Pela primeira vez, um filme brasileiro concorre na categoria principal de Melhor filme de drama
O filme de Kleber Mendonça Filho recebeu três indicações neste ano — e uma delas não tem precedentes. Pela primeira vez na história, uma produção brasileira concorre a Melhor Filme de Drama, categoria principal que tradicionalmente aponta favoritos ao Oscar. O longa também foi indicado a Melhor Filme de Língua Não-Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama para Wagner Moura.
A indicação histórica chega após um ano de prestígio internacional. Em Cannes 2025, O Agente Secreto conquistou os prêmios de Melhor Direção para Mendonça Filho e Melhor Ator para Wagner Moura — tornando-o o primeiro sul-americano a receber a honraria na história do festival. O filme também levou o Prêmio FIPRESCI da crítica internacional e o Prix des Cinémas d’Art et Essai.
Ambientado no Recife de 1977, durante a ditadura militar, o thriller político acompanha Marcelo (Moura), um professor especializado em tecnologia que retorna à cidade natal tentando fugir de um passado violento. O que encontra, no entanto, é um ambiente atravessado por vigilância, paranoia e repressão — temas que dialogam tanto com o período histórico quanto com ansiedades contemporâneas.

As chances de ‘O AGENTE SECRETO’
O Agente Secreto é o filme mais recente de Kleber Mendonça Filho, diretor pernambucano que há anos constrói uma filmografia de respeito, sobretudo pela densidade política. Depois de Aquarius e Bacurau (este último vencedor do Prêmio do Júri em Cannes), Kleber retorna com um thriller político baseado em fatos. O filme já venceu os prêmios de Melhor Filme Internacional e Melhor Ator no New York Film Critics Awards — um dos grupos de críticos mais respeitados dos Estados Unidos — e chegou ao Critics com duas indicações que carregam peso considerável.
O que a obra propõe, em termos de linguagem, é uma fusão entre o cinema de gênero (o thriller de espionagem) e a observação meticulosa do cotidiano, marca registrada do diretor. Wagner Moura, ator que já provou sua versatilidade em produções nacionais e internacionais, encontra aqui um personagem que exige camadas — o homem comum arrastado para engrenagens maiores que ele, figura tão cara ao cinema político brasileiro quanto à tradição do noir.
Vale lembrar que 2025 foi o ano de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, com Fernanda Torres. O filme arrebatou o Globo de Ouro e recebeu três indicações ao Oscar, vencendo a estatueta de Melhor Filme Internacional. Foi fenômeno de bilheteria nacional, com mais de 3 milhões de espectadores, e abriu portas para que o mundo voltasse a olhar o cinema brasileiro com atenção renovada.
Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto são obras complementares que revelam como o cinema nacional está escolhendo narrar a si mesmo. Ambos lidam com opressão, trabalham com o não-dito, escolhem a contenção dramática em vez do melodrama.
O que está em jogo neste domingo
A disputa de O Agente Secreto na categoria de Melhor Filme de Drama coloca o Brasil em território inédito. Não se trata mais apenas de competir entre filmes estrangeiros — é disputar de igual para igual com as maiores produções de Hollywood.
Na categoria de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa, o longa enfrenta concorrentes de peso: Valor Sentimental (Noruega), vencedor do Grand Prix em Cannes com oito indicações totais ao Globo de Ouro; Foi Apenas um Acidente (França/Irã), ganhador da Palma de Ouro de Jafar Panahi; Sirât (Espanha), Prêmio do Júri em Cannes; A Única Saída (Coreia do Sul), de Park Chan-Wook; e A Cidade Entre Nós (Tunísia).
Na categoria principal, O Agente Secreto compete contra títulos como Pecadores, de Ryan Coogler, O Brutalista, de Brady Corbet, e A Casa de Dinâmica, o thriller nuclear de Kathryn Bigelow.
Independentemente do resultado, a presença brasileira nessas disputas já representa uma conquista. O Globo de Ouro é historicamente um termômetro para o Oscar — e O Agente Secreto está posicionado para ir longe nas duas premiações.
A cerimônia será transmitida na TV aberta pela Globo e também pelo TNT e HBO Max a partir das 22h (horário de Brasília).
O QUE significaria UMA VITóRIA PARA o Brasil?
O que significaria para Wagner Moura levar a estatueta? Simbolicamente, seria enorme. O reconhecimento de que um ator brasileiro, trabalhando em um filme brasileiro, dirigido por um cineasta brasileiro, falado em português, conseguiu se posicionar entre os melhores do ano. Não como exceção, mas de igual para igual.
Isso abriria portas? Com certeza. O cinema funciona com narrativas, e a narrativa do "ator latino que venceu os americanos" tem força. Mas o valor maior está no que já aconteceu: a indicação em si.
O Agente Secreto teve lançamento estratégico nos Estados Unidos: aberturas graduais em cidades-chave, começando pelos mercados onde a crítica especializada tem mais peso — Nova York, Los Angeles, São Francisco. É distribuído pela Vitrine Filmes no Brasil, mas internacionalmente conta com estrutura de produção que envolveu parceiros franceses, alemães e holandeses.
É uma coprodução no sentido pleno: dinheiro e talentos de diferentes países trabalhando juntos. Esse modelo, cada vez mais comum no cinema contemporâneo, permite que filmes como este existam — obras que não caberiam no sistema de estúdios americano, mas que também transcendem o alcance do cinema 100% nacional.
Kleber Mendonça Filho representa, nesse sentido, o cineasta do século XXI: enraizado localmente (Recife está em seus filmes como presença física e espiritual), mas conectado globalmente (sua linguagem dialoga com Hitchcock, com o cinema político latino-americano, com o thriller europeu). Wagner Moura, da mesma forma, é ator que transita entre Tropa de Elite e séries da Netflix, entre o cinema autoral brasileiro e produções de Hollywood, sem perder a capacidade de viver personagens com verdade.
O horário da premiação — 22h no Brasil, 20h na costa leste dos EUA, 16h em Los Angeles — foi escolhido para maximizar audiência em diferentes fusos. É domingo à noite, momento em que parte significativa do público está disponível. E diferentemente do Oscar, que se estende por quatro horas, o Globo de Ouro tende a ser mais enxuto: cerca de duas horas e meia. Tempo suficiente para não cansar.

As tendências que serão DITADAS
A cerimônia de domingo não vai apenas distribuir troféus, vai indicar tendências. Vai mostrar que tipo de cinema a crítica norte-americana e canadense está valorizando neste momento. Se Pecadores dominar a noite, teremos um sinal de que o cinema autoral de gênero (Ryan Coogler vem de Pantera Negra e agora fez um filme de vampiros) está sendo levado a sério como arte, não apenas como entretenimento. Se Marty Supreme se sair bem, teremos confirmação de que Timothée Chalamet continua sendo um dos atores mais interessantes de sua geração, capaz de carregar filmes menores nas costas.
E se O Agente Secreto vencer em Melhor Filme Internacional ou se Wagner Moura levar Melhor Ator? Teremos a confirmação de que o cinema brasileiro é, sim, relevante em termos globais.
Claro, premiação nenhuma é uma régua absoluta de qualidade. Filmes excelentes perdem prêmios o tempo todo para obras medíocres que, muitas vezes, só vencem porque fizeram uma campanha melhor.
É ingenuidade tratar qualquer prêmio como veredito final sobre o valor de uma obra. Mas é igualmente ingênuo fingir que prêmios não importam. Eles importam, sim, para a carreira dos envolvidos, para a distribuição do filme, para a memória que construímos sobre o cinema de uma época.
Quantos Globos de Ouro o Brasil já venceu?
O prêmio de Torres foi inédito, mas essa não foi a única vez em que o audiovisual brasileiro foi reconhecido pelo Globo de Ouro. Até o momento, já foram 21 indicações e três vitórias na história da premiação.
As 21 indicações brasileiras no Globo de Ouro:
Filmes:
- Orfeu Negro (1960) — Melhor Filme de Língua Estrangeira — VENCEDOR
- Dona Flor e Seus Dois Maridos (1979) — Melhor Filme de Língua Estrangeira
- Pixote: A Lei do Mais Fraco (1982) — Melhor Filme de Língua Estrangeira
- Central do Brasil (1999) — Melhor Filme de Língua Estrangeira — VENCEDOR
- Abril Despedaçado (2002) — Melhor Filme de Língua Estrangeira
- Cidade de Deus (2003) — Melhor Filme de Língua Estrangeira
- Diários de Motocicleta (2005) — Melhor Filme de Língua Estrangeira
- Ainda Estou Aqui (2025) — Melhor Filme de Língua Não-Inglesa
- O Agente Secreto (2026) — Melhor Filme de Língua Não-Inglesa
- O Agente Secreto (2026) — Melhor Filme de Drama
Atores e atrizes:
- Sônia Braga (1986) — Melhor Atriz Coadjuvante por O Beijo da Mulher-Aranha
- Sônia Braga (1989) — Melhor Atriz Coadjuvante por Luar sobre Parador
- Sônia Braga (1995) — Melhor Atriz Coadjuvante em Série/Filme para TV por Amazônia em Chamas
- Daniel Benzali (1996) — Melhor Ator em Série de Drama por Murder One
- Fernanda Montenegro (1999) — Melhor Atriz em Filme de Drama por Central do Brasil
- Wagner Moura (2016) — Melhor Ator em Série de Drama por Narcos
- Fernanda Torres (2025) — Melhor Atriz em Filme de Drama por Ainda Estou Aqui — VENCEDORA
- Wagner Moura (2026) — Melhor Ator em Filme de Drama por O Agente Secreto
Diretores:
- Fernando Meirelles (2006) — Melhor Direção por O Jardineiro Fiel
Produções internacionais com participação brasileira:
- O Jardineiro Fiel (2006) — Melhor Filme de Drama (direção de Fernando Meirelles)
- O Jardineiro Fiel (2006) — Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz
As três vitórias do brasil:
- Fernanda Torres (2025) — Melhor Atriz em Filme de Drama por Ainda Estou Aqui
- Orfeu Negro (1960) — Melhor Filme de Língua Estrangeira
- Central do Brasil (1999) — Melhor Filme de Língua Estrangeira
E aí, como está a sua torcida? Comenta aqui embaixo.
Assista ao trailer oficial de O Agente Secreto, produzido pela Vitrine Filmes:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
