Lagarta Documentário 2025

O comovente documentário sobre homem que viaja à Índia para mudar cor dos olhos

Em Lagarta, um cabeleireiro birracial de Miami com depressão busca numa transformação controversa a chance de, enfim, se sentir visto.

David Taylor quer que as pessoas olhem para ele e o enxerguem. E em algum momento dessa busca, ele encontra a BrightOcular, uma empresa indiana que promete transformar vidas mudando permanentemente a cor dos olhos dos clientes. A promessa é simples: olhos claros, vida nova. David compra. E esta história é real.

Lagarta (2025), um documentário estadunidense dirigido por Liza Mandelup, acompanha a jornada deste homem de Miami até uma sala de cirurgia na Índia. O filme tem 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, foi escolha da crítica do New York Times de 2025 e venceu o prêmio do júri no Nashville Film Festival, mas passou totalmente batido no Brasil.

David é um cabeleireiro birracial e queer, na casa dos cinquenta anos, que carrega desde a infância uma relação complicada com a própria imagem. Em suas conversas com a câmera, ele fala de racismo, de não se encaixar, de uma necessidade profunda de se sentir aceito. A mãe de David é uma presença constante no filme, afetuosa à sua maneira, e preocupada com o que o filho é capaz de fazer consigo mesmo para se sentir melhor. Quando David conta a ela sobre a cirurgia, a resposta é definitiva: ela pariu um homem bonito e nada vai mudar isso.

A cirurgia que David persegue é um implante artificial de íris, feito com um silicone de grau médico inserido sobre o olho. O procedimento não é aprovado pela agência reguladora dos Estados Unidos e só é realizado em clínicas fora do país. A BrightOcular convida David para fazer parte de um grupo de pacientes que viajará à Índia em troca de divulgação. Ele topa.

Para alguns, trocar a cor dos olhos é mais um retoque numa trajetória longa de cirurgias estéticas. Para David, é a operação que vai curar a rejeição que ele sente desde a infância. O contraste entre essas motivações é um dos nervos sensíveis do filme. Nenhum dos pacientes que David encontra na Índia é branco, e o documentário deixa essa constatação para os espectadores julgarem.

A fotografia de Benjamin Whatley tem uma textura quente e cuidadosa, quase novelesca, que faz o espectador esquecer, em certos momentos, que está diante de pessoas reais tomando decisões reais. A trilha sonora reforça essa sensação, envolvendo as cenas num clima que oscila entre o onírico e o ameaçador. O resultado é um documentário que funciona como um thriller psicológico, porque a tensão vem de dentro do personagem, e porque o espectador percebe os riscos antes que David consiga enxergá-los.

Liza Mandelup é uma documentarista que pensa em beleza como moeda de troca. Seu primeiro longa, Jawline (2019), investigava a fama adolescente nas redes sociais e rendeu o Prêmio Especial do Júri para Cineasta Emergente no Festival de Sundance. Em Lagarta, a pergunta se aprofunda: o que acontece quando alguém aposta a própria saúde na promessa de que uma mudança estética vai resolver o que dói por dentro?

No Rotten Tomatoes, os dez críticos que avaliaram o documentário deram aprovação unânime. A Paste Magazine chamou o acesso de Mandelup ao personagem e à sua jornada de impressionante. Ben Kenigsberg, no New York Times, escreveu que parte do que a diretora registra vem de observação afiada, e parte vem de acaso extraordinário.

O coração de Lagarta está nesse descompasso entre o corpo que David quer e a aceitação que ele precisa. O filme acompanha o processo com ternura, mas não esconde que a BrightOcular vende um sonho num mercado que não fiscaliza o resultado. A força do documentário está em nunca transformar David em exemplo ou advertência: ele é alguém que sente dor e que toma uma decisão arriscada tentando aliviá-la.

Lagarta (Caterpillar) está disponível no Prime Video sem custo adicional.

Confira o trailer:

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