‘Hamnet: A Vida Antes de Hamlet‘ estreia hoje provando que o luto pode ser matéria-prima para a arte.
Existe um buraco no centro da biografia de William Shakespeare. Um silêncio de quatro séculos. Em 11 de agosto de 1596, um menino de onze anos foi enterrado em Stratford-upon-Avon. Seu nome era Hamnet. Quatro anos depois, seu pai escreveria a peça mais estudada da língua inglesa, sobre um príncipe assombrado pelo fantasma do pai morto. A inversão é óbvia demais para ser coincidência.
Esse vazio é o território de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que estreia hoje nos cinemas brasileiros após uma campanha de premiações que já inclui dois Globos de Ouro — Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz para Jessie Buckley.
Dirigido por Chloé Zhao, o filme adapta o romance homônimo de Maggie O’Farrell e transforma especulação biográfica em experiência visceral. Não é um filme sobre Shakespeare. É um filme sobre o que acontece quando a dor encontra uma forma de existir fora do corpo.
A estratégia de Zhao é declarada desde o primeiro enquadramento. Agnes — a esposa de Shakespeare, chamada Anne nos livros de história — aparece encolhida na base de uma árvore, como se as raízes a abraçassem.
Jessie Buckley empresta ao papel uma qualidade quase selvagem: Agnes é uma mulher que entende a linguagem das plantas e dos pássaros, que carrega um falcão no braço e uma intuição que beira o sobrenatural. Quando conhece o jovem tutor de latim que viria a ser o maior dramaturgo da língua inglesa, ela enxerga algo que ninguém mais consegue ver.
Paul Mescal, por sua vez, continua sua busca obsessiva pelos personagens mais tristes do cinema contemporâneo. Seu William é um sujeito inquieto, dividido entre a vocação artística e as dívidas do pai, entre o chamado de Londres e a família que deixou em Stratford.
Quando a tragédia chega — e ela chega com a brutalidade da peste bubônica —, marido e mulher processam o luto em frequências opostas. Agnes desmorona para fora. William implode para dentro, canalizando a dor para algo que possa ser lido, encenado, aplaudido.

A maior peça de teatro da história como nota de rodapé
A história de Hamnet Shakespeare cabe em três linhas de registro paroquial. Batizado em 2 de fevereiro de 1585, gêmeo de Judith, enterrado em 11 de agosto de 1596. Não sabemos do que morreu. Não sabemos se o pai chegou a tempo para o funeral — naquela época, a notícia levaria pelo menos dois dias para alcançar Londres, e enterros aconteciam com urgência. O que sabemos é que, poucos anos depois, Shakespeare escreveu Hamlet, uma peça sobre um filho que lamenta o pai morto.
A inversão é eloquente. Os nomes Hamnet e Hamlet eram intercambiáveis na Inglaterra elisabetana; a grafia variava conforme o humor do escrivão. Estudiosos debatem há séculos se a tragédia pessoal de Shakespeare influenciou sua tragédia artística. O historiador Stephen Greenblatt, um dos maiores especialistas vivos do Bardo, defende que a perda do filho reverbera por toda a obra posterior — de Noite de Reis, com seus gêmeos separados, a Rei Lear, com sua meditação sobre paternidade e devastação.
Maggie O’Farrell construiu seu romance sobre essa lacuna documental. Ela não pretendia escrever uma biografia; pretendia preencher um vazio emocional. Em entrevistas, a autora irlandesa explicou que sempre se sentiu incomodada com o tratamento dado a Hamnet nas biografias de Shakespeare — uma nota de rodapé na vida do gênio. Seu livro desloca o foco para Agnes, a mulher que ficou, que criou os filhos sozinha enquanto o marido perseguia a glória em Londres. A adaptação de Zhao mantém essa perspectiva, ampliando-a com uma linguagem visual que deve muito a Terrence Malick.

chloé zhao entrega seu melhor filme
Chloé Zhao não é uma escolha óbvia para este material. A diretora de origem chinesa construiu sua reputação filmando paisagens americanas com não-atores, capturando uma poesia do cotidiano que lhe rendeu o Oscar de Melhor Direção por Nomadland em 2021 — tornando-se a primeira mulher oriental a vencer a categoria. Entre Nomadland e Hamnet, ela fez Eternos, a incursão mais autoral já tentada no Universo Marvel, que dividiu críticos mas confirmou sua capacidade de operar em escalas distintas.
Hamnet representa um retorno às origens — um filme de câmera próxima, silêncios longos e atuações que substituem diálogo por expressão. Zhao coescreveu o roteiro com O’Farrell e também assinou a montagem, controlando cada aspecto da narrativa.
O diretor de fotografia Łukasz Żal, conhecido por Ida e Guerra Fria, empresta ao filme uma textura quase táctil: a Inglaterra do século XVI parece cheirar a terra molhada e fumaça de lenha.
O compositor Max Richter, cujo tema “On the Nature of Daylight” já foi usado em dezenas de filmes sobre perda, contribui com uma trilha que alguns críticos consideraram previsível — mas que funciona precisamente porque reconhece o clichê e o transcende.
A decisão mais radical de Zhao é estrutural. O filme dedica sua primeira metade ao romance entre Agnes e William, acumulando felicidade com a paciência de quem sabe que ela será destruída. Quando a tragédia chega, o público já investiu tempo suficiente para sentir o golpe.
Alguns críticos reclamaram do desequilíbrio — o menino Hamnet, interpretado com notável maturidade pelo jovem Jacobi Jupe, aparece menos do que seu nome no título sugere. Mas a escolha é coerente com a tese do filme: não importa quanto tempo passamos com alguém, a perda ocupa o mesmo espaço.
filme vem recebendo 'aclamação universal'
A recepção crítica tem sido esmagadoramente positiva. No Rotten Tomatoes, 86% de aprovação, com 234 críticas favoráveis. O Metacritic, mais criterioso, registra média de 84 — "aclamação universal". Bilge Ebiri, da Vulture, chamou o filme de "devastador, talvez o mais emocionalmente destruidor que vi em anos". David Fear, da Rolling Stone, escreveu que "as pessoas falarão da atuação de Jessie Buckley por anos". Peter Debruge, da Variety, descreveu a experiência como "tão emocionalmente crua que chega a ser excruciante".
Nem todos concordam. Christy Lemire, do site RogerEbert.com, criticou o que chamou de "histrionismo demonstrativo", argumentando que a representação do luto é exagerada a ponto de distanciar o espectador. É uma ressalva justa — Hamnet não é um filme contido. Zhao aposta em catarse, não em elegância. Para alguns, a abordagem funcionará como terapia coletiva. Para outros, pode soar como manipulação.
O que ninguém contesta é a atuação de Buckley. A atriz irlandesa, indicada ao Oscar por A Filha Perdida e conhecida por papéis em Estou Pensando em Acabar com Tudo e Entre Mulheres, entrega aqui o trabalho que pode definir sua carreira. Ela transita entre estados emocionais com uma fluidez que parece menos técnica que instintiva — a fúria, a ternura, o desespero, a aceitação impossível. Quando, no clímax do filme, Agnes finalmente assiste à estreia de Hamlet e compreende o que o marido fez com a dor deles, Buckley transmite em silêncio o que palavras não poderiam jamais dizer.

Favorito ao Oscar de Melhor Filme
A trajetória de Hamnet nas premiações tem sido impressionante. O filme estreou no Festival de Telluride em agosto de 2025, onde foi imediatamente apontado como favorito ao Oscar. No Festival de Toronto, conquistou o People's Choice Award — um prêmio que, desde 2009, tem sido um dos indicadores mais confiáveis de sucesso no Oscar. Quinze dos últimos dezessete vencedores receberam indicação a Melhor Filme; cinco deles levaram a estatueta. Zhao tornou-se a primeira cineasta a vencer o prêmio do público em Toronto duas vezes, repetindo o feito de Nomadland.
No Globo de Ouro, realizado há poucos dias, Hamnet venceu as categorias de Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz em Filme de Drama. A vitória sobre Pecadores, de Ryan Coogler, e O Agente Secreto, produção brasileira de Walter Salles estrelada por Wagner Moura, foi considerada uma surpresa por parte da imprensa.
As indicações ao Oscar serão anunciadas em 22 de janeiro. Hamnet é cotado para disputar Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante (para Mescal, que aparece em menos cenas que Buckley), Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora Original. Se vencer a principal categoria, será a primeira vez que um filme da Focus Features leva o prêmio máximo da Academia.
Estreia em boa hora
O lançamento brasileiro chega em momento estratégico. A data original era 29 de janeiro, mas a distribuidora Universal Pictures antecipou para 15 de janeiro — provavelmente para capitalizar com a repercussão do Globo de Ouro e posicionar o filme durante o período de votação do Oscar.
O título brasileiro, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, explicita uma conexão que o original deixava implícita. É uma escolha de marketing compreensível: Shakespeare vende ingressos, mesmo quando aparece de costas. Mas o subtítulo pode criar expectativas equivocadas. Quem for ao cinema esperando um drama sobre a criação de Hamlet encontrará outra coisa.
Vivemos uma era em que a exposição do trauma se tornou moeda cultural, em que a vulnerabilidade é performance e a dor vende livros. Hamnet não ignora essa tensão. O filme termina com Agnes assistindo à peça do marido e descobrindo que sua tragédia privada foi transformada em espetáculo público.

o que fazemos com a dor?
Existe uma cena em Hamnet que permanece após os créditos. William, coberto de tinta branca, interpreta o fantasma do pai de Hamlet no palco do Globe Theatre. Ele recita as falas que escreveu, sobre um filho que perdeu o pai. Mas sabemos o que ele está realmente dizendo — o que todo artista diz quando transforma perda em algum tipo de expressão artística. Que a arte não cura. Que a arte não compensa. Que a arte é apenas a única maneira que alguns encontram de continuar existindo.
É um filme sobre um menino que morre. Uma mãe que sobrevive. Um pai que escreve. E uma pergunta que atravessa quatro séculos: o que fazemos com a dor que não cabe em lugar nenhum?
Shakespeare respondeu escrevendo Hamlet. Maggie O'Farrell respondeu escrevendo Hamnet. Chloé Zhao respondeu filmando esta adaptação.
Agora a pergunta é sua: o que você faz com as perdas que não consegue nomear?
Confira o trailer oficial do filme:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
