Filme recupera a tradição do cinema policial clássico e transforma uma relação de décadas em combustível dramático de primeira ordem
O cinema policial americano tem uma obsessão saudável com dinheiro sujo. Não é o dinheiro em si que fascina — são as rachaduras que ele abre nas pessoas aparentemente íntegras.
Em Serpico, Frank (Al Pacino) lutava contra um sistema apodrecido por dentro. Em O Príncipe da Cidade, Daniel Ciello (Treat Williams) descobria que a corrupção era o próprio tecido da instituição.
Agora, Dinheiro Suspeito (cujo título original é “The Rip”, gíria policial usada em Miami para descrever o confisco de bens) chegou à Netflix com uma pergunta incômoda: o que acontece quando 20 milhões de dólares são descobertos por homens que dedicaram a vida a combater crimes?
A resposta de Joe Carnahan é claustrofóbica, nervosa e tradicional. E isso é um elogio.
O filme reúne Matt Damon e Ben Affleck como parceiros policiais na unidade tática de narcóticos de Miami. O tenente Dane Dumars (Damon) é o estrategista, um homem devastado pelo luto da morte do filho e pelo colapso do casamento. Seu parceiro, o sargento-detetive J.D. Byrne (Affleck), funciona como o músculo emocional da dupla — impulsivo, direto, carregando a própria raiva pela morte de sua namorada e ex-capitã da força.
Uma operação de rotina os leva a um esconderijo de um cartel onde encontram algo que ninguém esperava: 20 milhões de dólares escondidos nas paredes do sótão.
A lei é clara: o dinheiro precisa ser contado ali mesmo, no local da apreensão. Essa exigência burocrática se torna a armadilha perfeita. Enquanto a equipe está presa contando cédula por cédula, forças externas — federais, cartéis, policiais de outros departamentos — começam a cercar o perímetro. E dentro da casa, a paranoia transforma colegas em suspeitos.

Carnahan é um cineasta que construiu sua reputação em um cinema masculino, violento, direto. Narc (2002) foi seu cartão de visitas, um thriller policial que tratava a corrupção institucional como doença crônica. A Perseguição (2011), com Liam Neeson, provou sua capacidade de construir tensão em espaços hostis. Dinheiro Suspeito representa um retorno às obsessões de sua filmografia: homens em crise, instituições falidas e violência como linguagem de sobrevivência.
O roteiro nasceu de uma fonte improvável: as memórias de Chris Casiano, ex-chefe da divisão tática de narcóticos de Miami e amigo pessoal de Carnahan. Casiano relatou operações reais onde sua equipe encontrou quantias absurdas de dinheiro em esconderijos.
Essa raiz documental importa porque Miami tem uma história particularmente sombria com a corrupção policial. Nos anos 1980, o escândalo dos “River Cops” revelou um esquema onde policiais não apenas roubavam dinheiro e cocaína de traficantes, mas participaram do afogamento de três pessoas durante uma apreensão.
Cerca de cem oficiais foram suspensos ou demitidos. Sentenças médias de 23 anos foram aplicadas. A cidade que serviu de cenário para “Miami Vice” era, na vida real, um laboratório de tudo o que a série fingia combater.
Carnahan não reconstitui esses eventos. Ele faz algo mais astuto: usa o clima histórico como atmosfera, não como enredo. O resultado é um filme que soa verdadeiro sem precisar apelar para a cartela “baseado em fatos reais”.
A grande aposta do longa, porém, está fora do roteiro. Está na química entre dois homens que se conhecem desde os oito anos de idade em Cambridge, Massachusetts. Damon e Affleck cresceram juntos, dividiram conta bancária para pagar viagens de ônibus até Nova York, escreveram Gênio Indomável no apartamento de Los Angeles onde moravam como jovens desconhecidos.
Ganharam o Oscar de Roteiro Original em 1998, quando eram dois garotos de Boston que haviam furado a bolha de Hollywood com talento bruto e desespero calculado.
Desde então, evitaram trabalhar juntos como protagonistas. Aparições em filmes de Kevin Smith, uma participação ou outra aqui e ali, mas projetos onde ambos carregassem o peso dramático central eram raros. O Último Duelo (2021) e Air - A História Por Trás do Logo (2023) marcaram uma reconciliação. Dinheiro Suspeito foi o próximo passo lógico — e Carnahan teve a inteligência de explorar essa dinâmica sem explicá-la.
O elenco de coadjuvantes sustenta bem a estrutura coral: Steven Yeun como o detetive Mike Ro, Teyana Taylor (recém-premiada com o Globo de Ouro por Uma Batalha Após a Outra) como a detetive Numa Baptiste, Catalina Sandino Moreno como Lolo Salazar, Sasha Calle em papel ambíguo como Desi, e Kyle Chandler como um agente da DEA cuja presença só aumenta o campo de suspeitas.
Cada personagem representa uma resposta diferente à tentação do dinheiro fácil — e Carnahan distribui essas respostas sem julgamento moral.
A recepção crítica confirma que a aposta funcionou. O filme alcançou 84% de aprovação no Rotten Tomatoes, com base em 57 análises. Críticos elogiaram especialmente a química entre Damon e Affleck e a capacidade do filme de ser envolvente mesmo recorrendo a convenções do gênero.
O consenso parece ser que Dinheiro Suspeito não reinventa nada, mas executa com competência um tipo de cinema que Hollywood abandonou em favor de franquias e universos expandidos.
É precisamente essa modéstia de ambição que faz o filme funcionar. Carnahan citou abertamente Serpico, O Príncipe da Cidade e Fogo Contra Fogo como influências. São filmes onde a ação existe para revelar caráter. Onde tiroteios são consequências de decisões erradas, não espetáculos gratuitos.

Dinheiro Suspeito não será lembrado como uma obra-prima. Não precisa ser. É um filme de gênero sólido, bem executado, com dois astros que se divertem em cena. É o tipo de produção que, há vinte anos, estrearia nos cinemas e dominaria o fim de semana de abertura. Hoje, chega direto ao streaming, onde provavelmente será consumido entre um episódio de série e outro.
Mas para quem sente falta de um bom thriller policial adulto, Dinheiro Suspeito é um lembrete bem-vindo de que o cinema de gênero ainda tem pulso. Só precisa de cineastas dispostos a confiar no básico: personagens complexos, dilemas morais e a coragem de não explicar demais.
Matt Damon e Ben Affleck começaram juntos, em 1989, como figurantes em Campo dos Sonhos. Quase quatro décadas depois, estão no centro da tela, carregando um filme inteiro nos ombros.
A jornada, em si, já é uma história que vale ser contada. Dinheiro Suspeito é apenas o capítulo mais recente, e funciona melhor quando entendemos que a amizade na tela é espelho de uma longa amizade fora dela.
O filme está disponível na Netflix.
Confira o trailer oficial do filme:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
