Em Resistência, John David Washington é um ex-agente enviado para matar o Criador de uma inteligência artificial, e descobre que a arma que precisa destruir é uma criança.
A ficção científica estadunidense Resistência (The Creator, 2023) traz John David Washington, o mesmo de Tenet e de Infiltrado na Klan, e foi dirigida por Gareth Edwards, que assinou Rogue One: Uma História Star Wars. O filme disputou dois Oscars na cerimônia de 2024 e, mesmo assim, passou meio batido por aqui. Hoje ele está na Netflix, e talvez você nem tenha se deparado com ele.
A história se passa em 2070. Quinze anos antes, uma explosão nuclear em Los Angeles foi atribuída à inteligência artificial, e o mundo se dividiu: os Estados Unidos e parte do Ocidente passaram a caçar as máquinas, enquanto, no Oriente, robôs e humanos seguiram convivendo. Joshua (John David Washington) é um ex-agente das forças especiais que perdeu a esposa, Maya (Gemma Chan), no meio dessa guerra. Ele é recrutado para uma missão: encontrar e matar o Criador, o arquiteto misterioso por trás de uma arma capaz de encerrar o conflito de vez. Quando chega ao território inimigo, descobre que essa arma é uma criança.
É nessa virada que o filme encontra seu centro. A criança, vivida pela estreante Madeleine Yuna Voyles, cria um conflito natural e humano, e a relação que se forma entre ela e o soldado sustenta boa parte da história. Washington faz um homem endurecido pela perda que vai, aos poucos, hesitando diante do que lhe pediram para fazer. A troca entre os dois é o que segura o filme quando a trama se enrosca nos próprios saltos de tempo. No elenco ainda aparecem Allison Janney, vencedora do Oscar por Eu, Tônia, como a coronel que comanda a caçada, e Ken Watanabe, de A Origem.

Vale dizer onde Resistência mais se destaca. Edwards, que começou a carreira justamente como artista de efeitos visuais, filmou boa parte do longa em locações reais espalhadas pela Ásia, na Tailândia, no Nepal e no Vietnã, e foi acrescentando a ficção científica por cima depois. O resultado tem uma textura incomum para o gênero: as paisagens parecem mesmo existir, e os robôs convivem com elas sem aquele aspecto de cenário montado. Tudo isso por cerca de 80 milhões de dólares, um orçamento modesto perto de outras superproduções, o que torna o feito ainda mais notável.
Esse capricho técnico foi reconhecido. Resistência concorreu a dois prêmios no Oscar de 2024: Melhores Efeitos Visuais e Melhor Som. Antes disso, levou cinco estatuetas no Visual Effects Society Awards, a principal premiação da área. Os efeitos saíram da Industrial Light & Magic, a mesma casa por trás de Star Wars, e parte deles foi construída ainda durante a filmagem, com os profissionais de efeitos no set, ao lado do diretor.
A crítica se dividiu quanto ao roteiro, escrito por Edwards e Chris Weitz. Alguns apontaram que a trama bebe demais em clássicos do gênero, de Blade Runner a Akira, e que explica mais do que precisaria. Mas mesmo as resenhas mais reservadas reconheceram a ambição e a beleza do que está na tela. É um filme que olha para a inteligência artificial sem o pânico fácil, propondo a pergunta de se essas criações merecem alguma forma de empatia. Para um blockbuster original, fora de franquia, lançado quase no escuro durante as greves de Hollywood, já era bastante.
Gareth Edwards não é estreante. Antes de Resistência, ele dirigiu Monstros (2010), o Godzilla de 2014 e Rogue One, e tem um talento claro para colocar histórias humanas dentro de mundos enormes. Aqui ele faz isso por conta própria, sem uma marca gigante por trás, e o esforço aparece em cada quadro. Seu trabalho e o da equipe foram reconhecidos onde mais importava para um filme assim: na parte técnica.
Se você gosta de ficção científica e deixou esta passar, é a hora de corrigir isso. Resistência está disponível na Netflix. Veja hoje antes que suma.
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