O Bastardo chegou no Prime Video contando a história do soldado e explorador Ludvig Kahlen, que explorou e cultivou uma região selvagem que hoje constitui a grande maioria do território da Dinamarca.
Em 1755, depois de 25 anos de serviço militar, o capitão Ludvig Kahlen se aposenta com uma pensão miúda e um plano que parece loucura, mas é história real: cultivar um terreno na Jutlândia, uma planície de vento onde a terra resiste a qualquer plantio. Em troca, ele pede ao rei um título de nobreza. É esse homem obstinado que Mads Mikkelsen interpreta em O Bastardo (2023), drama histórico dinamarquês que tem 97% de aprovação entre os 130 críticos reunidos no Rotten Tomatoes e chegou à lista final do Oscar de Melhor Filme Internacional.
O título vem da origem do protagonista. Kahlen é filho de um nobre que o rejeitou e o mandou para o exército, e o brasão que ele persegue na charneca funciona como reparação. Por isso ele se comporta como aristocrata mesmo vestido com a roupa gasta de soldado, e encara o frio e a terra dura com a mesma teimosia.
O obstáculo tem nome e sobrenome. Frederik de Schinkel (Simon Bennebjerg), dono das terras vizinhas, trata a charneca como propriedade sua e enxerga no capitão uma ameaça ao próprio poder. Schinkel faz o possível para que ninguém aceite trabalhar para o recém-chegado. Mas Kahlen encontra mão de obra onde a lei proíbe.
Ele passa a abrigar, escondidos, Ann Barbara (Amanda Collin) e o marido, um casal de servos que fugiu dos maus-tratos de Schinkel. Depois, contrata um grupo de ciganos, prática ilegal na Dinamarca da época, e ganha a companhia de Anmai Mus (Melina Hagberg), uma menina que ele flagra tentando roubá-lo. A aposta agrícola é modesta e concreta: batatas trazidas da Alemanha. Conforme a lavoura avança, a casa do capitão vira uma família improvisada, e a hostilidade de Schinkel cresce junto, até convergir de forma violenta.
Há ainda uma terceira frente. A prima de Schinkel, prometida a ele em casamento contra a própria vontade, vê no capitão uma saída. Se Kahlen conquistar o título dentro de um ano, ela escapa do noivo. A disputa por terra ganha, assim, um prazo.
O tom se define pela paisagem e pelo rosto do protagonista. A crítica da Time Out observou que Nikolaj Arcel faz o espectador sentir o vento cortante nas costas de Kahlen, e que Mikkelsen comunica o amolecimento do personagem pelas menores expressões. É um épico de época com ossatura de faroeste, e a própria síntese da crítica no Rotten Tomatoes usa essa comparação. A fotografia de Rasmus Videbæk, em tela larga e sob céus cinzentos, lembrou a Maxance Vincent, do site Film Speak, os quadros de Sergio Leone.
O diretor Nikolaj Arcel reencontra Mikkelsen mais de uma década depois de O Amante da Rainha (2012), outro drama histórico dinamarquês, indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro. Entre um e outro, Arcel passou por Hollywood com A Torre Negra (2017), adaptação de Stephen King massacrada pela crítica. O roteiro de O Bastardo, escrito com Anders Thomas Jensen, adapta o romance O Capitão e Ann Barbara (2020), de Ida Jessen.
A história real está na base, com liberdades de ficção. Ludvig von Kahlen existiu e, em 1755, ergueu perto de Viborg uma casa que batizou de Kongenshus, a Casa do Rei, em homenagem ao monarca que financiou a empreitada. Schinkel também existiu. Ann Barbara, por outro lado, nasceu da imaginação da romancista.
A carreira do filme começou na competição do Festival de Veneza, em 2023. No European Film Awards daquele ano, Mikkelsen levou o prêmio de melhor ator, e o filme ganhou mais duas estatuetas técnicas.
O coração de O Bastardo está na mudança de alvo do capitão. Kahlen chega à charneca atrás de um sobrenome e, aos poucos, passa a defender com a mesma teimosia as pessoas que dividem a mesa com ele.
O Bastardo está disponível no Prime Video.
Confira o trailer:
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