Em seu primeiro longa após co-roteirizar O Brutalista, Mona Fastvold dirige um musical histórico sobre a fundadora de uma seita religiosa nos Estados Unidos. E o filme conta com uma das atuações mais viscerais de Amanda Seyfried.
O Testamento de Ann Lee
Direção: Mona Fastvold
Ano: 2025
Avaliação: ★ ★ ★ ☆ ☆ (3/5)
O Testamento de Ann Lee é um drama musical histórico de 2025, dirigido por Mona Fastvold, que co-escreveu o roteiro com Brady Corbet. O filme tem Amanda Seyfried como Ann Lee, líder fundadora da seita religiosa Shakers no século XVIII.
A trama acompanha a vida de Ann Lee desde a infância na era pré-industrial de Manchester, na Inglaterra, até sua imigração para as colônias da América do Norte e, mais tarde, sua morte aos 48 anos. Ann Lee era reverenciada por seus seguidores como a versão feminina de Cristo, empenhada em estabelecer uma sociedade utópica na qual se estabeleceria uma convivência pautada na igualdade social e de gênero. O ponto de partida, portanto, é histórico. Mas Fastvold não faz apenas um filme histórico.
O coração de O Testamento de Ann Lee não é a biografia de sua protagonista, mas como uma mulher perseguida, chamada de bruxa pela Inglaterra do século XVIII, converte a dor em doutrina (e a doutrina em dança). É nessa conversão que Fastvold encontra sua voz como diretora.
Fastvold descreve o filme como uma “retratação especulativa” da vida de Lee. Em 1774, Lee emigrou do Reino Unido com oito seguidores e criou a maior sociedade utópica da história dos Estados Unidos, promovendo igualdade completa entre homens, mulheres e pessoas de todas as origens raciais.
Ann Lee pregava o celibato absoluto, recusava a sexualidade como forma de comunhão e, ainda assim, construiu uma das comunidades mais igualitárias do século. A abstinência era seu projeto político.

Meses antes das filmagens, o diretor de fotografia William Rexer, a diretora e o designer de produção Sam Bader se reuniram para discutir a abordagem visual. Estudaram referências dos Mestres Antigos como Caravaggio e o pintor dinamarquês Hammershøi, optando por um estilo “Barroco moderno”: iluminação ambiental com velas e luz natural como fontes primárias, sem o esquema convencional de iluminação de cinema.
A escolha foi ousada. Partindo do “chiaroscuro” característico de Caravaggio como referência, a fotografia de Rexer conduz nosso olhar através de rituais incandescentes, levando até o espectador o poder sedutor irresistível de Lee. Cada cena tem sombras pesadas e luz que chega de um ângulo específico, como se iluminar um rosto fosse já um ato de fé.
As imagens, filmadas em 70mm pelo fotógrafo William Rexer, incluem composições e iluminação que remetem à Idade de Ouro holandesa. Os números musicais, embora às vezes um tanto repetitivos, encontram um ponto de equilíbrio instigante entre o surreal e o ordinário. Esse equilíbrio é onde o filme ganha força. As canções não interrompem a narrativa, elas são a narrativa. Quando Ann Lee e seus seguidores cantam e tremem, não estamos assistindo a um número musical, mas a uma comunidade nascendo.

O filme apresenta mais de uma dúzia de hinos tradicionais dos Shakers, reinventados como movimentos arrebatadores, com coreografia de Celia Rowlson-Hall e canções originais e trilha sonora do vencedor do Oscar Daniel Blumberg por O Brutalista. A decisão de Blumberg de trabalhar diretamente no set — presente em todos os ensaios, tocando teclado enquanto a equipe se preparava — dita a textura do filme.
Blumberg tocava a partitura para as cenas dramáticas enquanto a equipe ensaiava, e esse ritmo e tom foram sendo absorvidos por todos. Toda a equipe entrava no ritmo. Eram um grupo — e, nas palavras de Rexer, funcionavam como um espelho da própria seita: “éramos todos crentes em Mona”. A ironia é perfeita. O processo de produção mimetizou o que o filme filma.
Em primeira análise, o filme fala de fé e de opressão. Ann Lee é presa, perseguida, chamada de bruxa, e mesmo assim não recua. Essa narrativa de resistência feminina contra o patriarcado religioso e civil da Inglaterra do século XVIII tem contornos claros. É um retrato de uma mulher atravessada pelo luto e pela maternidade, buscando na liberdade religiosa uma saída para o sufocamento de sua existência na Inglaterra do século XVIII. Mas Fastvold recusa o martirológio fácil. Ann Lee não é santa sofrida. É líder, às vezes implacável, capaz de impor disciplina sobre os que ama.
No papel da carismática Ann Lee, Amanda Seyfried se liberta de Hollywood e revela dotes musicais. Seyfried recebeu indicações ao Globo de Ouro e ao Critics’ Choice Award de Melhor Atriz por sua atuação.
O Testamento de Ann Lee não convence todo mundo. O resultado soa um tanto frio para parte da crítica, devido à recusa de enxergar a história pelos olhos da protagonista e à sobrecarga de reviravoltas que dificulta a compreensão da psicologia dos personagens. A objeção é legítima. Fastvold deliberadamente mantém Ann Lee como figura a ser observada, mas essa distância é uma escolha, não um acidente. Ann Lee pertence menos ao melodrama do que ao mito — e mitos não explicam, eles simplesmente são.
Onde assistir: O Testamento de Ann Lee está disponível no Disney+.
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Formado em Cinema pela FAAP, Herbert Bianchi é um fervoroso defensor de filmes lentos. Sua experiência morando em Budapeste — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — o levou a fundar o Cinema Guiado em 2023, plataforma onde exerce a nobre função de tradutor do que os filmes comunicam sem dizer.




