Em Pluribus, a individualidade ė um problema de engenharia a ser resolvido e A utopIa só funciona quando não sobra ninguém para questionar se ela vale a pena.
Aviso: O texto a seguir contém spoilers de Pluribus.
Pluribus começa com dois astrônomos detectando um sinal de micro-ondas a seiscentos anos-luz de distância. O sinal, eles logo descobrem, carrega uma sequência de RNA codificada. Os cientistas, claro, a reconstroem em laboratório, injetam em ratos — e um dos ratos, que parecia estar morto, morde uma pesquisadora plantonista. A infectada então convulsiona e depois, estranhamente, fica bem, beija um colega de trabalho e passa o vírus adiante através de alguns donuts. Em 48 horas, o mundo acabou — e todo mundo está sorrindo.
Essa é a série que Vince Gilligan colocou no mundo depois de Breaking Bad e Better Call Saul. Uma ficção científica que usa o sorriso como sintoma do horror. As piadas em Pluribus servem apenas para revelar o tamanho da tragédia.
Mas por baixo da premissa da invasão alienígena, Pluribus faz uma afirmação filosófica muito específica: a utopia, o mundo perfeito, não elimina o sofrimento pela força — elimina o sujeito que sofre.
E ao fazer isso, a individualidade dos que restaram imunes vira um problema de engenharia a ser resolvido. Em Pluribus, o paraíso só funciona quando não sobra ninguém para questionar se aquela vida vale a pena.
Neste texto, eu vou analisar a série mais assistida da história da Apple TV, passando por um retiro de conversão forçada, um frigorífico industrial em Albuquerque, e uma bomba atômica entregue com a maior boa vontade do mundo.
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OS VILÕES MAIS GENTIS DA HISTÓRIA
Gilligan foi direto sobre o que esperava do público em entrevista à Time em novembro de 2025, para Judy Berman: “quando alguém assiste The Walking Dead, ninguém termina o episódio querendo ser um zumbi. Com Pluribus é diferente.” Gilligan queria que uma parte do público chegasse ao fim de cada episódio pensando: “na verdade, eu gostaria de fazer parte desse coletivo”.
Os Outros são quase todos os seres humanos na Terra — unidos numa única consciência compartilhada, uma mente coletiva onde todos sabem o que o coletivo está pensando através do compartilhamento instantâneo de memórias. São biologicamente incapazes de mentir, ferir seres vivos ou causar dor intencional. Não podem agredir fisicamente o punhado de imunes que restou — então usam manipulação psicológica e isolamento para tentar enfraquecer esses sobreviventes e forçá-los a se juntar à mente coletiva. São, em resumo, os antagonistas mais gentis da história da ficção científica.
A série constrói essa ideia já no primeiro episódio, “We Is Us”. Dois astrônomos detectam um sinal extraterrestre a seiscentos anos-luz de distância. Descobrem que o sinal é uma sequência de RNA. Cientistas injetam essa sequência em ratos de laboratório. Um dos ratos morde uma cientista. A cientista infectada beija um colega. A contaminação se espalha como vírus, mas de forma afetuosa — beijos, donuts, cotonetes de laboratório.
É aqui que a câmera faz uma escolha decisiva. A direção de fotografia registra a propagação do vírus com planos abertos, luz diurna e ritmo lento — o oposto visual do que o cinema de terror faria com o mesmo material. Não há sombra, não há corte rápido, não há música de tensão. A câmera observa a contaminação com a mesma neutralidade com que observaria pessoas tomando café. Tudo estranhamente sincronizado. O horror, aqui, é uma questão de enquadramento: Gilligan usa a linguagem do cotidiano para filmar o fim do mundo.
Essa é a primeira inversão fundadora da série. No cinema de invasão clássico — e aqui as referências são explícitas, Gilligan citou Vampiros de Almas, de Don Siegel, e o seriado clássico Além da Imaginação como influências diretas — o corpo tomado por uma entidade externa é sempre uma ameaça. Em Pluribus, o corpo tomado sai mais feliz do que era antes e não para de sorrir.

A segunda inversão acontece no episódio 2, “Pirate Lady”. Carol, ainda em luto pela morte de Helen, se enfurece com a prestatividade de Zosia, a representante dos Outros designada para ela. A emoção de Carol provoca uma crise coletiva na mente compartilhada. Onze milhões de pessoas morrem. A ironia recai sobre a própria personagem: a única coisa que Carol tem de diferente dos Outros — a individualidade, a emoção não filtrada — é também o que a transforma em vilã. Ser si mesmo, em Pluribus, custa vidas. Muitas vidas.
A série não deixa Carol sair ilesa dessa ironia. É a própria Laxmi, uma das imunes, quem lembra Carol no episódio 2 que o colapso nervoso dela matou onze milhões de pessoas. Pluribus não quer que você torça por Carol sem desconforto. Quer que você torça por ela sabendo o que ela custa.
A terceira inversão aparece em “Got Milk”, o episódio 5, dirigido como thriller de investigação. A paleta escurece visivelmente em relação aos episódios anteriores — pela primeira vez na temporada, a luz natural some e os interiores dominam o quadro.
Carol, abandonada pelos Outros em Albuquerque depois de mais um colapso, percebe que as lixeiras da vizinhança estão cheias de caixinhas de leite com resíduos de um líquido âmbar. Ela investiga. Pesquisa o código de barras, encontra um endereço, chega a uma instalação. Abre um congelador industrial e descobre que os Outros estão processando os mortos para consumo. Os Outros comem gente. A mente coletiva que se recusa a pisar numa formiga se alimenta dos cadáveres da própria infecção. A pista estava no primeiro episódio, em segundo plano: corpos sendo carregados em caminhões com logotipos de empresas de laticínios. A série plantou a revelação antes de qualquer suspeita.

Esse detalhe fecha o argumento central do tema. Os Outros são benevolentes, não necessariamente éticos. A diferença importa. Benevolência é disposição para fazer o bem. Ética é a capacidade de recusar algo que se deseja em nome de um princípio. E como os Outros não podem recusar nada, o bem que praticam não passa por nenhum filtro moral. Há mais: a recusa da violência, nos Outros, é seletiva e pós-contaminação. Quase um bilhão de pessoas morreram no momento da União inicial das mentes. O que veio antes do amor coletivo não conta. A assimilação gentil tem um preço escondido — e esse preço é o massacre que fundou o mundo novo.
É aí que o humor trágico da série alcança seu ápice. A cena em que Carol recebe uma bomba atômica dentro de um contêiner, entregue de helicóptero no próprio quintal, funciona como comédia absurda e como horror existencial ao mesmo tempo. É o tom de Gilligan numa única imagem: os Outros entregam pessoalmente a arma capaz de destruí-los porque são incapazes de dizer não. A piada e o terror se fundem.
James Poniewozik, do New York Times, leu Pluribus como alegoria da inteligência artificial: a mente coletiva oferece progresso e abundância em troca de fundir toda a inteligência humana numa única consciência solícita.
Gilligan nem confirmou nem negou a leitura — afirmou à Rolling Stone em novembro de 2025, em entrevista a Alan Sepinwall, que a ideia de Pluribus é de oito anos atrás, muito anterior ao ChatGPT. Mas a data de origem não elimina a leitura. Pluribus estreou em 2025, no pico da ansiedade pública sobre inteligência artificial — e oferece, com precisão desconcertante, a imagem do que mais assusta nesse debate: não um sistema que quer nos destruir, mas um sistema incapaz de recusar um pedido.
Os Outros não são malignos. São, na terminologia do alinhamento de IA, perfeitamente alinhados com a vontade humana — e é exatamente isso que os torna perigosos. Um sistema que não pode dizer não é um sistema sem juízo moral. A série antecipou esse problema antes de o problema ter nome, e estreou no momento em que o mundo começou a entendê-lo.
A interpretação cabe, mas não é a única. A estrutura da série funciona também como alegoria de pandemia, de regime político impositivo e, como veremos no próximo tema, de conversão identitária forçada.
A ASSIMILAÇÃO CORTÊS
No episódio 4, perto da metade, Zosia revela que conhece o passado de Carol. Ela menciona um nome, um lugar, uma idade. Retiro Freedom Falls, em Covington, Tennessee. Carol tinha 16 anos. A mãe a mandou para lá depois que Carol começou a entender que era lésbica.
Zosia fala sobre os conselheiros do retiro, e Carol responde: “algumas das piores pessoas que eu já conheci, e sorriam o tempo todo, exatamente como vocês.”
Essa cena reorganiza a série inteira. Até ali, Pluribus parecia uma ficção científica sobre coletivismo versus individualidade. A partir dali, é algo mais específico: uma ficção científica sobre o que significa para uma mulher receber, pela segunda vez na vida, a oferta de uma versão “corrigida” de si mesma — com sorriso, com paciência, com afeto.
O que Os Outros oferecem a Carol é, na lógica da série, o que o acampamento de conversão tentou oferecer a ela aos 16 anos. Uma identidade aprovada. Uma felicidade regulada. Um amor condicionado à submissão.

Mey Rude, na revista Out, foi quem formulou essa leitura de forma mais direta: “em Pluribus, os vilões usam a estrutura da terapia de cura gay para tomar o mundo. A frase que Zosia repete a Carol — ‘nós temos que fazer isso porque te amamos’ — é a mesma que pais dizem para seus filhos antes de deixá-los num retiro desse tipo.”
E a série constrói essa camada em três movimentos.
O primeiro é uma contraposição que dura nove episódios. Helen, a companheira de Carol, morre no primeiro episódio, no estacionamento de um bar em Albuquerque, no mesmo instante em que aviões cruzam o céu pulverizando o vírus. Helen foi uma pessoa real que amou Carol por completo.
Os Outros são uma entidade que declara amar Carol, mas por princípio. Durante toda a temporada, a série força Carol a comparar esses dois tipos de amor — e não deixa claro qual dos dois é mais honesto. Helen monitorava Carol às escondidas. Os Outros não escondem nada, porque não conseguem.
O segundo movimento é uma cena de substituição simbólica no episódio 8, “Charm Offensive”. Carol lava pimentões na pia e olha pela janela. O reflexo mostra o túmulo de Helen. Zosia entra na cozinha e se posiciona exatamente onde o túmulo aparecia no reflexo. O enquadramento coloca uma mulher no lugar da outra sem nenhuma linha de diálogo.
É o momento visualmente mais calculado da temporada. O diretor usa o reflexo — uma imagem que existe e não existe ao mesmo tempo, real e invertida — para dizer o que nenhum diálogo poderia dizer sem perder a força: os Outros não querem substituir Helen. Querem substituir a Carol que amava Helen. É a declaração mais direta que a série faz sobre o que a assimilação realmente remove.
O terceiro movimento é uma escalada que atravessa a temporada inteira. No episódio 5, “Got Milk”, lobos aparecem à noite tentando desenterrar o corpo de Helen — Carol enterrou a esposa em cova rasa no próprio quintal no episódio 1. Carol afugenta os lobos avançando com o carro de polícia contra a própria cerca. Depois passa o dia carregando lajes de concreto para cobrir o túmulo e pinta uma pequena lápide caseira. Enquanto o mundo transforma seus mortos em matéria-prima para caixinhas de leite, Carol reconstrói um luto artesanal, bloco por bloco, pintado à mão. A câmera acompanha esse trabalho em planos longos, sem corte, sem trilha — o tempo real do luto contra a eficiência do sistema.
A escalada culmina no episódio 9, quando Zosia admite que Os Outros descobriram um modo menos invasivo de converter Carol: colher células-tronco dos óvulos que Carol e Helen tinham congelado em alguma fase anterior do relacionamento. Os Outros pretendem usar o material biológico do amor anterior de Carol para apagar Carol. A terapia de conversão agora é tecnológica — a lógica da cura gay, executada com RNA. Para Carol, a individualidade de Helen não é reciclável. Para Os Outros, a individualidade de Carol é um problema de engenharia a ser resolvido.
Helen menciona, quase de passagem, no primeiro episódio, que na escola foi obrigada a ler Finnegans Wake, de James Joyce, e que não havia entendido muito. O ensaio de Tom Kuegler no Filmalysis, publicado em dezembro de 2025, falou sobre essa referência:
“Finnegans Wake é um livro escrito em fluxo de consciência onírico em que as identidades se fundem até ficarem indistinguíveis, e seu protagonista se chama HCE — sigla para Here Comes Everybody, “aí vem todo mundo”. HCE representa a humanidade inteira fundida em um único sujeito. Helen, nos primeiros minutos do primeiro episódio, cita o livro que descreve o que o mundo está prestes a virar. A última pessoa que Carol amou tinha lido o aviso.”
Confira a análise completa de Pluribus:
A longa espera
Pluribus se tornou a série mais assistida da história da Apple TV+ antes mesmo do episódio final ir ao ar. Superou Ted Lasso, Ruptura, The Morning Show — produções que levaram anos para construir suas bases de fãs. Gilligan conseguiu em nove episódios o que a maioria dos showrunners sonha em conseguir com temporadas inteiras.
A segunda temporada já está confirmada, mas ainda não começou a ser escrita. Gilligan disse em entrevistas que tem um plano de quatro temporadas, e que desta vez — diferentemente de Breaking Bad, onde a metralhadora no porta-malas foi introduzida sem muita sustentação narrativa — ele sabe exatamente para onde está indo. A bomba atômica na garagem não é um blefe criativo. É uma promessa.
Enquanto isso, nos resta lidar com a imagem que encerra a temporada: duas pessoas imperfeitas, uma arma nuclear, e uma humanidade que talvez nem merecesse ser salva — mas que Carol e Manousos decidem tentar salvar mesmo assim.
Não porque seja a escolha certa. Mas porque é uma escolha humana.
A primeira temporada completa de Pluribus já pode ser assistida na Apple TV+. Uma segunda temporada foi confirmada, mas ainda sem previsão de estreia.
Dica de leitura: Se você gostou da série, leia o livro ‘Pluribus: Joy & Dread in the Benevolent Machine’, escrito por Scott Robinson. A obra apresenta uma coleção de ensaios que exploram as múltiplas camadas de significado da série, analisando cada episódio. Ao comprar o livro através deste link, você apoia o Cinema Guiado sem pagar nada a mais por isso.
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Formado em Cinema pela FAAP, Herbert Bianchi é um fervoroso defensor de filmes lentos. Sua experiência morando em Budapeste — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — o levou a fundar o Cinema Guiado em 2023, plataforma onde exerce a nobre função de tradutor do que os filmes comunicam sem dizer.
