Em ‘Entre os Templos’, um cantor de sinagoga em crise depois da morte da esposa reencontra sua ex-professora de música no pior momento de sua vida.
Ben Gottlieb (Jason Schwartzman) trabalha como cantor litúrgico em uma pequena sinagoga do interior do estado de Nova York. Ou trabalhava, porque o cantor não canta mais. Desde a morte da esposa, uma escritora, ele perdeu a voz e algo parecido com a fé. Vive no porão da casa das duas mães, Judith (Dolly de Leon) e Meira (Caroline Aaron), que se revezam entre o cuidado excessivo e a tentativa constrangedora de arranjar uma nova companhia para o filho. O rabino Bruce (Robert Smigel) finge não reparar no cantor que não consegue mais cantar, e a rotina se sustenta pela aparência.
O que quebra essa engrenagem é o reencontro com Carla Kessler (Carol Kane), sua professora de música dos tempos de escola. Décadas depois, aposentada e vivendo sozinha, Carla decide que quer fazer o próprio bat mitzvah, o rito de passagem para mulheres judias que nunca teve. Procura Ben para prepará-la. A distância inicial vira uma amizade improvável entre alguém que perdeu a voz e alguém que só agora está encontrando a sua. É nessa preparação, entre lições de canto e conversas oblíquas sobre luto, casamento e liberdade, que o filme respira.
Nathan Silver filma quase tudo em 16mm, com a câmera próxima dos rostos. A fotografia de Sean Price Williams gruda em pescoços, sobrancelhas franzidas, comida caindo da boca em uma cena de jantar em família que dá muito errado ao mesmo tempo, e que é o momento cômico mais desconcertante do filme. O humor nasce dessa proximidade constrangida, com um afeto genuíno pelas pessoas que estão desmoronando na mesa.
Silver é um diretor independente prolífico de Nova York, formado pela Tisch, filho da atriz Cindy Silver, que costuma aparecer em pequenos papéis nos filmes do próprio filho. Entre os Templos é seu nono longa e o de maior alcance até aqui: teve estreia mundial na Competição do Festival de Sundance em janeiro de 2024, foi selecionado para a mostra Panorama do Festival de Berlim no mês seguinte e conseguiu distribuição pela Sony Pictures Classics.
No Rotten Tomatoes tem 84% de aprovação em 119 críticas, com destaque quase unânime para a química entre Schwartzman e Carol Kane. Escrevendo para o Tribune News Service, Katie Walsh disse que “talvez não exista neste ano um filme mais autêntico e puramente divertido”. Vários críticos aproximaram o resultado de Ensina-me a Viver, de Hal Ashby, pela dinâmica entre um jovem paralisado pelo luto e uma mulher mais velha que reintroduz a vida no jogo.
Vale registrar o elenco de apoio, porque ele carrega a comédia junto com os dois protagonistas. Dolly de Leon, que veio das câmeras internacionais depois de Triângulo da Tristeza, é a mãe que sabe exatamente onde apertar. Caroline Aaron, veterana dos filmes de Woody Allen e de A Fabulosa Sra. Maisel, é a outra mãe, mais suave e mais insistente. Robert Smigel, comediante conhecido nos Estados Unidos pelas parcerias com Adam Sandler, faz um rabino de uma perplexidade meiga que sustenta cenas inteiras.
É um filme afetuoso com dois personagens em pontos opostos da vida que descobrem estar no mesmo ponto de qualquer coisa. Entre os Templos está disponível no Prime Video sem custo adicional.
Confira o trailer:

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