Redescobrindo Doris

5 filmes imperdíveis que chegaram na HBO Max sem fazer barulho

Cinco longas que chegaram no catálogo da HBO Max para quem quer fugir das escolhas óbvias — de um documentário sobre a queda de Cabul a uma obra-prima esquecida de Otto Preminger

Todo catálogo de streaming tem duas camadas: a primeira é a vitrine, com lançamentos que a plataforma exibe na tela inicial, repetidos em banners e notificações; a segunda é a que guarda os filmes que entraram discretamente no acervo, sem barulho, e que correm o risco de ficarem lá sem nunca serem assistidos.

A HBO Max recebeu nas últimas semanas um punhado desses títulos, e a variedade chama atenção: um drama estadunidense sobre recomeço aos 60 anos, um documentário sobre a retirada das tropas do Afeganistão, dois suspenses que tratam do desaparecimento de uma criança e de uma adolescente, e a mais recente parceria entre Richard Linklater e Ethan Hawke.

Reuni aqui cinco filmes que você vai querer assistir.

5.

Doris, Redescobrindo o Amor (2016)

 Doris, redescobrindo o amor


Sally Field carrega o filme do primeiro ao último plano, e essa é a razão para vê-lo. Em Doris, Redescobrindo o Amor (Hello, My Name Is Doris), ela interpreta Doris Miller, uma mulher de mais de 60 anos que passou a vida cuidando da mãe e fazendo trabalho de escritório.

Quando a mãe morre, Doris se apaixona por John Fremont (Max Greenfield), o novo e bem mais jovem diretor de arte da agência. O roteiro, dirigido por Michael Showalter, evita transformar a personagem numa figura adorável e sem arestas: Doris mente, ultrapassa limites e confunde gentileza com reciprocidade amorosa.

É uma história de amadurecimento que chega tarde, mais interessada em por que Doris persegue o desejo do que se ela o realiza. Venceu o Prêmio da Audiência no SXSW em 2015 e tem 86% de aprovação no Rotten Tomatoes.


4.

Fuga de Cabul (2022)

Fuga de Cabul


Em agosto de 2021, as tropas dos Estados Unidos deixaram o Afeganistão depois de vinte anos de guerra, e o aeroporto de Cabul virou o único ponto de saída para dezenas de milhares de pessoas tentando fugir do Talibã. Fuga de Cabul (Escape from Kabul), dirigido por Jamie Roberts, reconstrói esses 18 dias com imagens de arquivo inéditas e entrevistas com três lados da história: civis afegãos, fuzileiros estadunidenses encarregados da evacuação e combatentes do Talibã que acabavam de tomar a cidade.

O documentário dura cerca de 77 minutos e mantém o foco na linha do tempo, o que torna o caos compreensível mesmo para quem acompanhou os fatos só pelas manchetes. Tem 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, ainda que sobre uma base pequena de seis críticas.


3.

Bunny Lake Desapareceu (1965)

Bunny Lake Desapareceu


Ann Lake (Carol Lynley) acaba de se mudar para Londres com a filha pequena, Bunny. No primeiro dia de aula, ela vai buscar a menina e descobre que ninguém na escola se lembra de tê-la visto, e que não existe registro da matrícula. A polícia, representada pelo superintendente vivido por Laurence Olivier, começa a investigar a própria mãe: a criança existe, ou é invenção de Ann? Bunny Lake Desapareceu (Bunny Lake Is Missing) é um suspense psicológico de Otto Preminger, adaptado do romance de Merriam Modell.

Preminger trabalha com planos longos e enquadramentos fechados que apertam o espaço em volta da protagonista, e Keir Dullea, três anos antes de 2001, compõe o irmão de Ann com uma estranheza que cresce a cada cena.


2.

Hardcore: No Submundo do S3xo (1979)

Hardcore: No Submundo do Sexo


Jake Van Dorn (George C. Scott) é um empresário calvinista do meio-oeste estadunidense, daqueles que organizam a vida inteira em torno da fé. Quando sua filha adolescente, Kristen, some durante uma viagem religiosa à Califórnia, ele contrata o detetive Andy Mast (Peter Boyle) e descobre que ela aparece num filme pornográfico clandestino.

Hardcore: No Submundo do Sexo (Hardcore) é o segundo longa de Paul Schrader, o roteirista de Taxi Driver, e parte da mesma matriz: um homem solitário mergulha num ambiente que despreza, e o contato com esse mundo abala as certezas morais com que ele organizava a vida. Van Dorn entra na Califórnia convicto de que sabe o que é certo e errado, e sai dela diante de zonas cinzentas que sua fé não previa, inclusive sobre as próprias escolhas como pai.

Scott sustenta o filme com a fúria contida de um pai disposto a fingir que é produtor pornô para chegar à filha. A nota no IMDb é 7,1, e a duração fica em torno de 108 minutos.


1.

Blue Moon: Música e Solidão (2025)

Blue Moon: Música e Solidão


Em 31 de março de 1943, o letrista Lorenz Hart passa a noite no bar Sardi’s enquanto a Broadway celebra a estreia de Oklahoma!, o musical que seu antigo parceiro Richard Rodgers escreveu com outro colaborador.

Em Blue Moon: Música e Solidão (Blue Moon), Richard Linklater confina quase toda a ação a esse único cômodo e deixa Ethan Hawke falar: Hart bebe, faz piada e tenta se convencer de que ainda importa enquanto o mundo segue adiante. O roteiro é de Robert Kaplow, e o elenco reúne Margaret Qualley, Bobby Cannavale e Andrew Scott — este último vencedor do Urso de Prata de melhor atuação coadjuvante no Festival de Berlim de 2025. Hawke foi indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro de melhor ator.

O filme tem em torno de 89% no Rotten Tomatoes e nota 6,8 no IMDb.


O que esses cinco filmes têm em comum é a distância entre o valor que têm e a atenção que recebem. Um drama com uma das melhores atuações de Sally Field, um documentário premiado pela crítica, um Preminger que muita gente nunca viu, um Schrader dos anos 1970 e uma cinebiografia indicada ao Oscar dividem a mesma plataforma com lançamentos mais barulhentos.

A vantagem do streaming é justamente essa: o catálogo guarda essas obras à espera de quem procura. Vale procurar esses cinco antes que sumam sem aviso.

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