Devoradores de Estrelas

8 perguntas não respondidas sobre ‘Devoradores de Estrelas’

O maior sucesso de ficção científica de 2026 até agora, ‘Devoradores de Estrelas’, tem uma duração de mais de duas horas e meia e, ainda assim, não tinha como o filme incluir todos os detalhes do livro de Andy Weir de 2021, no qual foi baseado. Por isso, o filme pode ter te deixado com algumas dúvidas sem resposta. Depois de consultar o livro original, encontrei algumas informações importantes que não apareceram no filme e podem mudar totalmente o seu entendimento do filme.

Vamos à elas.

8.

O que Grace realmente sabe no início da história?

Quando Ryland Grace (Ryan Gosling) acorda em uma espaçonave no início do filme sofrendo de perda de memória, ele não se lembra de como foi parar a bordo da nave, nem lembra qual é a sua missão. O que os espectadores do filme podem não perceber, entretanto, é que Grace também não tem memória de quem ele é, nem mesmo de seu próprio nome.

O filme dá uma dica sobre isso. Quando Grace consegue usar algum equipamento científico complexo, ele diz para si mesmo: “Por que eu sei disso? Sou inteligente?” Isso mostra que ele não se lembra quem é e só gradualmente vai juntando as peças. Porém, muitas pessoas no público podem não ter entendido o que realmente estava acontecendo aqui, pensando que era apenas um herói de cinema brincando com seu ego.

No livro, Grace fica bastante ansioso com sua amnésia. Sua memória volta em etapas, começando com ele lembrando de um e-mail. A decisão do filme de não usar isso, porém, talvez não seja uma grande perda. Embora o esquecimento de eventos recentes de Grace tenha um papel importante na trama e sirva a um propósito dramático, o esquecimento de toda a sua vida serve apenas para nos permitir aprender mais sobre ele, por meio de flashbacks, ao mesmo tempo que ele.

7.

Por que exatamente ele perdeu a memória?

Ao assistir ‘Devoradores de Estrelas’ você provavelmente pensa que já sabe a causa da amnésia de Grace. Graças ao coma, é claro. Afinal, o coma causa problemas mentais de longo prazo, incluindo perda de memória. Uma das primeiras falas do filme, inclusive, é uma voz de robô declarando que a perda de memória está entre os efeitos colaterais do coma.

O livro oferece uma explicação bem diferente. Embora Grace acorde presumindo que o coma provocou sua amnésia, assim como o filme sugere, mais tarde ele se lembra da verdadeira causa. Quando Eva Stratt (Sandra Huller) e sua equipe o recrutaram para a missão, eles injetaram drogas especiais que induziram a amnésia em Grace. Fizeram isso porque a recusa dele em se juntar à missão poderia significar que a sua resistência o impediria de cumprir os seus objetivos. Acordar sem memória e depois ir relembrando lentamente da missão, parecia a melhor estratégia.

Stratt previu que ele culparia o coma pela amnésia e então faria o possível para realizar suas tarefas, sem se lembrar de que havia lutado contra a missão. E como podemos ver, o plano dela funcionou perfeitamente.

6.

Por que forçar Grace em vez de levar outra pessoa?

Como as autoridades temiam que Grace não cumprisse voluntariamente sua missão, a decisão de forçá-lo a entrar na nave contra sua vontade soa bem estranha. No filme, eles dizem que precisam de um oficial cientista substituto, e Grace é uma especialista em alienígenas, mas isso não explica a decisão.

Neste ponto da história, Grace compartilhou seu conhecimento sobre os alienígenas “Astrofágicos” com todas as nações do mundo. Mas o mundo tem muitos astronautas mais treinados, que estão mais dispostos do que ele a oferecer suas vidas para esta missão. Um astronauta cientista da reserva deveria ter sido um desses escolhidos, não Grace. Forçar o destreinado Grace a embarcar nos traz à mente a controversa escolha de ‘Armageddon’ (1998) de transformar pedreiros em astronautas, em vez de ensinar astronautas a perfurar rochas.

A questão é que o livro esconde um detalhe crucial aqui: nem qualquer astronauta poderia realizar essa viagem. Um coma tão longo mataria a maioria das pessoas, e apenas aqueles com um gene raro poderiam sobreviver. Acontece que Grace carrega esse gene. Isso é uma grande coincidência e, como resultado, a escolha de alistá-lo à força faz total sentido.

O filme inclui uma referência astuta a este ponto da trama que foi abandonado. Grace diz que todos os astronautas da missão compartilham um gene, “o gene da bravura”.

devoradores de estrela


5.

Mas por que colocar os astronautas em coma?

Aqui está outra pergunta para a qual você provavelmente presumiu que já sabia a resposta, mas o livro revela algo bem diferente. Qualquer um que assistir ao filme presumirá que os astronautas entram em coma pela mesma razão que qualquer viajante espacial de ficção científica entra em animação suspensa (a desaceleração ou interrupção temporária das funções vitais de um indivíduo, por meios naturais ou artificiais, sem causar a morte). O sono permite viajar séculos sem envelhecer e, no senso comum, isso seria como teletransportar alguém para o seu destino.

No entanto, os comas não são animações suspensas. Eles não impedem o envelhecimento; eles apenas deixam o sujeito inconsciente. Além disso, este voo espacial não duraria séculos, mas apenas três anos. A tripulação poderia facilmente manter um ciclo normal de sono-vigília por três anos. Seria muito menos arriscado do que entrar em coma. Na história, inclusive, o coma mata dois dos três membros da tripulação.

Acontece que o romance de Andy Weir fornece uma explicação razoável para os comas. Stratt acredita que os astronautas, se passarem três anos juntos em espaços apertados, se tornariam hostis e poderiam matar uns aos outros. Principalmente sabendo que morreriam no final de qualquer maneira. O coma induzido foi considerado a única maneira para prevenir assassinatos ou suicídios entre a tripulação. O filme descartou esse detalhe talvez por achar muito pesado para uma história esperançosa.

4.

Como os astrofágicos podem servir também de combustível?

Depois que Grace descobre como fazer os alienígenas Astrofágicos se reproduzirem, os cientistas do mundo todo dizem que precisam de milhões de quilos da substância para usar como combustível para uma missão espacial a uma estrela distante. Isso pode confundir alguns espectadores. Os Astrofágicos são alienígenas comendo o Sol, certo? Certo. Ou seja, eles estão consumindo nossa energia, não a produzindo, certo? Certo. Então, como eles podem servir também de combustível?

A resposta curta é a seguinte: a energia nunca é destruída, então os alienígenas que comem o Sol não estão realmente consumindo energia, mas armazenando-a. Se você tiver um número suficiente desses micróbios alienígenas, terá muita energia armazenada.

No livro há uma resposta mais longa, que não foi usada no filme e não cabe trazer aqui.

3.

Por que não aquecer a Terra?

Você pode muito bem se perguntar por que os heróis do filme não podem usar sua autoridade e influência para conter a queda das temperaturas na Terra.

No livro, eles fazem isso, combatendo as mudanças climáticas dos Astrofágicos com mudanças climáticas antropogênicas, isto é, aumentando os níveis de gases com efeito de estufa na atmosfera para cobrir o planeta com uma camada espessa. A longo prazo, isto naturalmente não vai salvar o mundo do desaparecimento do Sol, mas lhe dará tempo, atrasando a queda das temperaturas até que o “Projeto Ave Maria” encontre uma solução final.

Só para matar a sua curiosidade, para liberar esses gases, eles lançam centenas de bombas nucleares na Antártida, o que abre o continente e liberta quantidades insondáveis ​​de metano.

2.

Como Rocky chega em casa?


Bom, sabemos que só há combustível suficiente a bordo da Ave Maria para uma viagem de ida. É por isso que os astronautas que embarcam nela estão condenados a morrer. Com algumas horas de filme, no entanto, o adorável alienígena Rocky (James Ortiz) diz que pode fornecer combustível adicional para que Grace volte para casa. É um imenso sacrifício, pois isso significará que a viagem de retorno de Rocky ao seu próprio planeta levará seis anos a mais.

Isso levanta algumas questões. Da forma como normalmente pensamos nos motores, é necessária (aproximadamente) a mesma quantidade de combustível para chegar a um destino, independentemente da velocidade escolhida. Se você tiver gasolina suficiente em seu carro para chegar a algum lugar, metade dessa quantidade nunca poderá levá-lo até lá, não importa o quão devagar você vá.

É claro que a nave alienígena de Rocky pode usar algum tipo de sistema totalmente diferente, mas o filme não explica nada sobre isso. A questão se destaca porque o filme é bastante preciso sobre a quantidade exata de combustível necessária para a distância que a nave percorrerá.

O romance lida com isso de maneira diferente. Lá, Rocky é capaz de dar combustível a Grace, não como um sacrifício, mas porque sua nave tem combustível de sobra porque sua nave chegou de seu planeta natal muito mais rápido do que sua tripulação esperava. A nave superou as previsões porque a espécie de Rocky não conhecia a teoria da relatividade e não entendia como viajar perto da velocidade da luz afetaria sua percepção do tempo.

1.

Como Grace consegue sobreviver no final?


Lembra que vemos algumas cenas de comida no filme? Grace come ramen cru, sozinho. Mais tarde, ele e Rocky almoçam e cada um fica enojado de ver o outro. O livro detalha isso com mais detalhes e, lá, os hábitos alimentares de Rocky não são nojentos apenas porque parecem escatológicos para nós. O próprio Rocky os considera nojentos e algo para ser feito em particular, nunca em público, semelhante à forma como tratamos nossas funções excretoras.

Pensando em comida, porém, você deve se perguntar que tipo de comida Grace come no final da história, quando ele está morando no planeta Erid de Rocky. É um mundo alienígena, e se Grace não consegue nem respirar a mesma atmosfera dos alienígenas, ele não poderia encontrar algo que possa comer lá. O livro explicita essa questão. Quando Grace pensa em voar de volta para salvar Rocky no final, ele percebe que isso significa sacrificar sua vida.

Mesmo assim, vemos ele vivo e feliz em Erid no final. O segredo para sua sobrevivência? Os Taumoeba, os micróbios predadores que comem os Astrofágicos. Eles não são nativos de Erid, e eles são vida orgânica que Grace pode transformar em pasta comestível. Não é uma dieta muito saborosa, entretanto. Então, ele passa a usar essa pasta para cultivar carne clonada a partir de células de seu próprio corpo. Ele os transforma em “meuburgers”, hambúrgueres feitos com seus músculos clonados.

O filme e o livro terminam exatamente da mesma maneira, com Grace ensinando uma turma de jovens eridianos. Por algum motivo, o filme não encontrou espaço para a cena que acontece no livro imediatamente antes desta, na sala de aula, em que Grace deseenvolve sua estratégia de autocanibalismo. Mas, mesmo assim, acredito que o filme não deixa de ser uma experiência extremamente satisfatória por conta disso.

Pare de perder 90% do que os filmes estão comunicando. No curso Uma Luz no Fim do Filme eu te ensino a enxergar as pistas, símbolos e intenções por trás das cenas.

Você poder também ler a minha crítica de ‘Devoradores de Estrelas’ clicando aqui.

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