A premiação mais badalada do cinema reconhece os melhores filmes ou apenas um tipo de filme?
Eu tenho uma teoria. E ela não vai agradar quem ainda acredita que o Oscar premia mérito puro.
Hoje eu quero mostrar que existe sim uma fórmula. E quando você entende isso, o Oscar deixa de ser um evento sobre “o melhor filme do ano” e passa a ser uma premiação para quem jogou melhor o jogo ao longo do ano.
o roteiro do sucesso
Se você olhar para os últimos 20 anos de vencedores na categoria Melhor Filme, um padrão salta aos olhos: a Academia não premia necessariamente os melhores filmes, ela premia filmes que parecem importantes.
O Oscar só premia filmes que parecem importantes?
Pense em 2024: Oppenheimer. Biografia de gênio atormentado, fotografia impressionante, tema “pesado” (bomba atômica), mais de três horas de duração. Todos os “critérios de importância” preenchidos.
2023: Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. Aparente exceção, certo? Mas não, repare nos temas: imigração, relação mãe-filha, identidade, representatividade asiática. Temas “relevantes” embalados em originalidade contemporânea.
2020: Nomadland. Drama contemplativo sobre marginalização econômica na América pós-crise. Dirigido por mulher asiática. De novo: critérios preenchidos com sucesso.
Não estou dizendo que esses filmes são ruins, longe disso. Mas não dá pra negar que eles seguem, sim, um roteiro oculto que a Academia quase sempre reconhece e recompensa.
OS FILMES QUE mereciam (MAS NÃO GANHARAM)
Vamos falar agora dos filmes que foram objetivamente melhores que os vencedores, mas perderam porque não seguiram a fórmula à risca.
2017: Moonlight ganhou, mas todo mundo esperava La La Land. Por quê? Porque La La Land era "sobre Hollywood", a Academia ama se ver no espelho. Moonlight só ganhou porque o tema (masculinidade negra, sexualidade, pobreza) pesou mais no último minuto. Foi quase um empate técnico.
2014: Birdman ganhou. Boyhood perdeu. Boyhood foi filmado ao longo de 12 anos, um feito cinematográfico sem precedentes. Mas Birdman era sobre um ator decadente tentando voltar. De novo, Hollywood se olhando no espelho.
2010: O Discurso do Rei ganhou. A Rede Social perdeu. A Rede Social era o filme da década, capturando perfeitamente o zeitgeist do mundo digital. Mas era jovem demais, moderno demais, desconfortável demais. O Discurso do Rei? Biografia britânica, figurinos impecáveis, história de superação. Fórmula clássica.
1994: Forrest Gump ganhou. Pulp Fiction perdeu. Não preciso nem explicar o absurdo disso.
Filmes que incomodam costumam não sair vencedores.
Percebe o padrão? Filmes que desafiam, que incomodam, que arriscam... esses ficam de fora. Filmes que confortam a Academia, que fazem menção à sua própria relevância levam a estatueta.
OS INGREDIENTES DA RECEITA
Então, qual é a receita? Baseado em décadas de premiações, aqui estão os ingredientes que aumentam drasticamente as chances de um filme levar a estatueta mais cobiçada:
Originalidade não está na receita do Oscar?
1. Tema "importante": Guerra, biografia, injustiça social, trauma histórico. Quanto mais "sério", melhor.
2. Protagonista em jornada de redenção ou superação: A Academia ama arcos de transformação. Personagens estáticos não vencem.
3. Duração acima de 2h15: Filmes curtos parecem "leves". Épicos longos parecem "substanciais".
4. Fotografia cinematográfica clássica: Planos bonitos, enquadramentos simétricos, luz "artística". Nada de estética documental ou experimental demais.
5. Atuações "de Oscar": Choro, grito, transformação física, sotaque. Quanto mais óbvio o esforço, mais pontos.
6. Narrativa em torno do filme: "Foi difícil de fazer", "levou 10 anos", "ator se dedicou intensamente". A Academia ama um esforço monumental.
Não precisa de todos esses elementos, é claro, mas quanto mais o filme tiver, maior a chance dele.
E o mais revelador: originalidade não está na lista. Arrisco dizer que originalidade até atrapalha.
a "aura de sucesso"
Mas existe outro fator que a fórmula sozinha não explica: a aura de sucesso.
O Oscar tem um fenômeno curioso: ele premia filmes que já chegam à temporada de premiações com uma narrativa vitoriosa construída. É quase uma profecia autorrealizável.
Funciona assim: um filme estreia em festival importante (Cannes, Veneza, Toronto). Recebe críticas entusiasmadas. Críticos começam a dizer "esse é o favorito ao Oscar". Outros críticos repetem. A imprensa compra a narrativa. O estúdio investe pesado na campanha de "filme do ano".
O Oscar premia quem já parece destinado a vencer.
E quando chega a votação? A Academia vota no filme que já parece destinado a vencer.
Exemplo concreto: Green Book em 2019. Filme tecnicamente competente, mas nada excepcional. Ganhou porque construiu momentum — foi "o filme do momento", "o feel-good movie que a América precisava". A narrativa se alimentou sozinha.
https://cinemaguiado.com.br/tag/netflix/Enquanto isso, Roma de Cuarón — objetivamente mais ambicioso, mais arriscado, mais cinematográfico, perdeu. Por quê? Porque era da Netflix, porque era preto e branco, falado em espanhol, não tinha a "aura".
Outro exemplo: Spotlight em 2016. Bom filme, jornalismo investigativo sólido. Mas melhor que Mad Max: Fury Road ou O Regresso? De jeito nenhum! Ganhou porque tinha o timing certo, a narrativa certa ("jornalismo importa"), a campanha certa.
O que estou dizendo é: muitas vezes, o Oscar não premia o melhor filme, premia o filme que convenceu todo mundo de que merecia ganhar.
É uma diferença sutil, mas revela algo importante: o Oscar responde menos à qualidade do filme e mais à percepção coletiva de sua relevância.
Por que isso acontece?
A pergunta que fica é: por que a Academia funciona assim?
A resposta é menos conspiratória do que parece. A Academia não é um grupo de vilões tentando sabotar o cinema. São mais de 10 mil membros votantes da Academia, ou seja, profissionais da indústria, muitos deles com anos de estrada, décadas de carreira.
E como qualquer grupo grande e conservador, eles gravitam em direção ao seguro.
Premiar Pulp Fiction em 1994 seria dizer "o futuro do cinema é esse aqui: fragmentado, violento, irônico". Premiar Forrest Gump foi dizer "ainda acreditamos nos valores tradicionais da narrativa".
Premiar A Rede Social em 2010 seria reconhecer que o cinema precisa falar a linguagem da internet. Premiar O Discurso do Rei foi dizer "preferimos a elegância do passado".
O Oscar não premia o melhor filme. Ele premia o filme que a indústria deseja que seja o melhor. É uma diferença sutil, mas essencial.
O PERIGO DA FÓRMULA
E aqui está o problema real: quando existe uma fórmula, todo mundo começa a segui-la.
Diretores fazem filmes "para o Oscar". Estúdios investem em "Oscar Bait", a famosa isca do Oscar, produções desenhadas especificamente para ganhar prêmios, não para inovar.
O resultado? Um ciclo vicioso onde o cinema que deveria estar empurrando fronteiras está, na verdade, se moldando a um padrão cada vez mais estreito.
Pensa nos últimos vencedores: quantos deles você revê? Quantos entraram no seu imaginário permanente? Quantos mudaram como você vê cinema?
Compare com filmes que perderam ou nem foram indicados. Esses são os filmes que vão resistir ao tempo. Mas não seguiram a fórmula.
E o mais triste: quando o Oscar ignora esses filmes, ele manda uma mensagem para a indústria: "Não façam isso. Façam o que já sabemos que funciona."
mas alguém ainda liga para o OSCAR?
A pergunta que fica é: se o Oscar segue uma fórmula tão previsível, ele ainda importa? Sim e não.
Sim, porque o Oscar ainda tem poder real: dá visibilidade, abre portas para diretores, atores e produtores, mantém filmes em cartaz por mais tempo.
Não, porque ele deixou de ser referência de qualidade cinematográfica. Ganhar o Oscar virou mais sobre jogar o jogo da indústria do que sobre fazer grande cinema.
E para quem ama cinema de verdade, para quem quer ser surpreendido, desafiado, transformado, a verdade é que o Oscar se tornou cada vez mais irrelevante. Não porque os filmes premiados são ruins, mas porque eles raramente são os melhores. São apenas os que melhor se encaixam na fórmula.
Afinal, o Oscar não premia o melhor filme do ano, ele reconhece produções que já vêm embaladas com uma "aura de sucesso", algo quase autojustificativo. E enquanto existir essa fórmula nos bastidores, vamos continuar vendo grandes obras sendo ignoradas em favor de produções "importantes" que costumam envelhecer mal.
Então, sim: existe uma receita para ganhar o Oscar, mas a pergunta-chave aqui não é "como ganhar", e sim: "vale a pena entrar nesse jogo?"
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Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
