‘Bugonia’ começa com uma ideia que, dita em voz alta, soa como uma daquelas teorias que você pode encontrar por acaso às três da manhã na internet e não sabe se ri, se fecha a aba ou se continua lendo.
Bugonia
Direção: Yorgos Lanthimos
Disponível: Prime Video
Avaliação: ★ ★ ★ ★ ☆ (4/5)
Aviso: O texto a seguir contém spoilers.
A premissa de ‘Bugonia’ é cômica, se não fosse trágica: dois conspiracionistas sequestram a CEO de uma farmacêutica porque acreditam que ela é uma alienígena infiltrada na Terra. A diferença é que Yorgos Lanthimos leva a premissa muito a sério. E é justamente aí que o filme encontra seu ponto alto: ‘Bugonia’ não trata a paranoia como piada de internet, mas como forma de organizar o mundo.
Em vez de transformar a conspiração em espetáculo, o filme dedica boa parte da sua duração a observar como esse tipo de pensamento se forma: com lógica, vocabulário próprio e uma convicção sem fissuras.
O sequestro é retratado como um ato de violência inevitável, consequente de um raciocínio que faz total sentido para quem nunca teve qualquer dúvida da sua teoria. Lanthimos não ridiculariza esse processo, ele o expõe com luzes frias, e isso é bem mais perturbador.
O grande achado de ‘Bugonia’ é entender que o absurdo contemporâneo não nasce do caos, mas do excesso de ordem. Tudo precisa ter uma causa, um culpado, uma explicação. “O mundo é complexo demais, então alguém precisa estar por trás disso”. O filme traduz esse impulso com cores fortes: quando a realidade não é suficiente, a paranoia desponta como narrativa. E narrativa hoje vale mais do que muita verdade.

Essa ideia, inclusive, se materializa na mise-en-scène. Os ambientes são limpos, organizados, asfixiantes. Os momentos se alongam. Os diálogos parecem ensaiados como um discurso que já foi repetido muitas vezes na cabeça dos personagens. Tudo transmite a sensação de um mundo onde o delírio é método.
E as atuações, claro, sustentam essa tensão. Emma Stone constrói uma personagem que nunca se entrega completamente ao olhar do espectador. Sua CEO não reage como vítima óbvia, nem como uma vilã clássica. Ela administra a situação como administra tudo: com controle, economia de gestos e uma calma que beira o desespero. Cada gesto parece calculado. Cada resposta, estratégica. A dúvida sobre sua natureza (se é humana ou não) importa menos do que o que ela representa: um poder tão distante que já parece de outra espécie.
Jesse Plemons faz o movimento oposto, mas ainda mais intenso. Seu conspiracionista não grita, não surta, não perde o controle. Ele acredita. E acredita com uma serenidade violenta. Com seu personagem, o filme nos mostra algo essencial: o fanatismo mais eficaz não se apresenta como ira, mas como missão. O fanático tem, antes de tudo, clareza moral. Pelo menos, para a sua moral. Plemons atua nesse registro com inteligência, tornando o personagem menos um louco isolado e mais um sintoma do nosso tempo.
No meio disso tudo, surge Don, o personagem que traz o filme de volta ao chão. Enquanto todos tentam explicar o mundo com teorias mirabolantes, ele reage com dúvida, hesitação, desconforto. Don não domina o discurso, não controla a narrativa. E justamente por isso carrega o peso mais concreto da história. É através dele que o filme revela o custo real dessas perigosas fantasias organizadas: quando ideias tortas viram ação, alguém sempre é atropelado.
‘Bugonia’ é rigoroso sem soar exibicionista. A montagem segura os planos até eles começarem a incomodar. Os planos são rígidos, por vezes asfixiantes. A trilha aparece pouco, quase sempre para tensionar, nunca para aliviar. O filme não promove o choque; prefere o desgaste.
E o desfecho segue essa lógica. Não há salvação. Mas há esperança. Lanthimos pinta um mundo estruturalmente adoecido, mas nem tudo pode ser falso.
No fim, Bugonia não é um filme sobre alienígenas, mas sobre a facilidade com que criamos inimigos externos para evitar encarar nosso colapso interior. Uma fábula amarga que transforma o absurdo em ferramenta de leitura do presente.
Confira o trailer:

Formado em Cinema pela FAAP, Herbert Bianchi é um fervoroso defensor de filmes lentos. Sua experiência morando em Budapeste — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — o levou a fundar o Cinema Guiado em 2023, plataforma onde exerce a nobre função de tradutor do que os filmes comunicam sem dizer.
