Recém-chegado à HBO Max, o suspense Caçada acompanha Anne, que cuida da filha numa cabana isolada enquanto o marido caça um lobo, até que um homem gravemente ferido aparece do lado de fora.
Joseph Mersault entra na floresta atrás de um lobo que anda devorando os bichos presos nas armadilhas da família, e demora a voltar. Na cabana, isolada no meio do mato canadense, ficam a mulher, Anne, e a filha, Renee, contando os dias. É dessa espera que Caçada (Hunter Hunter, 2020) explora a sua tensão.
Escrito e dirigido por Shawn Linden, o suspense canadense estreou em dezembro de 2020, em plena pandemia, num punhado de salas nos Estados Unidos e arrecadou pouco mais de 32 mil dólares nas bilheterias. Passou batido, mas tem 94% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes.
Os Mersault vivem da venda de peles, ofício que a família de Joseph mantém há três gerações. A pele, porém, vale cada vez menos, a temporada está fraca e Anne (Camille Sullivan) quer se mudar para uma cidade onde a filha possa frequentar a escola. Joseph (Devon Sawa, de Premonição, 2000) insiste em seguir vivendo da terra. E Renee (Summer H. Howell) fica do lado do pai, porque quer aprender o trabalho e seguir os passos dele.
Na trilha do lobo, Joseph encontra corpos mutilados no meio da floresta e começa a duvidar que um animal seja o responsável. Enquanto isso, a ausência dele se prolonga. Anne tenta acionar a polícia local, mas o pedido esbarra numa disputa de jurisdição, e mãe e filha seguem por conta própria.
Então, numa noite, um barulho do lado de fora faz Anne correr até a porta achando que é o marido. Quem está lá é Lou (Nick Stahl, o John Connor de O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas, 2003), um desconhecido largado para morrer, com ferimentos graves. Anne o leva para dentro e passa a cuidar dele.
Conforme Lou se recupera e Joseph segue sem dar notícia, a desconfiança de Anne cresce. O predador que a família imaginava lá fora, entre as árvores, vai ficando cada vez mais perto de casa, e o filme caminha para uma noite em que tudo converge de forma violenta.
Antes de chegar lá, Linden gasta tempo com a rotina da cabana. Joseph cria a filha para herdar o ofício, e Anne acompanha aquela vida mais por compromisso com a família do que por gosto. O ritmo é de queima lenta, e a trilha de Kevon Cronin fica mais grave e mais escura à medida que o perigo aumenta, como se descesse junto com a família para dentro da floresta.
Caçada é o terceiro longa de Linden, que nasceu em Winnipeg e começou a carreira no departamento de arte, antes de assinar mais de trinta roteiros para cinema e TV. Os anteriores foram os suspenses Nobody (2007) e The Good Lie (2012). O filme foi rodado na mesma província onde ele cresceu, Manitoba, e é uma coprodução entre Canadá e Estados Unidos.
A recepção foi calorosa. Richard Whittaker, do Austin Chronicle, colocou o filme entre os momentos extraordinários do terror recente, e Christy Lemire, do programa FilmWeek, disse ter ficado impressionada com o tanto que Linden consegue fazer num filme tão pequeno e econômico.
Quase toda resenha, no entanto, concorda num ponto: o filme pertence a Camille Sullivan. Atriz de longa carreira na televisão canadense, ela sustenta a mudança de Anne, da mulher que topou a vida escolhida pelo marido à mãe que, sozinha com a filha e um estranho dentro de casa, toma decisões cada vez mais extremas para proteger as duas. Quando o filme passou pelo Slash Film Festival, em Viena, em 2021, o catálogo previa que o final, entregue a Sullivan, seria um dos assuntos mais comentados daquela edição.
Esse final é o motivo pelo qual Caçada circula de boca em boca entre fãs de terror desde o lançamento, e também o motivo de um aviso para quem é sensível à violência: o desfecho é gráfico, e há cenas com animais mortos ao longo da história. O que, convenhamos, combina com o título que repete a palavra: nessa floresta, todo mundo caça alguém.
Caçada está disponível na HBO Max.
Confira o trailer do filme:

Formado em Cinema pela FAAP, Herbert Bianchi é um fervoroso defensor de filmes lentos. Sua experiência morando em Budapeste — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — o levou a fundar o Cinema Guiado em 2023, plataforma onde exerce a nobre função de tradutor do que os filmes comunicam sem dizer.

