Sobre a eternidade

5 filmes para quem acha que já viu de tudo no cinema

De um casal flutuando sobre uma cidade em ruínas a uma festa que vira pesadelo, estes títulos empurram os limites do que você imagina que uma história no cinema ainda pode fazer.

Tem gente que jura ter visto tudo o que o cinema pode oferecer: reviravoltas, gêneros, técnicas, ousadias. Mas basta uma sessão bem escolhida para provar o contrário. Os cinco filmes desta lista não pedem licença para quebrar regras que a maioria dos roteiros ainda segue à risca. Aqui, as histórias fogem da ordem cronológica e dos finais bem explicados.

Passam por Cannes, por Veneza e até pelo Oscar, mas o que os une é a disposição de desconfiar da própria forma como se conta uma história. Se você acha que já dominou os truques do cinema, vale medir essa certeza contra estes cinco filmes: cada um mexe numa regra diferente, seja o tempo, o desfecho ou a própria ideia de protagonista.

5.

Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020)


O suspense psicológico estadunidense Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020) abre com uma premissa simples: uma jovem (Jessie Buckley) viaja com o namorado Jake (Jesse Plemons) para conhecer os pais dele (Toni Collette e David Thewlis) numa fazenda isolada.

A partir daí, o diretor Charlie Kaufman, vencedor do Oscar de Roteiro Original por Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, desmonta qualquer expectativa de linearidade. Baseado no romance homônimo de Iain Reid, o filme troca os nomes da protagonista, distorce cenários e embaralha décadas dentro da mesma cena, sem nunca avisar quem assiste. A crítica reagiu bem: o filme mantém 82% de aprovação no Rotten Tomatoes. É um daqueles casos em que a confusão é o ponto, não o defeito.

Está disponível na Netflix.

4.

Dente Canino (2009)

Dente Canino


O drama grego Dente Canino (2009) segue três irmãos adultos que nunca saíram de casa. Os pais, com Christos Stergioglou no papel do patriarca, criaram um sistema fechado de regras e significados falsos para as palavras, mantendo os filhos isolados do mundo.

O diretor Yorgos Lanthimos, que na época assinava seu terceiro longa, constrói o desconforto sem sustos nem violência explícita: basta mostrar o absurdo cotidiano daquela família com naturalidade. O filme levou o prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2009 e chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, representando a Grécia. Angeliki Papoulia, no papel da filha mais velha, carrega boa parte da tensão física da história.

Está disponível na MUBI.

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3.

A Garota da Agulha (2024)

A Garota da Agulha


Ambientado na Copenhague do pós-Primeira Guerra Mundial, o drama dinamarquês A Garota da Agulha (2024) acompanha Karoline (Vic Carmen Sonne), uma operária têxtil que perde o emprego ao engravidar do patrão e encontra em Dagmar (Trine Dyrholm) uma aparente salvação.

O diretor sueco Magnus von Horn filma tudo em preto e branco, com uma fotografia que remete ao expressionismo alemão dos anos 1920, e usa como base o julgamento real de uma das assassinas em série mais conhecidas da história dinamarquesa. O filme estreou na competição principal do Festival de Cannes de 2024, foi selecionado pela Dinamarca para a categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2025 e rendeu indicações ao Prêmio EFA tanto para Sonne quanto para Dyrholm.

Está disponível na MUBI.

2.

Clímax (2018)

Clímax

O drama francês Clímax (2018) reúne um grupo de bailarinos urbanos para um último ensaio antes de uma turnê. A festa de despedida vira pesadelo quando alguém contamina a sangria coletiva com LSD, e o diretor Gaspar Noé acompanha o caos em planos-sequência longos, que percorrem a pista de dança sem cortes. Sofia Boutella, conhecida por franquias como Star Trek e Kingsman, lidera um elenco majoritariamente formado por dançarinos sem experiência de atuação.

O filme rendeu a Noé o Prêmio de Cinema de Arte da Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes de 2018. É um exercício de sensação física mais do que de trama: a história praticamente para de existir na segunda metade.

Está disponível na Reserva Imovision.

1.

Sobre a Eternidade (2019)

Sobre a eternidade


O sueco Roy Andersson não conta uma história em Sobre a Eternidade (2019, lançado em Portugal como Da Eternidade): ele empilha cenas curtas e isoladas, quase sempre filmadas em plano fixo, sobre um padre que perdeu a fé, um casal flutuando sobre uma cidade destruída pela guerra, um pai que para na chuva para amarrar o cadarço da filha.

Não há protagonista fixo nem arco narrativo tradicional. Cada vinheta poderia existir sozinha, e ainda assim o conjunto soa como uma única reflexão sobre a experiência de estar vivo. O filme rendeu a Andersson o Leão de Prata de Melhor Diretor no Festival de Veneza de 2019. É o tipo de proposta que reorganiza a expectativa do que uma obra precisa ter para funcionar.

Está disponível na Reserva Imovision.

O que aproxima esses cinco filmes não é o gênero, é a disposição de desconfiar da fórmula. Dente Canino usa o absurdo cotidiano para expor uma estrutura de poder familiar. Sobre a Eternidade abre mão até do enredo. Cada um resolve, à sua maneira, abandonar alguma regra que quem assiste costuma dar como certa.

Nenhum promete facilidade. Prometem, isso sim, lembrar por que ainda vale a pena se surpreender com cinema, mesmo depois de anos de sessões. Achar que já viu tudo é, no fim, apenas não ter topado ainda com o filme certo.

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