O Perigo real da compra da Warner pela Netflix - 2025

O Perigo real da compra da Warner pela Netflix

porque essa fusão pode ser PERIGOSA para a cultura audiovisual

A compra da Warner pela Netflix finalmente aconteceu. E no meio da euforia, dos memes e da ideia de “menos uma assinatura para pagar”, existe um preço silencioso que ninguém está vendo — e que quem ama cinema vai sentir mais cedo ou mais tarde.

Com a aquisição, muita gente comemorou. “Ótimo, um streaming a menos pra pagar.” Só que quando duas gigantes como a Warner e a Netflix se fundem, a primeira coisa que diminui não é o preço, é a diversidade.

Pensa assim: quando uma empresa domina o jogo, ela não precisa arriscar. A história prova isso: a Disney comprou a Fox e enterrou mais de 250 projetos autorais em desenvolvimento. A própria Warner quando comprou a HBO, ela deletou séries inteiras da noite para o dia para abater impostos. Não foi incompetência, foi cálculo frio. E essas séries foram canceladas não porque eram ruins, mas porque não se encaixavam na “estratégia da empresa”.

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A EXPERIÊNCIA DE VER UM FILME

Quando você não precisa competir, você não precisa impressionar. O foco passa a ser única e exclusivamente: não perder dinheiro.

Por isso, atenção: a diversidade não acaba de imediato, com o anúncio da compra. Ela vai definhando aos poucos, em salas de reunião, quando alguém aponta uma planilha e diz: "Isso aqui não faz mais sentido produzir."

A diversidade não acaba de imediato, ela vai definhando aos poucos, em salas de reunião.


A Warner sempre teve um fôlego criativo específico. É o estúdio que bancou Mad Max: Estrada da Fúria — um filme praticamente mudo, com mais de duas horas de perseguição, que custou 150 milhões. Que bancou Blade Runner 2049, que perdeu dinheiro nos cinemas mas foi considerado uma obra de arte por público e crítica. Que bancou Coringa, que todo executivo chamou de "arriscado demais" até faturar um bilhão. E eu tô falando de dólares tá? Não de reais.

Já a Netflix opera com outra lógica: volume alto, retenção de assinantes, métricas em tempo real. Ela sabe quantos espectadores pararam de assistir no minuto 12. Sabe qual thumbnail gera mais cliques. Sabe tudo, menos o que vai se tornar importante daqui a dez anos.

E esse é o ponto sensível: a Netflix não cresceu só criando conteúdo. Ela cresceu redesenhando como nós consumimos histórias. A experiência de ver um filme há 10, 20 anos era totalmente diferente da de agora. Não existiam coisas como Início automático, próximo episódio em 5 segundos, "pular introdução".

Os criadores tem que se adaptar, é claro. Séries da Netflix têm ganchos obrigatórios nos primeiros 90 segundos porque os dados mostram que o espectador decide se vai continuar assistindo ou não nesse intervalo. Diretores recebem notas dos executivos pedindo "mais ritmo", "menos silêncio", "diálogos mais expositivos". E isso não é censura, é otimização. Agora imagine essa mentalidade aplicada a todo o catálogo da Warner.

E sabe o pior? Aos poucos, vamos nos acostumando com histórias que não nos surpreendem, que não nos desafiam. E quando alguém fuzer algo realmente ousado — algo estranho, incômodo — nós não vamos mais ter paciência. Porque fomos treinados pra outra coisa.

Obras que incomodam, que abrem janelas metafísicas, não sobrevivem a modelos de produção que respondem exclusivamente a dados e métricas. Elas morrem antes de nascer, em reuniões de orçamento, em testes de audiência, em planilhas de retorno sobre investimento.

PORQUE O MAIOR PERIGO É CULTURAL

E o mais assustador: você não vai perceber isso acontecendo. Porque ninguém sente falta do filme que nunca foi feito. O público cativo não exige risco, ele exige distração.

Ninguém vai protestar por uma série que foi cancelada antes da entrega do roteiro. 

O perigo é esse: a Netflix ir esvaziando o repertório de bons conteúdos, ano após ano, até que um dia vamos olhar para trás e perceber: faz tempo que ninguém faz um Fargo, um Coringa, um Parasita. Mas aí já será tarde.

Ninguém sente falta do filme ou da série que nunca foram feitos.


E eu não estou dizendo que a Netflix é a grande vilã dessa história. Afinal, ela bancou O Irlandês do Scorsese — com 3h30 de duração, sem jovens no elenco, um ritmo super lento. Bancou Roma do Cuarón, um filme em preto e branco, falado em espanhol, sobre as memórias no bairro de infância do diretor. Bancou Mank, História de um Casamento, Nada de Novo no Front, entre outros. Mas quantos desses filmes a Netflix lança por ano?  

Um, talvez dois.

O que eu quero dizer é que esses filmes são exceções estratégicas, um álibi cult/autoral da plataforma. Enquanto a máquina toda funciona com outra lógica.

Vamos pegar O Irlandês novamente como exemplo: o filme custou 159 milhões, foi premiado, aclamado... e a Netflix nunca divulgou quantas pessoas o assistiram. Por quê? Porque no modelo deles, isso não importa. O que importa é o prestígio, a legitimação, o Oscar.

Já a Warner não precisa de legitimação. Ela não faz filmes autorais para ganhar credibilidade — ela faz porque isso sempre fez parte do seu negócio.

E olha, eu não vou romantizar aqui: a Warner não é uma ONG do cinema autoral. Ela fez Coringa, mas também fez Space Jam. Fez Duna, mas também fez sei lá quantos filmes do Super Man. A Warner quer lucro, sempre quis.

A questão é que existe um ecossistema.

Na lógica da Netflix, há pouco, ou quase nenhum, incentivo para arriscar.


Para brigar com a Universal, com a Paramount, com a Disney, a Warner é forçada a arriscar. Ela banca um Christopher Nolan porque precisa de prestígio. Ela banca um Paul Thomas Anderson porque precisa se diferenciar.

Agora, dentro da Netflix, sem concorretos diretos, o incentivo pra arriscar vai pelo ralo. Porque arriscar custa caro. 

CORRER RISCOS CUSTA CARO

No curto prazo, parece bom. Menos serviços de streaming, mais catálogo. Mas no longo prazo, quando a concorrência diminui, algo sempre acontece: os preços sobem, a criatividade desce, e o espectador perde o direito de escolha.

E aqui vai um dado: a Netflix cancelou 46% das suas séries originais antes da terceira temporada. Não porque eram ruins — mas porque a métrica de "novas visualizações" caiu depois da estreia. Sabe o que dá pra concluir desse dado? Sai mais barato fazer algo novo do que terminar o que começou.

A Netflix cancelou 46% de suas séries originais antes da terceira temporada.


Agora imagina isso aplicado ao cinema da Warner. Em 1999, um diretor meio obscuro de 38 anos pediu um orçamento bilionário para rodar três épicos de fantasia de 3 horas cada, tudo de uma vez. Pra ajudar, as filmagens seriam na Nova Zelândia, e a história era baseada em um conjunto de livros 'para nerds'. A Warner disse sim. E só depois Peter Jackson virou Peter Jackson.

Hoje? Um projeto desses não passaria da primeira reunião. Não porque Senhor dos Anéis seria cancelado — mas porque talvez não seria nem iniciada. A Netflix investe no que já provou dar resultado, nem sempre no que pode se tornar lendário daqui a dez anos.

E o que resta? Menos Yorgos Lanthimos, menos David Lynch,  Robert Eggers. Menos filmes que custam 15 milhões e dependem do boca a boca. Menos diretores estreantes. Menos visões estranhas e pessoais.

A lógica da perfomance não permite que filmes com visões mais estranhas e pessoais sequer saiam do papel.


Porque quando você não precisa competir, você não precisa impressionar. Você só precisa reter. E o cinema vai perdendo alma.

Por isso, vamos encarar assim: A compra da Warner pela Netflix não é só uma transação comercial. É uma disputa pelo imaginário. É decidir se o cinema do futuro vai ser feito por algoritmos ou para pessoas.

Não sabemos como serão os próximos capítulos — mas sabemos o que está em jogo: a possibilidade de sermos surpreendidos. De assistir algo que não sabíamos que precisávamos. De encontrar histórias que mudam quem somos. De detestar um filme, mas agradecer por ele existir.

Então, sim: a economia imediata pode até fazer sentido no bolso. Mas, culturalmente, o preço é alto.

Se você ama cinema, essa é a hora de prestar atenção.

Muito além da história

Que você gosta de ver filmes eu já sei, mas já pensou aprender a ler os filmes? Estou falando de detalhes visuais, símbolos e pistas que bons diretores plantam sem você perceber, mas que mudam totalmente o sentido do que você assiste. E só tem um jeito de aprender isso: treinando seu olhar para tudo o que um filme comunica sem dizer. Depois que você aprende a identificar as intenções por trás das cenas, sua experiência nunca mais será a mesma. Interessou, né?

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Assista ao vídeo para entender melhor:

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