Dia D Steven Spielberg

Crítica | ‘Dia D’ não é um filme sobre alienígenas (e isso é bom)

Com Emily Blunt como profeta involuntária e Janusz Kaminski na câmera, Spielberg entrega o mais humano de seus filmes sobre extraterrestres.


Aviso: O texto a seguir contém spoilers.

Em 8 de maio de 2026, o Pentágono liberou 162 arquivos desclassificados sobre OVNIs e Fenômenos Anômalos Não Identificados. Menos de um mês depois, Dia D chegava aos cinemas brasileiros. A coincidência turvou a linha entre ficção e realidade de um jeito que poucas vezes acontece.

Dia D (no original, Disclosure Day) estreou no Brasil em 10 de junho de 2026 pela Universal Pictures. A missão declarada era confirmar que Steven Spielberg ainda sabe o que está fazendo na ficção científica — terreno que não pisava desde A.I. – inteligência artificial, em 2001. O resultado é um blockbuster que, apensar do sentimentalismo de costume, trata o espectador como adulto: entretém, mas também questiona.

A escolha estrutural mais ousada do roteiro de David Koepp é jogar o espectador direto no segundo ato, sem avisos. Daniel Kellner (Josh O’Connor) já sabe que alienígenas existem, já roubou as provas e já está na mira da organização Wardex, chefiada pelo sombrio Noah Scanlon (Colin Firth). O encontro próximo foi omitido de propósito. O filme decide que o que importa não é o descobrimento, mas a escolha feita depois dele. É uma virada narrativa que transforma o que poderia ser mais um thriller alienígena em algo mais próximo de um filme político sobre o custo da verdade.

Com quatro linhas narrativas convergindo para um ponto de ruptura (Daniel, Margaret, Hugo e Noah), Spielberg aciona o modo que melhor domina: câmera em movimento permanente, pressão constante, pouco espaço para respirar. Janusz Kaminski (vencedor do Oscar por A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan) é o operador de tudo. Um plano-sequência de aproximação a uma fazenda resolve no enquadramento o que outros diretores resolveriam no corte; a perseguição envolvendo carro e trem usa a velocidade como argumento narrativo. John Williams amplifica a tensão com a discrição de quem conhece o tempo exato de entrar e sair.

O personagem mais extraordinário do filme é Margaret Fairchild (Emily Blunt), meteorologista que passa a enxergar a história de vida das pessoas apenas olhando para elas e falar numa língua que não soa humana.

Emily Blunt Dia D
‘Dia D’ é o retrato de um mundo em que o diálogo e a empatia já não existem

O que diferencia Margaret e Daniel dos heróis tradicionais de Spielberg é que nenhum deles escolheu o que se tornou. Eles foram escolhidos por aptidão, não por vontade. É uma distinção que Josh O’Connor e Blunt trabalham bem, demonstrando desconforto genuíno, o que acaba dando ao filme uma dimensão mais humana.

Ao lado deles, Colman Domingo como Hugo Wakefield (líder dos dissidentes que quer liberar ao mundo todo o material sobre alienígenas) e Firth como Noah representam os dois lados do mesmo dilema. Spielberg orientou o argumento ideológico através da postura física dos atores: quem guarda a verdade se curva sob o peso dela; quem a abraça se ergue. Domingo tem a autoridade serena de alguém que você seguiria para qualquer lugar. Toque de gênio.

O roteiro de Koepp tem alguns tropeços com diálogos que explicam o que a imagem ou o subtexto já revelou. Mas o filme é o mais humano de Spielberg sobre o assunto: em determinado momento, uma equipe recria cenários para provocar respostas emocionais num personagem. Spielberg (que em Os Fabelmans, de 2022, remontou em película a memória da própria família) coloca essa cena com o propósito de mostrar que cinema é um artifício capaz de acessar lugares que, muitas vezes, só a razão não acessa.

As cenas finais de “Dia D” estão entre as mais emocionantes da carreira de Spielberg, de maneiras que você jamais imaginaria. A pergunta central do filme é: o que aconteceria se nós, finalmente, soubéssemos a verdade sobre alienígenas? Isso nos uniria ou nos dividiria ainda mais? Jane (Eve Hewson), namorada de Daniel sequestrada pela Wardex, tem uma cena marcante com sua ex-Madre Superior (Elizabeth Marvel), em que coloca diretamente esse impasse.

A última palavra do filme — “ouça” — sozinha na tela, soa menos como gancho e mais como uma declaração de princípio. Spielberg ainda acredita no poder do diálogo e da empatia — e essas coisas, sem escuta, simplesmente não têm como existir.

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Confira o trailer:

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