção de Paul.
O horror metafísico e o horror social não são excludentes; eles coexistem, alimentam-se mutuamente. É significativo que Amy Madigan — cuja presença remete ao campo progressista dos anos 80 — surja aqui como encarnação do mal ancestral.
Há uma ironia amarga nessa escolha de elenco: a atriz que enfrentou censores em Campo dos Sonhos agora interpreta a própria censura, a força que apaga crianças da existência. Sua performance, que lhe rendeu prêmios e indicações ao Globo de Ouro, não depende de exageros. Ela é terrível porque parece absurdamente comum — até que deixa de ser.
Há no filme uma tensão produtiva entre humor e pavor. Cregger entende que risadas nervosas não quebram a tensão; elas a amplificam. Quando personagens reagem com um "que diabos?" diante do absurdo, eles se tornam mais humanos, mais reconhecíveis. Não são peões em um tabuleiro de horror; são pessoas tentando processar o impossível com as ferramentas limitadas de que dispõem.

O HORROR COMO CRÍTICA SOCIAL
O que permanece, dias após assistir A Hora do Mal, não são os sustos pontuais — embora existam, e sejam eficazes. O que fica é a imagem das crianças correndo, aquela postura antinatural, aqueles corpos controlados por vontade alheia. Fica a sensação de que Maybrook poderia ser qualquer lugar, que aquelas pessoas poderiam ser nossos vizinhos, que a desintegração social é um processo lento até que, de repente, não é.
Fica a pergunta sobre o que fazemos quando as instituições falham, quando a comunidade se volta contra si mesma, quando não há vilão claro para culpar. O filme oferece respostas parciais. Ele sugere que há forças — algumas sobrenaturais, outras tristemente humanas — que operam além de nossa capacidade de contenção. Mas não nos dá o conforto de uma solução. A cidade não será curada. As crianças não voltarão as mesmas. O mal, uma vez revelado, não pode ser simplesmente varrido para debaixo do tapete.
Cregger está trabalhando dentro de uma tradição rica: o horror como crítica social, o terror como espelho distorcido da realidade. Dos filmes de George Romero aos de Jordan Peele, o gênero sempre foi um dos espaços mais férteis para examinar ansiedades culturais.
O que diferencia A Hora do Mal é que o diretor confia que, se criar a atmosfera certa, se construir personagens com densidade suficiente, se permitir que a linguagem cinematográfica respire, as camadas de significado emergirão naturalmente.
O sucesso comercial do filme sugere que há público para esse tipo de abordagem. Numa época em que muito do cinema mainstream teme subestimar a inteligência do espectador, quando filmes começam a explicar cada escolha, cada símbolo, cada gesto, A Hora do Mal ousa deixar espaços para reflexão.
A decisão de alguns cinemas de abrir sessões especificamente às 2h17 da tarde — o mesmo horário em que as crianças desaparecem no filme — demonstra como a experiência transcendeu a tela. Virou conversa, virou marketing, virou debate. É o tipo de ressonância cultural que não pode ser fabricada.
O DESCONFORTO DE SE RECONHECER NA HISTÓRIA
Ver A Hora do Mal é aceitar um convite para o desconforto. É reconhecer que nem toda história precisa terminar com a restauração da ordem. Algumas histórias existem para nos lembrar que a paz sempre foi mais frágil do que admitimos. Que por baixo da superfície tranquila de qualquer comunidade há tensões esperando para romper. O filme não nos diz o que pensar sobre Maybrook, sobre as crianças, sobre os adultos que falham em protegê-las. Ele nos mostra uma cidade em colapso e confia que faremos as conexões necessárias com nosso próprio mundo.
A Hora do Mal está disponível na HBO Max. Confira o trailer:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
