O carisma de Nicolas Cage pode salvar a nova série do Prime Video?

‘Spider-Noir’, série live-action estrelada por Nicolas Cage, já está disponível no Prime Video.

O que heróis triunfantes das histórias em quadrinhos têm em comum com detetives fatalistas do Cinema Noir? Além de lutarem contra os bandidos, não muita coisa. Um é sobre-humano, o outro é humano demais, desprovido de poderes especiais — a menos que você considere o idealismo como um. No entanto, esses dois tipos de personagens costumam exercer o mesmo fascínio no imaginário dos jovens, e esses jovens às vezes crescem, tornam-se artistas e pensam: e se…?

Às vezes, os super-heróis de fato começam a vida como uma mistura de noir: o Spirit, Demolidor, Jessica Jones. Mas, às vezes, o noir lhes é imposto. Esse é o caso do Homem-Aranha, que já existia há quase meio século quando uma versão mais velha, mais durona e da época da Grande Depressão foi criada em 2008 como o herói lançador de teias de uma Terra alternativa.

Quando esse Aranha sombrio apareceu na animação Homem-Aranha: No Aranhaverso (2018), Nicolas Cage emprestou sua voz a ele, e agora também cede seu rosto e corpo na série em live-action Spider-Noir, no Prime Video. Mas ainda é a voz que você nota primeiro. Uma confessa mistura dos pilares do noir Humphrey Bogart, James Cagney e Edward G. Robinson — com um peso especial no brado gutural de Robinson —, ela é um bom emblema para uma série que leva a afetuosa pastiche de Hollywood a novos patamares.

Spider-Noir se passa em uma Nova York dos anos 1930 que é costurada de forma agradável, embora um tanto insossa, a partir de estúdios de gravação, efeitos especiais e locações em Los Angeles. O visual, que é crucial para o apelo da série, é mais artificial do que o de produções semelhantes como Pinguim, e isso é apropriado para uma história de super-herói vestida com os trajes do cinema clássico de Hollywood: violência de gângsteres, números musicais enfumaçados, diálogos rápidos de comédia e terror de cientista maluco.

O adolescente angustiado Peter Parker não existe no universo da série, onde Cage interpreta Ben Reilly, um detetive particular cansado que parece apegado ao seu chapéu e ao seu sobretudo. A história de origem de Reilly envolve uma espécie de picada de aranha, e ele teve uma carreira como um combatente do crime chamado Aranha, que já terminou quando a série começa.

Reilly está cercado por outros tipos clássicos do noir, a começar por sua recepcionista cheia de atitude, Janet (Karen Rodriguez). Ela serve de barreira enquanto uma sucessão de outros personagens familiares — uma cantora de cabaré femme fatale (Li Jun Li), um chefe do crime imponente (Brendan Gleeson), um repórter entusiasmado (Lamorne Morris) — circulam pelo escritório. Eventualmente, eles o forçam a tirar da mala o traje do Aranha, um modelo elegante de couro preto com lentes brancas opacas.

Os problemas que eles trazem à porta de Reilly envolvem experimentação biológica e abuso de superpoderes, pelo lado dos quadrinhos, e romance fadado ao fracasso e sofrimento nobre, pelo lado noir. A história resultante de tudo isso é previsível e desprovida de emoção real; sua única tentativa de sentimento genuíno, a inevitável atração entre Reilly e a cantora, é um fiasco. (Para colocar em termos noir, já nasceu morta.)

Spider-Noir tem a vantagem de ser descompromissada e de entender suas próprias piadas; isso, junto com o design de produção, pode convencer você a aceitá-la. Sua evocação do film noir é superficial — e em suas citações visuais de filmes como O Mensageiro do Diabo e A Dama de Xangai, é exatamente raso —, mas não chega a ser desagradável.

A série tem uma verdadeira fonte de suspense: esperar para ver o que Cage fará, dada a oportunidade de interpretar um humano com genes de inseto. Cage e os roteiristas, plenamente conscientes de sua reputação de homem excêntrico, brincam com as nossas expectativas — ele interpreta Reilly de forma contida, na maior parte do tempo, mas em algumas ocasiões o aranha interior se liberta, e Cage entrega a performance de tiques, trejeitos e caretas que nós poderíamos torcer para ver.

O Reilly de Cage é menos um cínico ou um romântico e mais um ator canastrão, e o roteiro se aproveita disso. Quando Reilly entra em um desabafo ao estilo Eugene O’Neill em um salão, há um momento de silêncio antes que os frequentadores do bar riam na cara dele. A própria preparação de Cage para o papel é satirizada quando Reilly pratica seu sotaque à lá Cagney enquanto assiste aos clássicos noir.

É tudo divertido, de um jeito despretensioso, mas não tem muito a ver com o estilo noir. Bogart, Cagney e Robinson eram atores estilizados; Cage também é, mas de uma maneira moderna, mais autoconsciente e autodepreciativa. Colocar-se no ambiente deles é mais uma jogada de marketing, ou um experimento mental, do que um exercício dramático.

O que transparece, devido à relativa contenção da performance, é o carisma inerente de Cage — a qualidade da qual ele às vezes parece querer fugir. No geral, é um prazer passar oito episódios em sua companhia.

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