“Nada supera estar no lugar certo na hora certa”, disse Adolpho Veloso, o diretor de fotografia do filme
Em Sonhos de Trem, capturar a beleza natural dos Estados Unidos (em locações no estado de Washington) no início do século XX significou filmar usando apenas luz natural e ser flexível às exigências da paisagem.
A cena de abertura, escolhida pelo diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso, foi um feliz acidente: a cena seguinte — na qual Robert Grainier (Joel Edgerton) está trabalhando com uma equipe de construção ferroviária e testemunha seu colega nipo-americano sendo jogado de uma ponte — exigiu muita preparação para as cenas de ação e segurança, o que significou um tempo considerável de inatividade no set antes das filmagens.
“Aquele túnel [da foto] ficava bem ao lado de onde filmamos a cena da ponte. Eu estava constantemente procurando outras coisas para fazer enquanto esperávamos — tentando capturar momentos diferentes, às vezes apenas a natureza, às vezes um pequeno momento com o Joel”, explica Veloso.
Ele teve a ideia de levar alguns membros do elenco até o túnel e filmá-los sob o sol forte. “Provavelmente era isso que [os personagens] fariam para almoçar, procurariam uma sombra para se proteger”, reflete. “Isso diz muito sobre a maneira como fizemos esse filme: Clint Bentley é um diretor que realmente incentiva a improvisação.”

Veloso acrescenta: “Acho que o que a natureza e os lugares reais nos proporcionaram foi a capacidade de simplesmente olhar para o lado e encontrar algo ainda mais belo. Nada se compara a estar no lugar certo na hora certa.”
Por que você deveria assistir
Sonhos de Trem não é um filme fácil. Não no sentido de ser difícil de entender, mas no sentido de exigir paciência. As cenas se desenrolam em tempo real. Há longos planos de Grainier subindo e descendo escadas, cortando madeira, olhando para o horizonte.
É um ritmo que desafia a lógica do streaming, onde a facilidade de pausar e pular para outra coisa transforma qualquer momento de pausa ou meditação em um convite à “zapear”.
Mas se você se entregar ao ritmo do filme, algo acontece. Você começa a notar detalhes que passariam despercebidos em outra velocidade: a textura da casca de uma árvore, o vapor saindo da boca de um trabalhador no frio, a maneira como Grainier fecha os olhos por um segundo a mais quando recebe uma notícia difícil. O filme treina seu olhar para um tipo de atenção que o mundo moderno, com toda sua pressa, desencoraja.
Na coletiva de imprensa em Sundance, Bentley disse algo que ficou comigo: “Nossos filmes têm uma mensagem. É só que não é uma mensagem que você consegue escrever.” Sonhos de Trem é exatamente isso: um filme que comunica algo sobre a vida, sobre perda e sobre o passar do tempo, mas que não pode ser resumido em uma ou duas frases de efeito.
A narração como arte
Poucos recursos cinematográficos são tão mal utilizados quanto a narração em voice-over. Na maioria dos filmes, o efeito funciona como muleta para roteiristas que não conseguem mostrar o que precisam contar. Em Sonhos de Trem, a narração de Will Patton é outra coisa, é literatura em estado puro, poesia sussurrada sobre imagens que já falam por si.
Patton, que também narrou o audiobook do romance original de Denis Johnson, tem uma voz que parece vir de outro tempo. Cada sílaba carrega peso e calor.
A crítica do site Roger Ebert descreveu o resultado como "transcendente, como se estivéssemos ouvindo um grande contador de histórias". Não é exagero. A combinação da voz de Patton com as imagens de Clint Bentley cria algo raro: um filme que parece um livro sem deixar de ser 100% cinematográfico.
O filme é um forte candidato ao Oscar 2026
Pré-indicado nas categorias de Melhor Fotografia (justamente para o brasileiro Adolpho Veloso), Melhor Trilha Sonora e Melhor Música, Sonhos de Trem não surpreenderá ninguém se acabar indicado também a Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado.
A 98ª edição do Oscar está marcada para acontecer no Dolby Theatre, em Los Angeles, no dia 15 de março de 2026, com Conan O'Brien retornando como apresentador pelo segundo ano consecutivo. A lista completa de indicados será divulgada em 22 de janeiro de 2026.
Sonhos de Trem é um dos melhores filmes da Netflix lançados em 2025.
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
