com 96% de aprovação no Rotten Tomatoes, o drama é um forte candidato ao prêmio de melhor filme internacional em 2026
A premissa é a seguinte: Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um diretor de cinema em declínio, reaparece na vida das filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) após a morte da ex-mulher. Ele quer fazer um filme autobiográfico sobre a própria mãe, Karin, membro da resistência norueguesa que foi torturada pelos nazistas e cometeu suicídio na casa da família quando Gustav tinha sete anos.
O diretor oferece o papel principal a Nora, atriz de teatro estabelecida. Ela recusa. Ele, então, contrata Rachel Kemp (Elle Fanning), uma estrela de Hollywood ávida por provar que é mais do que um rostinho bonito. E as filmagens acontecem na casa onde o trauma original ocorreu.
O que Trier faz com esse material é outra história.
A arte como desculpa
Gustav Borg pertence a uma categoria de personagem que o cinema adora: o artista genial cujos defeitos pessoais são supostamente justificados pelo talento. Stellan Skarsgård não o interpreta assim. O que vemos é um homem que passou a vida inteira fugindo da intimidade e agora, no crepúsculo da carreira, descobre que a única moeda que sabe usar é o próprio trabalho. Ele não consegue pedir perdão diretamente às filhas; precisa transformar o pedido em roteiro, casting, direção de atores. A arte não chega a ser redenção, mas uma desculpa mais sofisticada.
Skarsgård constrói Gustav com camadas de charme e evasão. O ator sueco, que revelou recentemente ter sofrido um derrame em 2022 que afetou sua memória, entrega aqui uma das performances mais contidas de sua carreira. O rosto transmite uma vida inteira de autoengano sem precisar de monólogos explicativos.
Quando Gustav trata Rachel Kemp com mais empatia do que jamais demonstrou às próprias filhas, não é crueldade pura e simples, é a única linguagem emocional que ele domina: a relação diretor-atriz, com suas hierarquias claras e distâncias profissionais.
A indicação de Skarsgård ao Oscar de Ator Coadjuvante parece cada vez mais provável. Se acontecer, será merecida.

Renate Reinsve e o retorno a Trier
Nora poderia ser uma extensão de Julie, a protagonista de A Pior Pessoa do Mundo (2021) que rendeu a Reinsve o prêmio de Melhor Atriz em Cannes e duas indicações ao Oscar para o filme. As personagens compartilham uma qualidade de inquietação existencial, de mulheres tentando descobrir quem são enquanto o mundo ao redor exige definições. Mas Nora é mais velha, mais ferida, mais ciente de que certas escolhas ficaram para trás.
Reinsve encontra Trier pela quarta vez — a primeira foi uma participação quase invisível em Oslo, 31 de Agosto (2011), com duas falas. Uma década depois, ela viveu a protagonista carismática de A Pior Pessoa do Mundo. Agora, a parceria atinge uma maturidade que se reflete na própria narrativa: Valor Sentimental é um filme sobre o que acontece quando você já não pode mais se reinventar.
A atriz norueguesa carrega o filme com uma mistura de ressentimento e vulnerabilidade que nunca descamba para o melodrama. Há uma cena em que Nora finalmente lê o roteiro do pai e percebe que a personagem da avó não é apenas um tributo — é um pedido meio torto de desculpas. A expressão de Reinsve nesse momento diz mais sobre relações familiares do que páginas de diálogo conseguiriam.

Elle Fanning e a Hollywood que Trier não resiste em cutucar
A presença de Rachel Kemp na trama cumpre múltiplas funções. No nível narrativo, ela é a intrusa que força as irmãs a confrontarem mágoas antigas. No nível meta, ela permite a Trier uma série de comentários ácidos sobre a indústria do cinema, streaming, financiamento, o sistema de estrelas que reduz atores a "nomes" em planilhas de orçamento.
Elle Fanning interpreta Rachel com uma mistura de ambição e insegurança que evita o estereótipo da estrela mimada. A personagem quer desesperadamente ser levada a sério; quando descobre que Gustav traduziu o roteiro para o inglês só para acomodá-la, a humilhação é palpável. Fanning, que chorou durante a ovação em Cannes, encontra humanidade numa figura que poderia facilmente ser caricatura.
Há humor genuíno nas cenas envolvendo a Netflix (que financia o filme de Gustav dentro do filme) e nas tiradas sobre o funcionamento da indústria. Trier não é sutil nessas críticas, mas também não é amargo, ele se posiciona como alguém que conhece o sistema de dentro e se diverte expondo suas contradições.
A Trilogia de Oslo e o que veio depois
Para situar Valor Sentimental na filmografia de Trier, é útil recuar algumas décadas. O diretor norueguês-dinamarquês construiu sua reputação com a chamada Trilogia de Oslo: Reprise (2006), sobre dois jovens escritores tentando entender o que o futuro reserva; Oslo, 31 de Agosto (2011), acompanhando um dia na vida de um dependente químico em recuperação que decide revisitar amigos antes de tomar uma decisão irreversível; e A Pior Pessoa do Mundo, sobre uma mulher de quase trinta anos lidando com dois relacionamentos e uma crise de identidade.
Os três filmes compartilham da mesma sensibilidade: personagens em pontos de inflexão, incapazes de articular diretamente o que sentem, cercados por uma cidade que segue indiferente às suas angústias. Trier nunca é melodramático. As emoções ficam contidas, emergem em gestos pequenos, se revelam nas pausas entre as falas.
Valor Sentimental é o que acontece quando essa sensibilidade se volta para relações intergeracionais. Não é mais sobre jovens descobrindo quem são, mas sobre adultos descobrindo quem seus pais foram — e como isso moldou quem eles próprios se tornaram. A mudança de perspectiva amplia o escopo emocional sem abandonar a precisão que marca o trabalho de Trier.
Trauma, memória e a casa como personagem
A casa da família Borg funciona como cenário e símbolo. É lá que Karin se matou. É lá que Gustav quer recriar o suicídio para seu filme. A decisão é grotesca e coerente ao mesmo tempo: ele só sabe processar dor transformando-a em cinema. O problema é que Nora e Agnes também vivem nessa casa — não como locação, mas como herdeiras de um trauma que nunca foi adequadamente nomeado.
Trier, que coescreveu o roteiro com seu colaborador de longa data Eskil Vogt, evita explicações fáceis. O filme não está interessado em diagnosticar seus personagens, apenas em observá-los. Quando Agnes finalmente entende o que o roteiro do pai significa, não há catarse, mas reconhecimento. E numa família como essa, reconhecimento já é uma forma de milagre.
A fotografia de Kasper Tuxen (que também trabalhou em A Pior Pessoa do Mundo) alterna entre interiores apertados e paisagens norueguesas que poderiam ser cartões postais, mas nunca são tratadas como tal. A casa não é pitoresca; é um organismo vivo, cheio de memória, bagunça e ruído.

Por que este é o momento
Valor Sentimental chega aos cinemas brasileiros em posição privilegiada. Com distribuição da MUBI e Retrato Filmes, o lançamento em 100 salas durante o feriado de Natal é aposta ambiciosa para um filme norueguês de duas horas e treze minutos sobre feridas familiares.
A expectativa é que a recepção crítica e o burburinho de premiações atraiam o público que normalmente espera a chegada nos streamings para ver filmes estrangeiros.
O filme compete diretamente com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi (vencedor da Palma de Ouro), nas apostas para o Oscar de Filme Internacional. Os três estavam em Cannes 2025, os três estão em cartaz simultaneamente no Brasil. É uma oportunidade rara de comparar o que o cinema autoral mundial está produzindo agora, nas mesmas condições — tela grande, sem interrupções, sem a tentação de pausar.
No Rotten Tomatoes, Valor Sentimental mantém 97% de aprovação crítica. No Metacritic, 87/100 — números que indicam unanimidade rara para um filme que não facilita a vida do espectador. A IndieWire o posicionou como 21º na lista dos 100 melhores filmes da década de 2020 até agora.
O cinema como único idioma
Joachim Trier disse em entrevista que não consegue escrever antagonistas, mesmo num mundo cheio de antagonismos. O que lhe interessa é compreender a complexidade de por que as pessoas acabam magoando e decepcionando umas às outras. "Me interessa a ternura", afirmou. "E se alguns acham esse estilo 'emotivo demais', dane-se. É assim que eu sou."
Valor Sentimental é um filme sobre pessoas que só sabem se comunicar indiretamente — através de papéis, roteiros, filmes dentro de filmes. Gustav não consegue dizer às filhas o que sente; precisa de uma câmera entre eles. Nora não consegue confrontar o pai; precisa de uma personagem para canalizar sua raiva. A tragédia não é que eles se machuquem; é que, mesmo querendo se aproximar, só conhecem uma linguagem — e essa linguagem exige distância.
O resultado é cinema que pensa sobre cinema sem ser autoindulgente, drama familiar que evita chantagem emocional, comédia ácida que encontra humor na disfunção, mas sem zombar de ninguém.
Trier amadureceu. Suas personagens amadureceram junto. E o público que acompanha essa trajetória desde Oslo, 31 de Agosto ganha um presente que, como os melhores presentes de Natal, não é exatamente o que esperávamos — mas é exatamente o que precisávamos.
ONDE assistir
Valor Sentimental está em cartaz nos cinemas.
Assista ao trailer oficial de Valor Sentimental:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
