Os acionistas da Warner Bros. Discovery aprovaram hoje (23) a aquisição da empresa pela Paramount Skydance. A votação abre caminho para que marcas como CNN, HBO e demais estúdios da Warner se unam à Paramount ainda em 2026
O resultado foi descrito por executivos da Warner como “esmagadoramente” favorável ao negócio, após assembleia especial realizada na manhã desta quinta-feira. O placar foi anticlimático, o que era previsível desde o início, mas simbolicamente relevante em um processo que vem se arrastando há meses.
A Paramount, liderada pelo CEO David Ellison, ainda depende de aprovações regulatórias nos Estados Unidos e em outros países. Os executivos da empresa, porém, estão otimistas em fechar o acordo até o fim do terceiro trimestre, isto é, até 30 de setembro.
Em nota, a Paramount celebrou a votação como “mais um marco importante” no caminho para a fusão das duas gigantes do entretenimento, definindo o resultado como o passo inicial rumo à criação de “uma mega empresa de mídia da nova geração.”
Um ano atrás, as ações da Warner eram negociadas a cerca de 8 dólares. A Paramount está oferecendo 31 dólares por ação — o que tornava o voto favorável uma decisão quase automática para a maioria dos investidores.

O problema é que Hollywood raramente se deixa guiar só pelos números.
A fusão tem sido alvo de intensa controvérsia no mercado audiovisual. Veteranos do entretenimento alertam contra a concentração de mercado, e ativistas criticam a proximidade dos donos da Paramount com o presidente Donald Trump. Opositores realizaram um protesto “bloqueie a fusão” em frente à sede da Warner na manhã desta quinta, momentos antes da votação.
Os grupos contrários ao negócio estão pressionando procuradores-gerais de estados como Califórnia e Nova York a contestar a fusão com base em legislação antitruste. Alguns desses escritórios já sinalizaram que estão examinando o caso de perto, desconfiando que o governo federal dará sinal verde por razões políticas. Autoridades regulatórias europeias também analisam o negócio e podem exigir venda de ativos antes de aprovar.
Enquanto a fusão avançava, outra votação travou. Os acionistas rejeitaram a proposta de pacote de compensação para o CEO David Zaslav e outros executivos que deixarão a empresa. O pagamento a Zaslav poderia chegar a 886 milhões de dólares — um dos maiores “paraquedas dourados” já registrados na história corporativa norte-americana, segundo o Los Angeles Times.
Mesmo assim, o voto dos acionistas sobre esse ponto é apenas consultivo, sem caráter vinculante. O conselho da Warner pode, portanto, autorizar os pagamentos independentemente da votação.
O que resta agora é aguardar os reguladores. Se o prazo de setembro não for cumprido, o valor por ação começa a subir automaticamente — uma cláusula que pressiona a Paramount a correr. O relógio está correndo.

A batalha que a Netflix perdeu
Antes de a Paramount vencer a disputa, a Warner quase foi parar nas mãos da Netflix. Em dezembro de 2025, após colocar a empresa em leilão, o conselho da Warner assinou um acordo com a Netflix para a venda das divisões de streaming e estúdios por cerca de 83 bilhões de dólares.
A Paramount se recusou a aceitar a derrota e lançou uma oferta hostil pela totalidade da companhia — incluindo os canais a cabo que a Netflix não queria. Depois, foi revisando seus termos ao longo dos meses seguintes. Em fevereiro de 2026, o conselho da Warner declarou a proposta da Paramount superior à da Netflix, que optou por deixar a disputa.
A saída custou caro: a Netflix pagou 2,8 bilhões de dólares de multa pela rescisão do acordo. O co-CEO da plataforma, Ted Sarandos, foi direto ao explicar a retirada: a empresa tinha “uma faixa bastante restrita do que estava disposta a pagar” e não quis comprometer sua saúde financeira para cobrir a oferta rival.
Por que a warner estava à venda?
A Warner Bros. Discovery chegou ao ponto de ser vendida por uma combinação de péssimas decisões ao longo de uma década.
O nó original foi a AT&T. A gigante de telecomunicações comprou a WarnerMedia em 2018 por 85 bilhões de dólares achando que conteúdo mais distribuição era o futuro. Não foi. O movimento que parecia estratégico resultou numa crise financeira sem precedentes, e a AT&T saiu pela tangente em 2022, fundindo a WarnerMedia com a Discovery para criar a WBD — e passando o problema adiante.
A fusão de 2022 resolveu pouco e criou mais problemas, trazendo uma carga superior a 50 bilhões de dólares em dívidas, com a maior parte vinda da WarnerMedia, refletindo anos de expansão agressiva e altos custos com conteúdo. O CEO David Zaslav passou os anos seguintes cortando tudo — cancelando filmes prontos, encerrando séries, demitindo em massa — na tentativa de estancar o sangramento.
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As ações da empresa despencaram, acumulando queda de 60% desde a fusão de 2022. Com a dívida ainda em torno de 35 bilhões de dólares e sem perspectiva clara de recuperação, o conselho decidiu, em outubro de 2025, colocar a empresa à venda — ou pelo menos avaliar alternativas estratégicas.
O conselho abriu um processo para examinar um leque amplo de opções: seguir com a separação planejada em duas empresas, vender a companhia inteira ou fazer transações separadas para cada divisão.
No fundo, a Warner não foi colocada à venda porque alguém sozinho decidiu — foi resultado de décadas de má gestão corporativa, dívidas acumuladas e a erosão do modelo de TV a cabo. Com tantos problemas se acumulando, não havia outra saída. Era vender ou quebrar.
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Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP, mas foi morando na Hungria — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — que aprendeu a ler o que os filmes comunicam sem dizer. Em 2023, criou o Cinema Guiado, plataforma editorial independente dedicada à análise, curadoria e reflexão sobre cinema.
