A plataforma perdeu títulos importantes nos últimos meses e a tendência é que o catálogo continue encolhendo
O streaming virou um jogo de cadeiras. Filmes entram e saem das plataformas com uma velocidade que torna qualquer lista de recomendações obsoleta em semanas.
A HBO Max, especificamente, passou por transformações brutais desde a fusão da Warner Bros. com a Discovery em 2022. Títulos desapareceram sem aviso, produções originais são canceladas, e o catálogo que um dia foi motivo de orgulho agora parece cada vez mais esvaziado.
A lógica por trás dessas remoções é puramente financeira, claro. Manter um filme disponível no streaming custa dinheiro — há contratos de licenciamento, royalties, acordos com sindicatos. E quando a Warner decidiu cortar custos a qualquer preço, o catálogo virou alvo fácil.
Filmes que não geravam visualizações suficientes para justificar os custos simplesmente foram removidos. Alguns migraram para outras plataformas, outros simplesmente sumiram do mapa digital.
O problema é que “visualizações suficientes” é uma métrica que ignora valor artístico, relevância histórica ou qualquer critério que não seja uma planilha de Excel.
Obras importantes acabam tratadas como peso morto enquanto conteúdo genérico permanece. É a tirania do algoritmo aplicada ao acervo — e quem perde é o espectador que ainda acredita que cinema pode sobreviver.
A lista a seguir reúne cinco filmes que ainda estão na HBO Max no momento em que escrevo esse artigo, mas que, dado o histórico recente da plataforma, podem não estar amanhã.
Não são necessariamente os melhores do catálogo, mas são obras que merecem atenção e que correm risco real de desaparecer sem aviso. Se algum deles está na sua lista de “assistir depois”, o depois é agora.
Vamos à lista?
5.
Contágio (2011)
Dir.: Steven Soderbergh | 106 min

Você provavelmente já ouviu falar que Contágio “previu” a pandemia de COVID-19. É verdade — e não é. O que Steven Soderbergh fez em 2011 não foi adivinhação, foi jornalismo científico disfarçado de thriller.
Ele consultou epidemiologistas, virologistas e especialistas em saúde pública para construir um cenário tão plausível que, quando o coronavírus chegou em 2020, o filme disparou para o topo das listas de mais assistidos em todas as plataformas.
A mecânica é precisa. Beth Emhoff, uma executiva americana interpretada por Gwyneth Paltrow, volta de uma viagem de negócios a Hong Kong. Ela tosse, parece cansada, atribui tudo ao jetlag.
Dois dias depois, está internada em estado grave. Seu filho também. Seu marido, Mitch, vivido por Matt Damon, é imune. A partir daí, o vírus MEV-1 se espalha pelo planeta numa progressão geométrica que o filme documenta com frieza clínica: Dia 2, Dia 5, Dia 12, Dia 26.
Soderbergh não está interessado em heroísmo individual. Contágio é um filme coral onde acompanhamos médicos do CDC tentando identificar o patógeno, uma epidemiologista da OMS sequestrada na China, um blogueiro conspiracionista que promove curas falsas, um pai tentando proteger a filha adolescente do caos.
Cada linha narrativa revela uma face diferente da resposta humana à catástrofe: o altruísmo dos profissionais de saúde, a corrupção dos que buscam lucro, o pânico das massas, a burocracia que atrasa tudo.
O elenco é absurdo: além de Damon e Paltrow, há Kate Winslet, Laurence Fishburne, Marion Cotillard, Jude Law, Bryan Cranston. Todos em performances contidas, antidramáticas, que reforçam o tom documental. Winslet, em particular, tem uma cena devastadora que não vou estragar aqui.
O que torna Contágio assustador não são os efeitos especiais — quase não há nenhum. É a verossimilhança. O roteirista Scott Z. Burns passou meses pesquisando surtos reais, da SARS à gripe aviária.
Cada detalhe, da origem zoonótica do vírus à corrida pela vacina, foi validado por cientistas. Ian Lipkin, diretor do Centro de Infecção e Imunidade da Universidade Columbia, serviu como consultor e depois afirmou que o filme era o mais preciso já feito sobre pandemias.
Soderbergh admitiu recentemente que subestimou um elemento: a personagem de Jude Law, um teórico da conspiração que espalha desinformação, foi concebida como uma “nota dissonante”.
Os criadores não imaginavam que essa nota se tornaria “dominante” na resposta real à COVID-19. O negacionismo, as fake news, a recusa às vacinas — tudo isso superou as projeções mais pessimistas do roteiro.
Com 85% de aprovação no Rotten Tomatoes e 70 no Metacritic, Contágio é um filme que envelheceu de forma perturbadora. Assistir hoje é fazer um balanço do que aprendemos — e dos erros que cometemos.
4.
DUNKIRK (2017)
Dir.: Christopher Nolan | 106 min

Christopher Nolan fez sua carreira manipulando o tempo. Em Amnésia, ele inverteu a cronologia. Em A Origem, criou camadas de sonhos onde minutos viram horas. Em Interestelar, explorou a relatividade de Einstein. Mas foi em Dunkirk que ele transformou o tempo em personagem principal.
O filme conta a evacuação de mais de 300 mil soldados aliados das praias de Dunquerque, na França, em maio de 1940.
Os alemães avançavam, o exército britânico estava encurralado, e Winston Churchill precisava de um milagre para não perder a guerra antes mesmo de ela começar direito.
O milagre veio na forma de centenas de barcos civis — pesqueiros, iates, lanchas de recreio — que atravessaram o Canal da Mancha para resgatar os soldados.
Nolan estrutura a narrativa em três linhas temporais que se entrelaçam: uma semana na praia (terra), um dia no mar (água), uma hora no ar (céu).
Os letreiros iniciais avisam: “O Cais — Uma Semana”, “O Mar — Um Dia”, “O Ar — Uma Hora”. Parece simples, mas a montagem de Lee Smith corta entre as três linhas de forma não-linear, criando uma sensação de urgência contínua.
Quando as temporalidades finalmente convergem no terceiro ato, o efeito é devastador.
Quase não há diálogos. Não há discursos de motivação. Não há backstories explicando por que deveríamos nos importar com cada soldado. Nolan aposta que a experiência sensorial será suficiente — e acerta.
A fotografia de Hoyte van Hoytema, em IMAX 65mm e 70mm, captura a imensidão das praias e a claustrofobia dos navios afundando com detalhes que você sente na pele.
Hans Zimmer compôs uma trilha que usa a ilusão auditiva conhecida como “Shepard tone” — um truque sonoro que cria a sensação de ascensão contínua, de tensão que nunca alivia. A base rítmica veio do tique-taque do relógio de bolso de Nolan, gravado e manipulado eletronicamente.
O elenco inclui Tom Hardy, Mark Rylance, Cillian Murphy, Kenneth Branagh e, em sua estreia no cinema, Harry Styles. Mas nenhum deles é realmente protagonista. O protagonista é o evento. Ou talvez o medo.
Dunkirk recebeu oito indicações ao Oscar, vencendo três: Melhor Montagem, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.
No Rotten Tomatoes, 92% de aprovação. No Metacritic, 94. Críticos como Peter Bradshaw, do Guardian, e Todd McCarthy, do Hollywood Reporter, chamaram o filme de obra-prima.
Outros questionaram a frieza emocional, a falta de personagens desenvolvidos. Ambas as críticas estão corretas.
Dunkirk não quer que você se apegue a indivíduos. Quer que você sinta o que é estar preso numa praia, com a morte chegando pelo ar e a salvação pelo mar.
É um filme de guerra sem glorificação. Um filme de ação sem heróis convencionais.
Um filme de Christopher Nolan sem um único quebra-cabeça narrativo — apenas a precisão absoluta de um relojoeiro que entende que tensão é uma questão de timing.
3.
Luta por Justiça (2019)
Just Mercy | Dir.: Destin Daniel Cretton | 137 min

Em 1987, Walter McMillian foi condenado à morte pelo assassinato de uma jovem branca em Monroeville, Alabama.
O condado era famoso por um único motivo: era a terra natal de Harper Lee, autora de O Sol É Para Todos, o romance sobre um advogado branco que defende um homem negro falsamente acusado num tribunal sulista. A ironia era brutal demais para ser coincidência.
Luta por Justiça conta a história de Bryan Stevenson, um jovem advogado negro formado em Harvard que abriu mão de carreiras lucrativas para defender condenados à morte que nunca tiveram representação legal adequada.
O caso de McMillian foi um dos primeiros e mais emblemáticos: havia múltiplos álibis, nenhuma evidência física, e a única testemunha era um criminoso com motivos claros para mentir. Mesmo assim, McMillian passou anos no corredor da morte.
Michael B. Jordan interpreta Stevenson com a contenção de quem sabe que explodir de raiva é um luxo que um homem negro não pode ter em certos contextos. Jamie Foxx, como McMillian, oferece algo mais complexo que a vítima passiva: um homem cínico, cansado de esperanças frustradas, que se recusa a acreditar que dessa vez será diferente.
A química entre os dois atores sustenta o filme mesmo quando o roteiro cede a convenções do gênero.
E há convenções demais. O diretor Destin Daniel Cretton segue a cartilha dos dramas de tribunal: os obstáculos burocráticos, as pequenas vitórias, os reveses dramáticos, o clímax redentor.
Brie Larson aparece como a cofundadora da organização de Stevenson, mas seu papel é tão subdesenvolvido que você se pergunta por que ela está ali além de emprestar seu nome ao cartaz.
Ainda assim, Luta por Justiça funciona. Funciona porque a história real é poderosa demais para falhar completamente. Funciona porque Jordan e Foxx são atores bons demais para entregar performances genéricas.
E funciona porque o filme documenta não apenas um caso individual, mas um sistema estruturado para condenar pessoas pobres e negras com base em preconceitos que se disfarçam de lei.
O roteiro é baseado no livro de memórias de Stevenson, que fundou a Equal Justice Initiative e conseguiu exonerar dezenas de prisioneiros injustamente condenados.
Nos créditos finais, descobrimos que para cada nove execuções nos Estados Unidos, uma pessoa no corredor da morte é posteriormente inocentada. O número é tão obsceno que você deseja que fosse ficção.
Com 85% de aprovação no Rotten Tomatoes e 68 no Metacritic, o filme teve recepção mista: elogiado pelas atuações e pela relevância, criticado pelo didatismo e pela fórmula.
Em 2020, após o assassinato de George Floyd, a Warner liberou o filme gratuitamente em todas as plataformas digitais americanas. A decisão foi tanto marketing quanto ativismo — mas também reconhecimento de que certas histórias precisam circular.
Monroeville, a cidade de Harper Lee, ainda exibe seu orgulho pelo Museu Mockingbird, celebrando a luta fictícia de Atticus Finch.
A luta real de Bryan Stevenson aconteceu nas mesmas ruas, contra os mesmos preconceitos, décadas depois. O Sol É Para Todos foi publicado em 1960. Walter McMillian foi condenado em 1987. Estamos em 2025.
2.
FUGITIVO POR ACIDENTE (2025)
The Accidental Getaway Driver | Dir.: Sing J. Lee | 101 min

O título em português sugere uma comédia de ação genérica. Longe disso. Baseado em fatos, Fugitivo por Acidente é um dos filmes mais subestimados de 2025: um thriller íntimo que começa como suspense e termina como um ensaio sobre paternidade, solidão e o peso do passado.
A premissa é simples. Long, um taxista vietnamita idoso na Califórnia, aceita uma corrida de madrugada. Os passageiros são três fugitivos recém-escapados de uma prisão do condado.
Quando as coisas dão errado, o grupo se refugia num motel barato e um tenso jogo de espera começa. Até aqui, território familiar. O que diferencia o filme de Sing J. Lee é o que acontece dentro desse motel.
Long é interpretado por Hiệp Trần Nghĩa numa performance de muitos olhares e poucas palavras. Aliás, quase não há diálogos no filme, mas seus olhos contam décadas de história: a guerra do Vietnã, a fuga para a América, os filhos que se afastaram, a esposa que morreu, as noites solitárias no volante de um táxi.
O líder dos fugitivos, Tây, é vivido por Dustin Nguyen, numa atuação que equilibra ameaça e vulnerabilidade. Também ele é um vietnamita na América. Também ele carrega feridas que não cicatrizam.
O que se desenvolve entre Long e Tây não é a síndrome de Estocolmo previsível de tantos filmes de reféns. É algo mais sutil: o reconhecimento mútuo de dois homens que perderam seus pais ou seus filhos, que foram brutalizados pela história e que encontram, naquele quarto de motel, uma conexão improvável.
Lee, que ganhou o prêmio de direção no Sundance 2023, filma com paciência oriental. Há cenas que duram o tempo necessário para que você sinta o desconforto, a tensão e depois a estranha ternura que cresce entre os personagens.
O filme foi baseado em um caso real. Mas Lee não está interessado em reconstituição factual. Ele queria falar sobre o que significa ser imigrante, sobre os traumas que passam de geração em geração, sobre a possibilidade de redenção mesmo nas circunstâncias mais improváveis.
“Você é culpado no momento em que nasce”, diz um personagem. É contra essa sentença que o filme luta.
A fotografia noturna de Michael Cambio Fernandez encontra beleza nos estacionamentos vazios, nos letreiros de néon, nas estradas desertas do sul da Califórnia.
Há ecos de Colateral, de Michael Mann, mas também do cinema contemplativo asiático. No Rotten Tomatoes, 84% de aprovação. No Metacritic, recepção positiva.
Mas os números não capturam o que o filme faz: ele te segura pelo braço e não solta até que você tenha sentido algo que não esperava sentir.
1.
A ÚLTIMA SHOWGIRL (2024)
The Last Showgirl | Dir.: Gia Coppola | 85 min

Pamela Anderson construiu uma carreira sendo subestimada. A loira de Baywatch, a musa da Playboy, a mulher no centro de escândalos que ela nunca pediu. Hollywood a tratou como corpo, não como atriz.
Quando seu agente recebeu o roteiro de A Última Showgirl, ele nem sequer mostrou pra ela. Foi seu filho, Brandon, que encontrou o material por acaso e convenceu a mãe a ler. Pamela leu, quis o papel, e demitiu o agente.
A história é a seguinte: Shelly Gardner é uma showgirl de Las Vegas que dança no mesmo espetáculo há trinta anos.
Ela tem 57, o corpo ainda funciona, a rotina está internalizada. Então o cassino anuncia que vai substituir o show por algo mais “moderno”, entenda-se: mais jovem. Shelly tem algumas semanas para descobrir para onde ir e o que fazer sem os figurinos de plumas e lantejoulas.
Gia Coppola, neta de Francis e sobrinha de Sofia, filma com câmera na mão e película 16mm. A textura é granulada, as cores quentes, os rostos sempre em close.
É um cinema íntimo que encontra épico no ordinário: os corredores do cassino, o apartamento apertado, as mesas de caça-níqueis onde a melhor amiga de Shelly serve drinques.
Jamie Lee Curtis, nesse papel de amiga, rouba cada cena em que aparece — incluindo uma sequência de dança ao som de “Total Eclipse of the Heart” que poderia até ter rendido seu segundo Oscar.
O elenco de apoio inclui Dave Bautista como o tímido técnico de luz que nutre uma paixão silenciosa por Shelly, Billie Lourd como a filha distante que não perdoa anos de ausência materna, Kiernan Shipka e Brenda Song como colegas de palco mais jovens que olham para Shelly com misto de admiração e medo.
E Pamela Anderson está extraordinária. Sem maquiagem excessiva, sem truques de iluminação, ela expõe rugas e vulnerabilidade com uma coragem que desmente décadas de caricatura midiática.
Críticos compararam sua performance a Judy Holliday, a atriz dos anos 1950 que combinava comédia e drama de forma única. A revista Time incluiu Anderson entre as dez melhores atuações de 2024. O Globo de Ouro e o SAG a indicaram a Melhor Atriz.
A Última Showgirl é sobre o que acontece quando as luzes se apagam. É sobre olhar no espelho e não reconhecer quem te olha de volta. E é sobre Pamela Anderson, finalmente, tendo a chance de mostrar que sempre houve uma atriz ali — por trás de todos os rótulos que ela teve que carregar.
Com 83% de aprovação no Rotten Tomatoes e um orçamento de menos de 2 milhões de dólares, o filme arrecadou 7 milhões mundialmente. Números modestos, mas o impacto foi maior.
Esses cinco filmes têm algo em comum: todos falam, de algum modo, sobre sobrevivência — seja física, moral ou emocional, e os cinco estão disponíveis na HBO Max Brasil em dezembro de 2025. A plataforma não avisa antes de remover títulos.
Então, se você quiser ver filmes bons de verdade, daqueles que fazem você pensar depois dos créditos, assista enquanto ainda dá tempo. Você foi avisado.
E aí, já viu algum? O que achou? Comenta aqui embaixo.
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.