Crítica | ‘Foi Apenas um Acidente’ investiga trauma coletivo da população iraniana

Como o cineasta iraniano Jafar Panahi transformou um trauma coletivo em um dos melhores filmes de 2025 com o excelente ‘Foi Apenas Um Acidente’.


Jafar Panahi passou sete meses numa prisão iraniana em 2022. Saiu de lá com material suficiente para construir um filme que discute o que a maioria dos ex-prisioneiros políticos discute: o que fazer quando você reencontra quem te torturou.

Foi Apenas um Acidente não é sobre atropelar alguém. É sobre sequestrar um homem porque você acha que reconheceu nele o torturador que te dilacerou anos atrás. E se a única evidência que você tiver for o som dos passos dele?

O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes este ano e foi feito clandestinamente, mesmo com Panahi temporariamente livre das restrições judiciais. Duas das atrizes trabalharam sem hijab em cenas externas, o que no Irã é crime.

Semanas depois da estreia internacional, Panahi foi condenado a mais um ano de prisão por “atividades de propaganda” contra o regime, que não perdoa quem insiste em fazer filmes sobre política.

A Estrutura do Erro

Vahid é um mecânico. Um dia, um cliente chamado Eghbal chega à oficina depois de atropelar um cachorro. Vahid ouve o rangido da perna protética do motorista e entra em colapso. Aquele som está gravado em sua memória desde sua prisão, quando foi interrogado de olhos vendados.

Ele então segue Eghbal e o sequestra. Então tranca o homem numa caixa de madeira e sai em busca de outras vítimas do suposto torturador para confirmar sua identidade.

O que se segue não é um thriller de vingança. Panahi reúne num furgão cinco ex-prisioneiros com posturas completamente diferentes sobre o que fazer: Shiva, a fotógrafa controlada; Golrokh, sua noiva e também ex-presa; Ali, o noivo que nunca foi torturado e representa a “minoria silenciosa” que prefere não se envolver; e Hamid, o mais explosivo do grupo, que defende violência sem hesitação. Cada um carrega uma cicatriz diferente e uma resposta ética diferente para a mesma pergunta: esse homem merece viver?

Panahi manipula as expectativas desde o início. A abertura do filme apresenta Eghbal como protagonista. Um pai de família, com a esposa grávida, um homem comum numa situação vulnerável pedindo ajuda na estrada à noite. Só depois descobrimos que ele pode ser um famoso torturador.

Essa inversão não é jogo de cena. É a aplicação cinematográfica da banalidade do mal: o carrasco também tem vida, também se preocupa com a família, também resolve problemas domésticos. Isso não o absolve de nada, mas complica qualquer tentativa de vingança.

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O Som Como Prova

A sonoplastia do filme funciona como tribunal. Cada rangido da perna protética é uma acusação. Cada pausa no diálogo carrega o peso de uma sentença que não chega. Panahi usa o som não como atmosfera, mas como evidência a única evidência que essas pessoas têm. E evidência auditiva é frágil. Pode ser memória distorcida pelo trauma. Pode ser coincidência. Pode ser projeção do desejo de encontrar um culpado tangível num sistema que pulverizou a responsabilidade.

O filme estrutura a investigação como um ritual. Os ex-prisioneiros não estão apenas tentando confirmar se Eghbal é o homem certo. Estão criando coragem para executar a vingança. Cada cena funciona como uma espécie de treino para o ato final, num crescendo que nunca explode completamente.

Panahi entende que a violência, quando praticada por quem foi violentado, não gera catarse — gera mais trauma.

Humor Como Resistência

Uma das escolhas mais inesperadas do filme é o humor. Não como alívio cômico, mas como consequência dos eventos. São situações absurdas que brotam do desespero: o noivo que precisa lidar com ensaio fotográfico de casamento enquanto há um homem sequestrado no porta-malas; a esposa de Eghbal entrando em trabalho de parto no pior momento possível; os mal-entendidos burocráticos com policiais corruptos que cobram propina por infrações inventadas.

Esse humor não ameniza o peso do filme. Ele o desloca. Transforma a tensão em algo que oscila entre tragédia e farsa, obrigando o espectador a rir de situações que deveriam ser apenas sombrias.

É estratégia de sobrevivência: quando a realidade é brutal demais, rir vira mecanismo de defesa. Panahi filma essa comédia de erros sem perder de vista que no centro dela há um homem aprisionado numa caixa e um grupo de pessoas deliberando sobre seu destino.

'Foi Apenas Um Acidente' denuncia regime autoritário iraniano (Foto: Divulgação)

A Câmera que não julga

Panahi usa planos longos e parados. Alguns ultrapassam dez minutos. A câmera não interfere, não comenta, não julga. Apenas observa enquanto os personagens discutem, brigam, hesitam, mudam de ideia. Não há música para dizer o que sentir.

Não há cortes rápidos para criar tensão artificial. A tensão vem da situação em si: cinco pessoas traumatizadas tentando decidir se têm direito de reproduzir a violência que sofreram.

A fotografia de Amin Jafari privilegia enquadramentos médios que comprimem os personagens nos espaços. Quando a ação se desloca para o deserto, a amplitude visual não traz alívio, mas exposição, vulnerabilidade. O espaço aberto, nesse caso, não oferece liberdade. Oferece a sensação de que não há lugar seguro.

Os Limites da Ficção

"Foi Apenas um Acidente" marca o retorno de Panahi à ficção estrita depois de anos fazendo cinema autobiográfico por necessidade. Desde "Isto Não É um Filme", ele vinha criando obras condicionadas pela prisão domiciliar e pela proibição de trabalhar. Aqui, ele não aparece diante da câmera. Há vontade de contar uma história com estrutura dramática completa, sem as limitações formais impostas pela censura.

Mas a biografia do diretor contamina cada frame. As discussões dentro do furgão refletem debates que Panahi testemunhou na prisão. A dúvida sobre revidar a violência é real demais para ser apenas exercício intelectual. O filme carrega urgência que transcende a ficção. Panahi não está especulando sobre dilemas éticos abstratos, está processando vivências concretas num país onde fazer arte é crime político.

O Título Como Armadilha

Chamar o filme de "Foi Apenas um Acidente" é uma sublime ironia. Não existe acidente onde a repressão é sistema.

O encontro entre Vahid e Eghbal pode ter sido casual, mas tudo que se segue é consequência direta de um Estado que tortura, que destrói vidas, que nunca presta contas pelos crimes que cometeu.

O título funciona como as justificativas que regimes autoritários dão para atrocidades: foi apenas excesso de zelo, apenas procedimento padrão, apenas um incidente isolado. Panahi usa essa linguagem evasiva para denunciar exatamente o oposto: não há nada de acidental na violência de Estado. Tudo é deliberado, sistemático, calculado.

A Minoria COVARDE

Ali, o noivo que nunca foi preso, é talvez o personagem mais sintomático do filme. Hamid o ataca verbalmente, chamando-o de parte da "minoria covarde" — aqueles que sabem dos abusos mas preferem não se envolver. É crítica direta à parcela da sociedade iraniana (e de qualquer sociedade sob autoritarismo) que escolhe conforto pessoal em vez de resistência.

Panahi não resolve essa tensão. O noive permanece desconfortável, mas presente. Não abraça a causa, mas também não abandona os amigos. Fica num meio-termo moralmente ambíguo que o filme não condena nem absolve. É reconhecimento de que resistência política exige privilégios que nem todos têm — e que julgar quem não resiste é um exercício complicado quando você não está no lugar dessa pessoa.

Cinema Feito Sob Vigilância

Toda a filmografia recente de Panahi existe sob ameaça. Cada filme seu é um ato de desobediência civil. "Foi Apenas um Acidente" se soma a "O Círculo", "Táxi Teerã", "Sem Ursos" — obras que custaram ao diretor anos de prisão, proibições de viagem, proibições de trabalhar, vigilância constante.

O regime iraniano continua punindo Panahi porque ele continua filmando. A sentença de prisão decretada após a Palma de Ouro é apenas mais um capítulo dessa guerra de desgaste entre um Estado que quer silêncio e um artista que insiste em falar.

"Foi Apenas um Acidente" não é o melhor filme de Panahi. Tem momentos em que a urgência política sobrepõe a precisão dramática. Tem personagens que servem mais como posições ideológicas do que como pessoas reais. Mas é trabalho honesto de alguém que sabe que câmera não salva ninguém, que arte não derruba ditaduras, que filmar não impede tortura.

E mesmo sabendo disso, Panahi filma. Porque algumas vozes são necessárias. E porque recusar-se a esquecer, num país que criminaliza a memória, já é forma de resistência.

Foi Apenas Um Acidente (2025)
'Foi Apenas Um Acidente' denuncia regime autoritário iraniano (Foto: Divulgação)

Ficha Técnica

Título: Foi Apenas Um Acidente (2025)
Roteiro e Direção: Jafar Panahi
Gênero: drama, suspense
Duração: 102 min
Distribuição: MUBI
Onde Assistir: Em cartaz nos cinemas

Avaliação:

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