Touch está na Netflix

Filme sobre homem que cruzou o mundo para entender por que foi deixado para trás estreia na Netflix

Disponível na Netflix, ‘Touch’ é uma história de amor que atravessa 50 anos, dois continentes e a dor mais dura que um ser humano pode carregar.

Em mais um artigo da nossa curadoria de filmes fora do radar que merecem a sua atenção, o Cinema Guiado apresenta o drama romântico islandês Touch, disponível no catálogo da Netflix.

Baltasar Kormákur é o diretor islandês que colocou Keira Knightley à deriva no Pacífico em À Deriva e Jake Gyllenhaal no topo da maior montanha do mundo em Everest. Filmes onde o corpo humano luta contra a natureza selvagem (e costuma perder). Em Touch, ele filma um tipo diferente de sobrevivência: a de um homem de 80 anos que, ao descobrir que está perdendo a memória, pega uma mala e vai para Londres procurar a mulher que amou em 1969, e de quem nunca entendeu por que foi abandonado.

O ponto de partida é uma consulta médica. Kristófer (Egill Ólafsson), viúvo e dono de restaurante na Islândia, ouve do médico que há deterioração avançada de sua memória e que é hora de resolver assuntos pendentes enquanto ainda é possível.

O roteiro oscila entre 2020, com Kristófer chegando a Londres nos dias que antecederam o lockdown global, e 1969, quando um jovem islandês radical (Pálmi Kormákur, filho do diretor) largou um doutorado na London School of Economics para trabalhar na cozinha de um restaurante japonês.

Foi lá que conheceu Miko (Koki) — filha do dono, mulher com uma história que o filme revela devagar, em camadas. Miko é sobrevivente do bombardeio de Hiroshima de 1945 e carrega o estigma social imposto aos hibakusha, como são chamados os sobreviventes no Japão.

Touch é adaptação do romance homônimo de Ólafur Jóhann Ólafsson, publicado em 2022 e roteirizado pelo próprio autor em parceria com Kormákur. O projeto chegou às mãos do diretor de forma inesperada — a filha de Kormákur deu o livro a ele de presente de Natal. Talvez por isso, o filme tenha a qualidade particular das histórias que alguém conta porque queria contar, não porque identificou uma oportunidade de mercado.

A estrutura em flashback funciona muito bem porque os dois tempos se iluminam mutuamente: o Kristófer jovem e o Kristófer idoso não são o mesmo personagem em fases diferentes — são dois homens que ainda não se entenderam por completo.

A trilha sonora usa referências com parcimônia, destacando-se o uso devastador de Nick Drake e de Lee Hazlewood — cuja canção “My Autumn’s Done Come”, de 1966, paira sobre o Kristófer mais velho como uma validação lúcida e amarga. São escolhas que revelam um diretor atento ao que a música pode fazer por uma história.

Confira o trailer:


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