A atriz francesa Léa Seydoux entrega performances devastadoras em ‘Gentle Monster’, de Marie Kreutzer, e ‘The Unknown’, de Arthur Harari, ambos em Competição no Festival de Cannes 2026, gerando forte buzz para o prêmio de Melhor Atriz.
Léa Seydoux caminha pelo tapete vermelho de Cannes com a tranquilidade de quem já sentiu o peso da fama. Aos 40 anos, a atriz francesa chega ao 79º Festival de Cannes com dois filmes na seção principal da competição. Em ambos, ela se entrega por completo. E o resultado, segundo as primeiras reações, é daqueles que ficam marcados na mente do espectador.
Em Gentle Monster, dirigido pela austríaca Marie Kreutzer (de Corsage), Léa Seydoux vive uma pianista renomada que se muda com a família para o campo. E o que começa como uma busca por tranquilidade logo se transforma em um abismo quando segredos devastadores vêm à tona. O filme lida com temas como pedofilia, confiança traída, amor e violência. Catherine Deneuve também integra o elenco, e as cenas entre as duas atrizes exalam uma densidade palpável.
O que impressiona não é apenas a coragem de Seydoux em cenas de nudez ou de intensa vulnerabilidade emocional, mas a forma como ela controla as emoções no olhar, sem dizer nada. Há momentos em que o rosto dela, iluminado por uma luz quase doméstica, carrega o peso de uma família inteira se desfazendo. O público sai da sessão abalado, comentando a intensidade represada que, de repente, explode.

Já em The Unknown, de Arthur Harari (diretor de Onoda), a proposta é outra, mas igualmente arriscada. O longa, coescrito com Justine Triet (de Anatomia de uma Queda), adapta uma graphic novel do próprio diretor e mergulha em uma fantasia psicológica de troca de corpos. Após um encontro de uma noite, a personagem de Seydoux acorda com a consciência trocada com a do homem.
Aqui, a atriz navega entre o cômico e o perturbador com desenvoltura. Um olhar, um modo de andar, uma hesitação na voz — tudo muda quando a consciência não corresponde mais ao envelope físico. Harari e Triet transformam o conceito em algo profundamente humano, menos sobre efeitos especiais e mais sobre o desconforto de não se reconhecer.
Léa Seydoux não parece preocupada em agradar. Na entrevista concedida durante o festival, ela fala com uma liberdade rara. Cria dois filhos, não se importa com a aparência da forma convencional exigida de estrelas, e escolhe papéis que a desafiam. Ela é livre. E essa liberdade se traduz na tela.
O que une os dois trabalhos é o interesse da atriz pelo desconforto. Seydoux nunca foi de papéis fáceis — de Azul é a Cor Mais Quente até James Bond —, mas aqui ela parece ter chegado a um novo patamar. Em Gentle Monster, o monstro é suave, quase invisível, até que destrói tudo. Em The Unknown, o desconhecido mora dentro de si mesmo.
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O Festival de Cannes 2026 tem reagido com entusiasmo. Críticos apontam Seydoux como forte candidata ao prêmio de Melhor Atriz, e os dois filmes ganham espaço nas conversas sobre possíveis candidatos à Palma de Ouro. No Brasil, ainda não há datas confirmadas de estreia nos cinemas ou plataformas de streaming para nenhum dos dois títulos.
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Formado em Jornalismo, Bruno Gebara é um apaixonado por filmes de baixo orçamento e bandas de rock recém formadas. Seu gosto artístico peculiar o levou a ser convidado para integrar o time de colaboradores do Cinema Guiado, função que exerce desde maio de 2026.




