Em filme maduro, a diretora Celine Song Captura o Vazio da cultura dos “DATES” em Tempos de Consumo indiscriminado
Um belo filme que você pode ter deixado passar em 2025, é o surpreendente Amores Materialistas, dirigido por Celine Song, a mesma diretora de Vidas Passadas, que foi indicado a dois Oscars na edição do ano passado.
Seu drama mais recente consegue, de forma discreta, apresentar uma proposta tão direta quanto perturbadora: observar duas pessoas enquanto elas negociam seus objetivos de relacionamento com a mesma frieza com que se negocia um contrato de imóvel.
Celine Song já havia demonstrado uma sensibilidade antropológica de estudar pausas e silêncios preenchidos em seu filme de estreia, com alguns críticos importantes reconhecendo sua ambição intelectual. Amores Materialistas é um filme que merece ser descoberto, ou redescoberto, não porque é perfeito, mas porque não tem receio em formular perguntas que preferíamos não ter que responder.
Pedro Pascal e Dakota Johnson dividem a tela com a naturalidade de dois atores que entendem que o drama contemporâneo não pede esforço, apenas de escolhas precisas, olhares que traduzem o que sentem, e a coragem de deixar o tempo falar. O resultado é um trabalho que funciona como antídoto exatamente àquilo que o próprio filme critica: o consumo apressado de narrativas mastigadas.
Amores Materialistas pede que você repense a forma como tem lidado com as relações, e permita que a inquietação que a obra sugere penetre suas certezas sobre os relacionamentos, dinheiro e aquilo que realmente nos move quando ninguém está olhando.
A gramática da moderação
Celine Song emergiu no cinema com uma sensibilidade aguçada para o que poderíamos chamar de "drama da moderação" — histórias onde o conflito não explode em confrontos dramáticos, mas se instala nos intervalos, naquilo que não é dita, na maneira como dois corpos compartilham um espaço sem nunca realmente se tocarem.
Com Vidas Passadas, ela explorou como o tempo e a geografia podem transformar o amor em nostalgia, em remorso, em uma lembrança que dói exatamente porque poderia ter sido diferente. Em Amores Materialistas, ela vai além: não se trata apenas de explorar as fraturas emocionais, mas de examinar como a lógica econômica penetra até os recantos mais íntimos das relações amorosas.
A linguagem de Song é deliberadamente contida. A câmera não floreia. Os enquadramentos priorizam a composição clássica — pessoas dispostas no espaço de forma que cada movimento ganha peso adicional.
O desenho de som privilegia a ambiência real sobre a música orquestrada: o barulho dos talheres contra a louça, o silêncio pesado de um apartamento onde duas pessoas fingiram estar sozinhas estando juntas. Essa austeridade formal é proposital. Ela força o espectador a se concentrar naquilo que realmente importa: o que as pessoas fazem quando acreditam que ninguém está observando, quando a câmera deve capturar não o drama, mas a vida comum, nua e crua.
A estrutura narrativa que Song constrói ecoa a precisão de um ensaio visual. Não há reviravoltas de roteiro pela reviravolta em si. Tudo que acontece soa inevitável depois que acontece — exatamente como a vida funciona. Você só compreende por que tomou certas decisões quando já é tarde demais para mudá-las. O filme respira nesse ritmo: a paciência de quem sabe que a compreensão vem lentamente, em camadas, não de uma vez.

Quando o amor vira contrato
A história acompanha um casal que funciona não por paixão, mas por compatibilidade. Pedro Pascal interpreta um homem que possui muito capital — não necessariamente riqueza emocional, mas uma estabilidade financeira que funciona como moeda de troca no mercado dos relacionamentos contemporâneos.
Dakota Johnson é uma mulher que, em diferentes momentos de sua vida, precisou negociar exatamente isso: sua segurança, seus sonhos, sua liberdade, em troca de estabilidade. O filme não dramatiza essa negociação. Ele a apresenta como algo tão comum, tão aceito culturalmente, que sua crueldade passa quase despercebida.
O que torna Amores Materialistas particularmente perspicaz é que o filme não trata o tema como uma crítica moralizante. Song não está aqui para dizer "é ruim negociar relacionamentos com a lógica capitalista". Ao invés disso, ela prefere observar: é isso que fazemos, constantemente, e a pergunta real não é se deveríamos, mas o que perdemos no processo.
Qual é a temperatura emocional de uma vida construída sobre acordos financeiros? Qual é o gosto de um beijo quando ambos os lados sabem exatamente o que estão comprando e vendendo?
A recepção crítica foi majoritariamente positiva, com a maioria dos críticos definindo o filme como uma desconstrução madura da comédia romântica convencional.
O filme foi selecionado para festivais importantes, recebeu prêmios em categorias técnicas e de direção. Porém, nos números de bilheteria — aquele indicador que Hollywood ainda insiste em usar como medida de relevância — Amores Materialistas não alcançou grande audiência. Talvez porque temas sobre relacionamentos transacionais são exatamente aqueles dos quais preferimos não falar abertamente, aqueles que nos tocam de forma incômoda e pessoal.

O que o filme revela sobre nós mesmos
O que os números de bilheteria não capturam é algo mais sutil: a existência de filmes como este é fundamentalmente uma posição política. Em um momento em que a indústria cinematográfica se concentra cada vez mais em narrativas que confirmam o que já sabemos — sequências, remakes, universos expansíveis que transformam o cinema em um tipo de serviço por assinatura — uma diretora que escolhe fazer um filme sobre dois adultos tendo uma conversa difícil é alguém que acredita que cinema ainda é lugar para pensamento, para reflexão, para o tempo de compreender a própria vida.
A linguagem cinematográfica de Amores Materialistas revela isso em cada plano. Quando Pedro Pascal e Dakota Johnson estão em um restaurante — uma cena que poderia ser performática, que poderia explorar o drama visual — Song escolhe filmá-los de forma quase documental. A câmera sente como se estivesse documentando um momento que já é passado, mesmo enquanto acontece. Há uma melancolia formal nessa abordagem, como se o filme soubesse, desde o primeiro frame, exatamente como essa história terminaria e estivesse, simultaneamente, registrando e se despedindo dela.
O que isso sugere é uma pergunta mais ampla sobre relacionamentos contemporâneos: vivemos em um tempo em que a honestidade radical — falar abertamente sobre o que queremos, o que precisamos, e se aquilo pode ser satisfeito no contexto da outra pessoa — é tratada como frieza, como falta de romance.
Amores Materialistas não responde a essa pergunta. Ao contrário, Song deixa em suspenso: e se a frieza for honestidade? E se negociar com transparência for mais humano do que fingir emoções que não sentimos? O filme não oferece consolações fáceis. Oferece apenas o convite para reflexão, para reconhecimento, e talvez até para questionar as próprias negociações que fazemos diariamente.
UMA INCERTEZA GENEROSA
Amores Materialistas é o tipo de filme que fica com você por alguns dias, deixando a sensação de que algo importante dentro de você foi questionado. Você pode até achar que o filme carece de certos elementos que esperávamos de uma comédia romântica, mas isso porque o gênero é outro: o filme é um drama de relacionamento.
E o que permanece é a pergunta que vai ressoar toda vez que você estiver em alguma negociação, romântica ou não, e perceber que está traduzindo seus desejos mais profundos em moedas de troca.
Neste momento em que o cinema parece cada vez mais seguro, um filme que escolhe a paciência, que confia no desconforto, que oferece espaço para o espectador completar seus próprios significados, não deixa de ser um ato de resistência. Amores Materialistas não vai convencer você de nada. Mas para fazer você sentir uma incerteza generosa em relação às suas próprias escolhas.
Se você deixou o filme passar em 2025, talvez agora seja o momento de vê-lo. Não para se saciar com uma conclusão satisfatória, mas tão somente para participar de um pensamento que ainda acredita que o cinema é também lugar para examinar quem somos.
O filme está disponível na HBO Max. Confira o trailer:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
